segunda-feira, 26 de abril de 2021

Confiança e honestidade - características cruciais para o enriquecimento de qualquer economia

 Tolerância para com criminosos e desonestos garante o atraso



Atitudes como desonestidade, mentira e trapaça não são tratadas com a devida abjeção que merecem. Para se compreender melhor a importância da honestidade e da confiança, apenas imagine como seria nossa rotina diária se não pudéssemos confiar em ninguém.

Quando compramos em uma farmácia um recipiente contendo 100 pequenas pílulas (como vidros de homeopatia, por exemplo), quantos de nós nos damos ao trabalho de realmente contar as pílulas? E quando o remédio é líquido, quantos de nós conferimos se o volume divulgado no rótulo corresponde ao volume verdadeiro? 

Quando abastecemos nosso carro no posto, como sabemos que os litros especificados na bomba realmente correspondem ao volume que entrou no tanque do carro? Quando você vai ao supermercado e compra 1 quilo de carne, você por acaso verifica — por meios independentes — se realmente está levando um quilo de carne? 

Em cada um desses casos, e em milhares de outros, nós simplesmente confiamos no vendedor.

Inversamente, há milhares de situações em que é o vendedor quem tem de confiar no comprador. Após um mês de trabalho, o empregado confia que seu patrão irá lhe pagar o salário combinado. Um comerciante vende um produto e recebe em troca um cheque, o qual ele confia que tenha fundo. Um fornecedor entrega uma mercadoria para seu cliente e confia que este irá lhe pagar dali a 30 dias, como combinado.

Exemplos de honestidade e confiança são abundantes, mas imagine o custo e a inconveniência caso não pudéssemos confiar em ninguém. Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne. Imagine a inconveniência de ter de contar o número de pílulas ou de mensurar o volume de um líquido dentro de um recipiente?

Se não pudéssemos confiar em ninguém, se a simples palavra do vendedor ou do comprador não tivesse valor nenhum, teríamos de arcar com o oneroso fardo de fazer contratos por escrito para toda e qualquer transação efetuada. Teríamos de arcar com todos os custos de monitoramento que garantem que a outra parte irá fazer corretamente até mesmo às mais simples transações. 

Podemos dizer com toda a certeza que tudo aquilo que solapa a honestidade e a confiança aumenta os custos de transação, reduz o real valor das trocas voluntárias e nos torna mais pobres.

Honestidade e confiança se manifestam de maneiras que poucos de nós sequer conseguimos imaginar. Em determinadas vizinhanças, por exemplo, é comum que empresas de entrega deixem encomendas muitas vezes valiosas em frente à porta caso o morador não esteja em casa para recebê-la. Não há necessidade de marcar horário para a entrega, o que é bom tanto para o morador quanto para a empresa. Ambos ficam com suas agendas livres e aumentam sua produtividade. 

Da mesma maneira, supermercados e demais estabelecimentos comerciais podem tranquilamente expor várias mercadorias perto das portas de entrada e saída do estabelecimento, ou até mesmo deixá-las do lado de fora do estabelecimento, sem se preocupar com roubos.

Já em vizinhanças notoriamente menos honestas, empresas de entrega que deixassem encomendas na porta de uma casa e estabelecimentos comerciais que expusessem mercadorias perto da rua estariam cometendo o equivalente a um suicídio econômico.

Desonestidade é algo oneroso. Empresas de entrega não podem simplesmente deixar encomendas em frente à porta caso o morador não esteja em casa. A empresa terá de arcar com os custos de fazer uma nova viagem em outro horário. Ou terá de tentar agendar um horário. Ou então o cliente terá de arcar com os custos de ter ele próprio de ir recolher o produto. Se um estabelecimento comercial decidir exibir algumas de suas mercadorias do lado de fora, ele terá da arcar com os custos de contratar um auxiliar — isso se ele realmente puder se arriscar a deixar suas mercadorias do lado de fora.

Nas relações de trabalho, a desonestidade e a falta de confiança podem ser fatais. Patrões desonestos prejudicam seus empregados e podem afetar todo o seu êxito profissional. Empregados desonestos podem quebrar empresas e falir seu patrões, tanto por meio do roubo quanto por acionamentos judiciais desnecessários.

A despercebida tese de Fukuyama

Francis Fukuyama ficou famoso em 1988 por causa da publicação de seu livro O Fim da História. A tese que ele defendia era simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros. Isso se comprovou uma óbvia inverdade. Pense no Islã. Pense na política burocrática reinante na China. Pense em Hong Kong e em Cingapura, que não têm democracia — ao menos, não no estilo defendido por Fukuyama.

À época, o livro recebeu uma estrondosa publicidade. Hoje, ele raramente é citado. Nunca entendi por que esse livro foi levado a sério. No entanto, durante um bom tempo, várias pessoas o levaram a sério.

Em 1995, Fukuyama publicou outro livro: Confiança. A publicidade recebida por este livro foi ínfima. Mas o livro é excelente. Digo mais: é um dos mais importantes livros já escritos sobre economia e ordem social.

Neste livro, Fukuyama analisa os efeitos da confiança sobre uma sociedade. Ele concentra sua análise nos Estados Unidos, no Japão, na China e no sul da Itália, onde praticamente não há confiança nenhuma em nada e ninguém confia em ninguém. Ato contínuo, ele analisa como a presença ou a ausência da confiança pode se tornar uma fonte de ordem social, de crescimento econômico e de aumento da produtividade geral. 

Ele descobriu, de maneira nada surpreendente, que os EUA, até aproximadamente 1960, possuíam uma enorme vantagem competitiva em relação ao resto do mundo por causa do alto nível de confiança que seus habitantes tinham em relação aos seus conterrâneos. À medida que a confiança foi declinando, a taxa de crescimento econômico também declinou. Concomitantemente ao declínio na confiança houve um aumento no número de advogados.

Uma das sociedades menos produtivas de toda a Europa Ocidental é a do sul da Itália. Ele atribui isso à falta de confiança que reina na região. Esse é um dos motivos pelos quais as sociedades secretas, especialmente a Máfia, têm tanta influência no sul da Itália: tais organizações provêm um mínimo de ordem social para seus membros, e a população em geral não oferece muita resistência à existência destas organizações.

A seção sobre a China é a mais interessante. Fukuyama diz que os chineses apresentam um grande nível de confiança, mas somente em relação às suas famílias. Isso faz com que seja muito difícil para empresas chinesas concorrerem com pequenos empreendimentos geridos por famílias ou com pequenos empreendimentos que tenham conexões familiares. Faz com que seja mais difícil criar grandes empresas. E faz com que seja ainda mais difícil levantar fundos e conseguir capital para financiar essas grandes empresas.

Já o Japão está em um meio-termo entre os EUA e a China. No Japão, ao contrário da China, há mais confiança em organizações que não estejam ligadas a famílias. No entanto, os grandes conglomerados japoneses possuem em suas raízes um pequeno número de famílias japonesas.

Em seu livro, Fukuyama dizia acreditar que as corporações japonesas poderiam concorrer no mercado internacional de maneira mais efetiva do que as empresas chinesas porque os japoneses podiam contratar as melhores pessoas, muito embora suas empresas não apresentassem conexões familiares. Os japoneses também seriam capazes de conseguir dinheiro para investimentos mais facilmente do que as empresas chinesas.

Se olharmos o que ocorreu ao longo das últimas décadas, creio que essa tese se comprovou. Empresas chinesas demonstraram uma maior tendência de serem mais intimamente associadas ao governo chinês. O estado tem sido a fonte de financiamento das empresas chinesas. O sistema bancário está mais intimamente ligado ao estado na China do que nas nações ocidentais.

A ausência de instituições formais pode ser observada quase que em sua integralidade na República Popular da China, onde a ideologia maoísta foi a grande responsável pelo atraso na introdução de instituições "burguesas", como o direito comercial. Até o presente momento, empreendedores na China têm de enfrentar um ambiente jurídico extremamente arbitrário, no qual os direitos de propriedade são tênues, os níveis de tributação são variáveis e mudam de acordo com as vontades de cada governo provincial, e o suborno é a rotina quando se lida com funcionários do governo. (p. 330)

Fukuyama também escreveu o seguinte:

Um estado liberal é, em última instância, um estado limitado; um estado em que a atividade do governo é estritamente delimitada pela esfera da liberdade individual. Se tal sociedade não se degenerar no caos ou se tornar ingovernável, ela será capaz de apresentar uma autonomia governamental em todos os níveis de organização social.  

A sobrevivência de tal sistema dependerá não somente da lei, mas também do autocontrole e do comedimento dos indivíduos. Se eles não forem capazes de apresentar uma coesão em prol de um propósito comum; se eles não forem tolerantes e respeitosos em relação aos conterrâneos, ou não respeitarem as leis que eles próprios criaram para si mesmos, uma agência com grande poder coercivo terá de ser criada para manter cada indivíduo na linha. 

Por outro lado, um arranjo sem estado pode funcionar em uma sociedade que apresente um grau extraordinariamente alto de sociabilidade espontânea; uma sociedade na qual o comedimento, a temperança e o comportamento baseado em normas fluam naturalmente do cerne desta sociedade, sem ter de ser trazido de fora. 

Um país com um capital social baixo não apenas é mais propenso a ter empresas pequenas, fracas e ineficientes, como também sofrerá mais com a corrupção generalizada de seus funcionários públicos e com uma administração pública ineficaz. Tal situação é dolorosamente evidente na Itália, onde, à medida que se sai do norte e do centro do país em direção ao sul, percebe-se uma relação direta entre atomização social e corrupção (pp. 357-58).

Creio que a teorização acima é correta. Ela é perceptível em todos os países que enriqueceram.  Além dos EUA, pense na Suíça, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Pesquise o nível de confiança vigente nestes países. Pesquise a percepção de honestidade e como sua população interage entre si. Pesquise o grau de burocracia exigido para se fechar um negócio. Depois, faça o mesmo para os países da América Latina e da África.

O fato de honestidade e confiança serem tão vitais deveria nos fazer repensar a nossa tolerância para com criminosos e pessoas desonestas — a começar por todos os criminosos que estão no poder e que gozam de impunidade


https://www.mises.org.br/article/1983/confianca-e-honestidade--caracteristicas-cruciais-para-o-enriquecimento-de-qualquer-economia

quinta-feira, 15 de abril de 2021

STF se comporta como uma ditadura de terceiro mundo

J.R. Guzzo 



Decisões recentes de ministros do STF se assemelham a arroubos autoritários de ditadores do terceiro mundo.| Foto: Rosinei Coutinho/STF


O STF, o único governo de fato que existe no Brasil de hoje, assume cada vez mais a cara, corpo e alma de uma dessas ditaduras africanas (a América Latina já está numa outra fase) nas quais um ato extremista puxa outro e os ditadores, nos seus arranques de despotismo, vão perdendo o contato com a realidade. Acontece o tempo todo: os ministros, colocados diante de uma decisão radical, tomam outra ainda mais radical. Aconteceu de novo.


Sem razão nenhuma, apenas usando a petição de um partido-anão para satisfazer os seus desejos políticos (e os do resto do STF), o ministro Luís Roberto Barroso impôs ao Senado uma humilhação espetacular: mandou o presidente da Casa abrir uma CPI que ele, no pleno uso dos seus direitos constitucionais, não queria abrir. Logo depois de ter feito a Câmara engolir a prisão ilegal de um deputado, o STF dobra a aposta, enfiando goela abaixo do Senado uma CPI sem pé nem cabeça, integralmente facciosa, e sem nenhum outro objetivo que não seja agredir o Executivo.


A comissão, como se sabe, é para investigar a conduta do governo federal durante a pandemia de Covid-19. Só a dele, é claro, e não as ações dos estados e municípios — que receberam do mesmo STF, há mais de um ano, autonomia completa para gerir a epidemia e só produziram até agora 360 mil mortos e uma devastação sem precedentes na economia do país.


Não saiu bem como queriam; na forma final, ficou aberta uma brecha para perguntas sobre a maciça roubalheira de verbas federais por parte das “autoridades locais”, um escândalo em moto contínuo que já provocou mais de 70 investigações da Polícia Federal.


Mas o propósito de atacar o governo e, especialmente, a Presidência da República, permanece intacto: junto com a CPI, para completar o serviço, o STF deu curso a um prodigioso processo para julgar Jair Bolsonaro por “genocídio” — pelo que deu para entender, o presidente está sendo acusado de não fornecer água potável às “populações indígenas”. Acredite se quiser.


Como tinha acontecido na Câmara, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, cedeu miseravelmente a mais uma intromissão do STF em questões internas do Congresso Nacional. Durante os últimos 63 dias, Pacheco vinha argumentando que não abria a CPI pedida pelo partido nanico porque o momento, no meio de uma tragédia absoluta, não era apropriado. Não aconteceu nada de novo até agora — mas o “momento”, assim que Barroso falou, passou a ser ótimo. O ministro mandou, Pacheco obedeceu no ato; ao que parece, estão se acostumando a apanhar e gostar. É isso, hoje, o Parlamento brasileiro.


Como acaba de escrever a Gazeta do Povo, o Supremo cometeu um suicídio moral ao anular todas as ações penais contra Lula por corrução e lavagem de dinheiro, inclusive a sua condenação em terceira e última instância por nove juízes diferentes. Suicidou-se outra vez, logo em seguida, ao julgar o juiz Sergio Moro “suspeito” de agir com parcialidade — com base em informações obtidas através de crime e cuja autenticidade está em dúvida.


Com os seus repetidos surtos na área política, o STF está operando, a cada dia que passa, como uma das ditaduras mais extravagante e subdesenvolvidas que há por aí.



 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jr-guzzo/stf-se-comporta-como-ditadura-de-terceiro-mundo/ 


segunda-feira, 12 de abril de 2021

O que ganhamos até agora com a política do “fecha tudo”

J.R. Guzzo 12/04/2021  


Loja na Avenida Paulista com a porta semiaberta durante o Lockdown em São Paulo: milhares de empregos perdidos para a política do fecha tudo.| Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas


Há pelo menos um mês, e ainda mais tempo em muitos lugares, o Brasil está fechado por conta das medidas que as “autoridades locais” estão tomando em sua tentativa desesperada — e muito lucrativa para elas — de “gerir” a Covid-19. Dezenas de milhares de negócios foram fechados; outros tantos estão à beira da falência. Perto de 9 milhões de empregos foram eliminados apenas no ano passado. Só em São Paulo, a principal vítima do desastre, e só nos últimos 30 dias de “fecha tudo” em modo extremo, 150 mil pessoas ficaram sem trabalho. Em compensação, nunca as “autoridades locais” mandaram tanto.


A economia brasileira, pelo segundo ano seguido, está em ruínas; fora o agronegócio, a indústria, o comércio e os serviços têm sido devastados. Donos de pequenos negócios estão tendo de vender carros e outros objetos pessoais, inclusive as próprias casas, para pagar as indenizações rescisórias que têm de fazer por lei aos empregados que foram obrigados a demitir; se não fizerem isso, a Justiça Trabalhista arruína de vez com as suas vidas. Pelo menos um terço da população estava sem nenhum tipo de renda no fim de 2020. Há gente passando fome nas áreas mais pobres das cidades.


Em troca de tudo isso, o que se ganhou foi zero. Na verdade, as coisas têm ficado cada vez piores: o “lockdown”, “toque de recolher” e outras maravilhas só resultaram, até agora, em cada vez mais mortos — já são mais de 350 mil, dos quais cerca de 160 mil apenas de janeiro para cá, justamente o período em que as medidas repressivas se tornaram as mais extremas. Tudo dá errado. Nada dá certo.


Como alguém pode achar que alguma coisa está funcionando bem com a atual política de paralisação da economia e da vida social? Ao contrário: as “autoridades locais” estão comandando um fracasso sem precedentes na história do Brasil, que só não incomoda a governadores e prefeitos porque ninguém cobra deles nenhuma responsabilidade pelo desastre que estão promovendo.


A culpa, segundo o Supremo Tribunal Federal, as elites, os que estão protegidos em seus salários, seus ganhos e seu bem estar, e a maior parte da mídia, é do “governo federal”. É lá, em Brasília, que estão praticando “genocídio”; todos os demais, automaticamente, se declaram absolvidos e por conta disso continuam repetindo, todos os dias, tudo o que tem provocado o desastre.


Se as “autoridades locais” não têm nada a ver com as 350 mil mortes, todas ocorridas neste período em que elas têm administrado a Covid com autonomia total por ordem do STF, que esperança a população pode ter? Governadores e prefeitos, que hoje desfrutam da posição de ditadores — e não têm o menor interesse em mudar essa situação — vão continuar fazendo exatamente o que têm feito. Se continuarem a fazer o que têm feito, os resultados continuarão iguais. Xeque-mate.


Os governadores e a maioria dos prefeitos paralisam a economia, impedem o trabalho e desaprovam o tratamento precoce. Não conseguiram resultado nenhum que não fosse o aumento contínuo, e cada vez mais rápido, no número de mortos; em resposta a isso, tornam ainda pior o fechamento e apoiam uma CPI que o STF mandou fazer para apurar “responsabilidades” na pandemia — mas só as do governo federal, e nada que diga respeito às “autoridades locais”, das mortes à roubalheira desenfreada que tantos vêm praticando por conta da “emergência”. Ela lhes permite fazer tudo e não prestar conta de coisa alguma. É claro que só têm mais estímulo para continuar no mesmíssimo caminho que nos trouxe até aqui.


 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jr-guzzo/o-que-ganhamos-com-politica-do-fecha-tudo-na-pandemia/ 


segunda-feira, 29 de março de 2021

Governadores e prefeitos nunca tiveram tanto poder nas mãos

J.R. Guzzo 29/03/2021  


De todas as calamidades trazidas pelo combate à Covid-19, e muito acima da incompetência maciça dos “gestores locais” – o que produziram até agora, com todos o seus “toques de recolher”, foi um total de vítimas que já passou dos 300 mil mortos –, uma é especialmente perversa. Trata-se da aberração legal e política que foi a transformação da maioria dos governadores e centenas de prefeitos em ditadores dos pedaços de Brasil em que mandam.

Sempre que se fala no assunto, o "Movimento Nacional Pró-Pânico" diz que isso é um exagero; eles estão “salvando vidas”, e por conta desta incumbência causam alguns “transtornos” aqui e ali, mas nada que não seja compreensível diante da imensa importância da tarefa que têm diante deles.

Os fatos mostram que não é assim. Dá para ficar falando no assunto pelas próximas 100 colunas na Gazeta do Povo, mas uma realidade da nova ordem, apenas uma, é mais do que suficiente para entender a natureza realmente maligna do que está acontecendo: ao se tornarem tiranos de ocasião, por conta dos poderes que receberam para lidar com a covid, governadores e prefeitos passaram a ser os grandes beneficiários pessoais das regras criadas com o objetivo de combater a epidemia. A questão aqui é dinheiro.

Disso todo mundo entende, não é? A grande calamidade real do combate à covid é, justamente, o “estado de calamidade” – essa trapaça monumental da vida pública do Brasil, praticada ao longo de toda a nossa história. Como se sabe, ela consiste em liberar para as “autoridades locais”, sob a desculpa que está acontecendo um desastre, verbas em dinheiro que elas podem gastar basicamente como lhe dá na telha.

Se com todos os controles e riscos que existem hoje nas finanças públicas do país já se rouba uma enormidade, imagine-se então quando a honestidade na aplicação dos recursos se torna uma coisa voluntária. Quem acredita que as verbas extraordinárias, e imensas, que governadores e prefeitos recebem para instalar leitos de UTI e equipar os hospitais públicos estão realmente sendo gastas com escrúpulos, integridade e eficiência?

O governador do Rio Grande do Sul, por exemplo, usou verbas federais destinadas a tratar da covid, na mesma hora em que recebeu, para pagar salários atrasados do funcionalismo estadual. O dinheiro para os leitos de UTI passou antes pelo alcance dos credores que estão dentro de casa — e por ali ficou.

O governador do Sergipe, que falou em “requisição administrativa” de propriedade privada para combater a epidemia — uma frente de oportunidades na qual nenhum colega parece ter pensado até agora —, estava sem dinheiro para fechar as contas do Estado. Resolveu a sua vida com o estado de calamidade. Os governadores do Nordeste, de um modo geral, jamais tiveram tanto dinheiro como hoje — e não precisam prestar contas sobre nada, bastando dizer que foi gasto “em pandemia”.

Fica cada vez mais fácil de entender, na verdade, a agressividade cada vez maior das autoridades locais na repressão às liberdades públicas, aos direitos individuais, ao trabalho, à produção e à vida social. Enquanto a coisa está assim, está bom para elas e para sua clientela — a começar pelos funcionários públicos. Elas têm, custe o que custar, de manter vivo o “distanciamento social” e o atual ambiente de desordem para manter os poderes que lhes foram conferidos pelo STF e, desde então, aumentados por conta de cada um. Estão defendendo o seu — e esse “seu” é muita coisa. Inclui poder de ditador, de um lado, e dinheiro grátis, de outro. Quem resiste?

O fato é que governadores e prefeitos nunca tiveram na vida isso tudo que têm hoje. Não vão ter outra vez. É natural que queiram que o “lockdown” dure para sempre, ou pelo máximo de tempo que conseguirem.


 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jr-guzzo/governadores-prefeitos-nunca-tiveram-tanto-poder-nas-maos/ 


sábado, 20 de março de 2021

O ano do rato

Leonardo Coutinho 


20/03/2020 

O embaixador Yang Wanming ao lado do presidente Jair Bolsonaro: estilo discreto esconde determinação de defender os interesses chineses no Brasil.| Foto: Alan Santos/PR

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No calendário chinês, 2020 é dedicado ao rato. Perdoem-me os fãs do roedor (se é que eles existem), mas eles são um dos animais mais asquerosos que, nas sombras, convivem entre nós. Competem com as baratas no pódio dos bichos mais nojentos e sujos. Basta se lembrar daquela música dos Titãs.


Nesta semana, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, veio à luz. Servindo em seu quinto posto na América Latina, ele construiu sua reputação como um homem discreto desempenhando o seu papel e colocando em prática os planos de Pequim sem fazer barulho. Transitando pelo cenário geopolítico latino-americano sem quase ser notado, mas não sem efeitos. Ele já foi terceiro secretário na embaixada na Argentina; conselheiro na representação no México; e embaixador no Chile e na Argentina antes de desembarcar no Brasil em março do ano passado. Experiência que fez com que ele chefiasse o departamento de América Latina do Governo chinês.


Mas Wanming quebrou a regra nesta semana. E não o fez de forma autônoma ou não calculada. Quem entende minimamente o funcionamento das manifestações na diplomacia ou tem apenas uma vaga ideia de como as coisas funcionam na China sabe que a violência com a qual o diplomata reagiu a uma postagem no Twitter só pode ter acontecido com sob as ordens do Partido Comunista Chinês, ou até possivelmente do presidente Xi Jinping.


Wanming saiu da toca para atacar o governo brasileiro. A postagem do filho do presidente e deputado Eduardo Bolsonaro foi apenas o gatilho para a China aproveitar e demarcar sua posição. A nota da embaixada é clara. Combinada com as mensagens postadas por eles e o embaixador no Twitter, ela é uma ameaça. Façam o que eu mando ou sofrerão as consequências.


O chiado dos chineses se dá quando o governo brasileiro passa pelo seu momento mais conturbado. Seja pelos efeitos globais do vírus chinês, seja pelas questões internas. No tabuleiro chinês, não há hora melhor para o golpe. Recomendo a leitura (infelizmente apenas em chinês e inglês) de um livro redigido por dois generais daquele país. No texto, que é empregado como doutrina militar pelo regime, há o “mapa” que indica como o país deveria combater, de forma não-bélica, as potências ocidentais, a fim de (re)conquistar relevância global. O que está acontecendo no Brasil está bem descrito no trabalho. Um dos pontos em questão pode ser lido a partir da página 146.


Na Argentina, país onde Wanming serviu como embaixador de 2014 a 2018, sua reputação dentro de alguns círculos mais exclusivos do governo anterior é a de um rato. Ele foi arquiteto de uma das maiores trapaças diplomáticas da história argentina e provavelmente mundial.


Poucos meses depois que assumiu a embaixada da China em Buenos Aires, ele conseguiu firmar com os argentinos um acordo de cooperação na área de ciência e tecnologia recheado de boas intenções. O Congresso argentino, então recheado de kirchneristas, aprovou a construção de uma base de satélites chinesa no deserto da Patagônia. A maior do gênero fora da China. O empreendimento erguido com a promessa de uso civil ajudaria os argentinos com o provimento de uma dados científicos derivados das pesquisas espaciais que os chineses desenvolveriam ali.


Em 2016, ainda recém-empossado, o então presidente da Argentina Mauricio Macri se deu conta de um problema. Os argentinos não podiam ter acesso às instalações que estavam sendo construídas pelos chineses. Então ele determinou que a ministra das relações exteriores Susana Malcorra chamasse o embaixador Wanming para uma conversa. Macri não estava de acordo com a perda de soberania da Argentina sobre parte de seu território.



Além da falta de cumprimento do contrato, que prevê que os chineses informem sobre as atividades desenvolvidas na base, Macri pedia uma revisão dos termos, pois considerava inaceitável o fato de que as instalações chinesas continuassem inacessíveis aos argentinos. Segundo o relato de um ex-funcionário argentino, Wanming foi extremamente solicito. Em perfeito espanhol, disse para chanceler que estava às ordens. Que a Argentina apresentasse todas as sugestões desejadas. Com o sorriso no rosto, ele recomendou apenas que fossem observadas algumas cláusulas que fez questão de citar.


Foi então que os argentinos se deram conta da armadilha. A revisão do contrato da base implicaria na revisão de todos os contratos com a China. Estavam em jogo bilhões de dólares em empréstimos e investimentos. Macri se viu sequestrado. Calou-se e Wanming venceu, sem disparar um tiro e sem ganhar a atenção do mundo fincou na América do Sul uma autêntica instalação militar.


O envio de Wanming para o Brasil não foi casual. Ele chegou ao país na largada do governo Bolsonaro e com uma missão. Ao longo do ano passado, ele, ao seu estilo discreto, mas direto, mandou várias mensagens para o governo. Enviou generais chineses para tentar convencer seus pares brasileiros sobre a necessidade de “escolher um lado” no mundo. Chegou a prometer um acordo de cooperação militar com Brasil em troca do rompimento com os Estados Unidos e replicou o modelo de diplomacia que adotou na Argentina: a cooptação de elites.


Com a ajuda de empresários e políticos, a Wanming fez o que fez. Assustadoramente, no Brasil não tem sido diferente. A cegueira provocada pelas disputas políticas internas aliada à sinodependêcia de nossa economia está nos levando ao mesmo destino. Não falta muito para assumirmos uma posição que cabe em outra acepção de ratos.




Leonardo Coutinho

Jornalista, autor do livro “Hugo Chávez, o espectro”, pesquisador e comentarista sobre segurança e relações internacionais. Escreve semanalmente, desde Washington, D.C.

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sexta-feira, 12 de março de 2021

 Nove da noite, rua Dias Ferreira deserta. Para quem não conhece, Dias Ferreira é uma rua no Leblon com vários restaurantes e alguns bares. Não dá para dizer que é um reduto da boemia carioca. Seria uma espécie de tangente burguesa do Baixo Leblon, alguns passos na diagonal em direção ao mar. Ali sim, um reduto boêmio. Para quem conhece, dá no mesmo: é como se não conhecesse. Nada disso está mais lá.  



Sim, tem uns bares e restaurantes na área. Mas o espírito se mandou. Não vamos culpar o coronavírus. Esses caretas do politicamente correto já vinham expulsando a poesia dali há um bom tempo. Narcisismo e vaidade sempre andaram misturados com a boemia – mistura eventualmente escandalosa. Mas quando havia talento, coração e poesia na esquina, valia a pena. Aí foi chegando esse narcisismo primário, pueril, avarento, dessas caras enfiadas em iPhone para teclar frases imortais de porta de banheiro. O banheiro é a igreja de todos os bêbados, explicou Cazuza. Era. Hoje é no máximo testemunha da mediocridade dos nerds.


Essa gente moralista metida a descolada não gosta de ninguém. Não gosta de encontro. Não gosta de liberdade. Seu prazer é o julgamento. Sua alegria é patrulhar o próximo. Claro que uma epidemia estaria destinada a ser a apoteose desses pobres coitados. E quando lhes deram de presente o tal “fique em casa” – o slogan mais reacionário da história – eles explodiram de felicidade. Finalmente era possível patrulhar qualquer um, em qualquer circunstância, com essa monstruosa ética de videogame: viver é botar vidas em risco.


Estão por aí, de peito estufado no zoom, macaqueando a tal em-pa-tia e se dizendo es-tar-re-ci-dos com o coleguinha que foi fotografado, exposto e execrado por andar de bicicleta, sem máscara! Esses avarentos sempre sonharam com isso. Sempre ambicionaram ser a polícia moral do mundo, os carrascos inteligentinhos de bons modos metendo o dedo na cara do próximo para gemer lições de vida de Facebook. E o Leblon?


O Leblon acabou. Nove da noite na Dias Ferreira hoje dá para ouvir uma folha seca batendo no asfalto. Vários camburões cheios de homens armados e guardas vagando com cassetetes maiores que tacos de beisebol para cumprir o toque de recolher decretado pelo prefeito Eduardo Paes, aquele que vivia posando de chapéu para dar uma de folião da Portela. Só se for a folia dos fantasmas.


Os sambistas de verdade estão por aí aglomerados nos ônibus todos os dias, porque isso não incomoda os patrulheiros da quarentena vip a quem o prefeito obedece – e a quem os enlatados nos ônibus servem. Todo mundo sabe que o vírus é noturno. Por isso o tiranete metido a malandro da Portela transformou a noite carioca em cemitério. A ex-capital da alegria e da liberdade virou uma cidade fantasma, acovardada diante da sanha ditatorial de uma casta de idiotas que não seguem ciência alguma e não salvam vida de ninguém.


Onde estão os libertários do Rio de Janeiro para gritar contra a opressão? Para dizer que um povo digno não confunde cuidados sanitários com ditadura? Para dizer que empurrar cidadãos para dentro de casa como ratos sob pretexto de proteção à saúde é uma violência mentirosa? Sumiram todos. Os cariocas indomáveis viraram, como os cidadãos de diversas outras localidades, cachorrinhos de madame. E madame está avisando que não vai largar a coleira.

Guilherme Fiuza


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A ciência do gogó

 Mistérios rondam a crise sanitária. No momento em que mais se precisa de informação segura, surge uma vasta e espessa névoa intelectual. Como a literatura científica sobre a Covid está em formação e, por motivos óbvios, ainda repleta de incertezas, estabeleceu-se um código enigmático na mídia, na comunidade médica e outros círculos: parte das incertezas pode ser afirmada como certeza; outra parte das incertezas não pode ser nem mencionada. Exatamente isso que você entendeu: cala a boca.  



Vamos obedecer momentaneamente a essa censura tosca – sobre a burrice do lockdown indiscriminado, por exemplo, que rende o carimbo de "negacionista" a quem ousa examinar-lhe a completa falta de critérios – e vamos nos deter na parte das incertezas promovidas a certezas. Você perguntou como se deu essa promoção? É simples. Ela se deu por um moderno critério de consolidação científica vigente desde o ano de 2020: no grito.


Veja por exemplo a desenvoltura do deputado Ricardo Barros, que é líder do governo na Câmara, ameaçando publicamente "enquadrar" a Anvisa. Segundo o deputado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária criou "um monte de exigências" para liberação de vacinas e o processo tem de ser acelerado.


O que se sabe no Brasil e no mundo é que os estudos gerais para imunização contra a Covid-19 em idosos são, até o presente momento, insuficientes. E veja: a própria Anvisa aprovou duas vacinas para aplicação emergencial no Brasil com laudo em que atesta que a quantidade de idosos nos estudos é insuficiente para garantir a eficácia e a segurança dos imunizantes.


Mas o uso emergencial não é para os grupos de risco? E a maioria dos que estão nos grupos de risco não é de idosos? Justamente esses que não foram devidamente estudados quanto à efetividade e aos riscos das vacinas? Que emergência é essa? Como uma imunização emergencial salvará os que não se sabe se podem ser salvos pelos referidos imunizantes?


Traduzindo: a aprovação das vacinas de Oxford e Coronavac pela Anvisa para aplicação emergencial no Brasil é no mínimo controversa. E o deputado Ricardo Barros quer que o rito de liberação por parte da agência seja mais rápido ainda. Qual é a ideia? Liberar vacinas sem estudo? Liberar logo e estudar depois? Que ciência é essa?


Os apressados da vacina experimental compõem um movimento realmente intrigante – e que conta com um impressionante grau de benevolência geral. Até o sumido Aécio Neves reapareceu, antes mesmo de qualquer aprovação emergencial, para propor um plano de vacinação geral obrigatória, através de formas indiretas de embargo social ao cidadão não vacinado. Hein?!


Nem a taxa de letalidade, nem os grupos vulneráveis indicam a necessidade de vacinação universal contra a Covid. Considerando ainda os riscos para a saúde, a falta de eficácia comprovada, o ataque à liberdade do cidadão e os custos bilionários envolvidos, uma proposta dessas seria necessariamente, numa sociedade sadia, um escândalo. Mas não foi. Dessa vez deixaram Aécio em paz.


O que está acontecendo? Que forças irresistíveis movem os vacinadores indóceis? Responda rápido, de preferência bem alto, porque nesses tempos em que se faz ciência no grito daqui a pouco a sua voz de herege não sai mais.

Guilherme Fiuza


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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Pandemia Do Vírus Chinês: Vitória Do Medo & Derrota Da Racionalidade

por paulo eneas


O mundo ocidental e quase todo o resto do planeta perderam a guerra de narrativas na opinião pública em relação à pandemia do vírus chinês.

O lobby da indústria farmacêutica transnacional, a manipulação de governantes locais ou mesmo nacionais pelo Partido Comunista Chinês, e a intensa e contínua ação da grande imprensa por meio da propaganda disfarçada de conteúdo jornalístico destinado a induzir o medo e o pânico na população, criaram o ambiente para a vitória dos globalistas na guerra aberta por eles próprios contra os povos do mundo inteiro.

A arma desta guerra foi o medo, uma das principais fraquezas humanas. Esta fraqueza sempre foi explorada por todos os agentes que ao longo da história tentaram implantar, e muitas vezes conseguiram, projetos de poder autoritários. Faz décadas que os globalistas tentam explorar o medo humano para fazer valer sua agenda.

Nos anos setenta, era o medo da crise energética que iria advir com o supostamente inevitável fim das reservas de petróleo. Em seguida veio a tentativa de explorar o medo, combinado com um complexo de culpa induzido, do suposto aquecimento global antropogênico e as “mudança climáticas” dele decorrentes.

É bem verdade que estas tentativas sempre usaram de alguma sutileza. Na esfera da guerra semântica, por exemplo, a invenção do politicamente correto serviu para explorar sutilmente o medo que todas as pessoas têm de não serem aceitas em seus círculos de relações mais próximas. E desta forma o politicamente correto impôs-se em larga escala pelo temor das pessoas de colocarem-se contra um suposto senso comum.

No entanto, não pode haver medo maior de um ser humano do que o medo de morrer, e este medo não comporta sutilezas na sua abordagem: o temor de morrer faz com que a quase totalidade dos seres humanos aceitem qualquer coisa que lhes seja imposta, tornando muitas vezes pouca clara a linha que separa o medo da covardia.

Os globalistas e seus agentes do mundo político e midiático souberam usar com maestria esse medo. Deixaram de lado qualquer sutileza e enviaram um recado claro para toda a população mundial: “você vai morrer do vírus chinês, milhares e milhares estão morrendo todo dia, se você não fizer o que mandarmos”. E grande parte da população aceitou estas ordens, por mais irracionais e desprovidas de qualquer cientificidade que elas possam ser.

Em nome do medo as pessoas aceitaram ter seus direitos civis cerceados, aceitaram perder seus empregos e ver seus negócios falirem. Aceitaram a estupidez das quarentenas e a estupidez de uma máscara de pano, apenas para ter a “sensação” de segurança contra o vírus, quando todas as evidências médico-científicas mostram a ineficácia tanto das máscaras quanto dos lockdowns.

Aceitaram e aceitam a irracionalidade de medidas como as que determinam restrições de horários de funcionamento do comércio, o que inevitavelmente aumenta as aglomerações, quando o correto seria justamente o oposto: ampliar os horários de funcionamento para dispersar a densidade de pessoas nestes estabelecimentos.

Por fim, o medo induzido e a irracionalidade imposta levarão milhões de pessoas a aceitarem ser vacinadas com imunizantes que não oferecem garantia alguma de segurança e eficácia, e cujos efeitos no organismo humano são na prática desconhecidos.

Paradoxalmente, o único medo legítimo que caberia nesse caso, que é o medo de ter uma substância desconhecida injetada no próprio corpo, foi deixado de lado em nome do medo histérico induzido pela irracionalidade, e que fez prevalecer a covardia.

Pandemia do Vírus Chinês: Vitória do Medo & Derrota da Racionalidade | Crítica Nacional (criticanacional.com.br)

A demografia perversa: (primeira parte)

 01/11/2017  Rubem Novaes

Este artigo é resultado de uma palestra proferida perante o Conselho Técnico da CNC em 31/10/2017:



I – INTRODUÇÃO

Alerto que vamos, hoje, transitar por tema delicado. Em tempos atuais, a ciência, a busca da verdade dos fatos, tem se curvado à ditadura do politicamente correto. Somos, em razão de gênero, etnia, origem social, nacionalidade etc., diferentes e temos diferentes aptidões. Mas, reconhecer diferenças e melhores aptidões passou a ser pecado imperdoável. Somos quase que forçados a rejeitar comparações que possam conferir a qualquer grupo de pessoas uma melhor qualificação para o atingimento de determinados propósitos.


O tema da “demografia perversa”, assunto desta palestra, ao apontar para o fato de que as populações crescem ou decrescem em locais errados e de que certos fluxos migratórios são problemáticos para determinadas nações, se insere no rol dos assuntos quase que proibidos pela nova forma de censura.


Como exemplo do que estou falando sobre a ditadura do politicamente correto, um caso passado em Harvard merece a nossa atenção. Larry Summers, ex-reitor da Universidade e professor catedrático de Economia, respaldado em forte evidência empírica, declarou que a análise dos dados lhe permitia concluir que os homens são mais aptos para as Ciências Exatas e que as mulheres mostram maior aptidão para as Ciências Sociais. Bastou dizer isso para que perdesse rapidamente seu alto cargo de reitor em Harvard por pressão de feministas exaltadas.


Vejamos alguns dados referentes à participação de homens e mulheres inscritos em programas de doutoramento nos EUA, que bem poderiam ter sido usados para respaldar as declarações de Larry Summers:


Ciências da Saúde:              Homens 30%   Mulheres 70%

Educação:                            Homens 32%   Mulheres 68%

Ciências Sociais:                  Homens 38%   Mulheres 62%

Física:                                   Homens 65%   Mulheres 35%

Matemática e Computação:  Homens 70%   Mulheres 30%

Engenharia:                          Homens 76%   Mulheres 24%


Pois bem, o destaque dado a números como estes, que nada falam sobre inteligência, mas sim sobre aptidões e preferências, revolucionaram o campus de Harvard e destronaram um reitor.

Outro caso, relativo aos judeus, merece menção. Eu mesmo, no que estou acompanhado por muitos que se interessam pelas concessões do Prêmio Nobel e outros prêmios de Academias, sou obrigado a me curvar ao fato de que judeus demonstram superior desempenho nas finanças, nas ciências exatas, na medicina, na economia e nas artes.

Especificamente sobre o prêmio Nobel, houve, até 2016, 881 premiações das quais 197 consagraram judeus. Ou seja, um povo que tem apenas 0,2% da população mundial conquistou cerca de 22,4% dos mais prestigiosos prêmios concedidos desde 1901, quando a Academia de Ciências da Suécia deu partida ao Programa. É uma evidência avassaladora que se extrai dos dados, mas, se alguém a ressalta, será imediatamente tachado no mínimo de supremacista (às avessas, no caso).

Outro campo onde a ditadura do politicamente correto se faz presente é o que trata da evolução demográfica, objeto de nossa palestra. E aqui separo a questão dos refugiados, com forte conteúdo humanitário, das migrações por simples interesse econômico e das diferentes taxas de natalidade entre povos. O caso da Europa talvez seja o mais instrutivo. Vamos a ele:


II – DEMOGRAFIA NA EUROPA

Segundo os demógrafos, para que uma população com determinada cultura se mantenha constante ao longo do tempo, seria necessária uma taxa de fertilidade de 2,11 crianças por família, o que certamente não ocorre nos países europeus.  Dramatizando o problema de insuficiência de crescimento, imaginemos uma pequena comunidade com apenas quatro pessoas, dois casais. Se cada casal tiver apenas um filho, a próxima geração poderá apenas formar um casal. E, se este casal tiver apenas um filho, elimina-se a possibilidade de sobrevivência do grupo. Em duas gerações passamos de quatro para um, 25% da quantidade de pessoas existente duas gerações acima.

Não se sabe de taxas de fertilidade assim tão baixas, mas a situação não deixa de ser deveras preocupante para a Europa. Em vídeo fartamente difundido e comentado na internet, as seguintes taxas de fertilidade são apresentadas para originários europeus, referentes à primeira década deste século:


França: 1,8; Inglaterra: 1,6; Alemanha: 1,3; Grécia: 1,3; Itália: 1,2; Espanha: 1,1;

União Europeia: 1,4; Muçulmanos na França: 8,1.


Tais números indicariam uma forte contração populacional, que só não estaria ocorrendo em razão dos fluxos migratórios de populações muçulmanas e das elevadas taxas de natalidade das populações imigrantes já estabelecidas. São estas que têm preenchido as lacunas deixadas pelas populações tradicionais, deixando antever uma Europa totalmente diferente em poucas décadas.  Diferente em tudo, mas principalmente na ameaça à cultura judaico-cristã.

Na França, a desproporção nas taxas de fertilidade seria enorme. Em grandes cidades, como Paris, Marselha e Nice, 45% dos jovens com menos de 20 anos já seriam islâmicos. Ainda segundo o relato, no mais tardar em quatro décadas a França será majoritariamente muçulmana. Pior sorte teriam a Alemanha e a Holanda. Para a Alemanha, o relato espera uma maioria muçulmana em 30 anos. E na Holanda, onde quase a metade dos recém-nascidos já teriam origem islâmica, a inversão pode ocorrer em menos de três décadas.

Como achei estes números sobre a Europa exagerados, consultei, sobre o assunto população e religião, estudos do Pew Research Center, da CIA e do Banco Mundial. Segundo estes, considerada a população mundial de 7,1 bilhões de habitantes, em 2015, os cristãos representariam 31% do total; os muçulmanos, 24%; e os judeus, apenas 0,2%. Mas os nascimentos de mães muçulmanas já em 2035 irão ultrapassar os nascimentos cristãos, fazendo com que, a partir de 2060, a religião muçulmana seja a maior do planeta.

Ainda nestes estudos, os números para a fertilidade na Europa passam a ser menos alarmantes que os mostrados anteriormente: Alemanha: 1,45; França: 2,07; Itália: 1,44; Holanda: 1,78; Reino Unido: 1,88; Espanha: 1,50 e Grécia: 1,43. Não temos dados para a fertilidade das populações muçulmanas em cada um destes países, mas parece-me razoável trabalhar com taxa próxima de quatro nascimentos por família, como média.

Convém destacar que hoje a proporção de ainda é muito baixa, aproximando-se de 8%, o que dá certa tranquilidade aos incomodados.

Pois bem, postos todos estes números mais tranquilizadores, creio que, aos 72 anos, mesmo que possa durar muito, não corro o risco de ver uma Europa muçulmana. Meus filhos, em torno de 40 anos, quando estiverem velhinhos, têm chance de ver no continente europeu um ou outro país muçulmano. Mas minhas netas, hoje com menos de 10 anos, quase que com certeza verão uma Europa predominantemente muçulmana.

Mas, por que discutir esta questão demográfica europeia em nosso contexto se o multiculturalismo tem argumentos fortes e é inegável a justeza do argumento humanitário pelo acolhimento de refugiados? Acontece que as novas gerações de islâmicos, bem como um expressivo contingente dos novos imigrantes, não se dispõem mais a se ajustar à cultura e às instituições locais. E assim formam um exército de jovens precariamente educados e inadaptados a um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo, sem perspectiva, portanto, de dias melhores adiante. Estes jovens, alijados da sociedade e vivendo de esmolas do Estado, passam a ser presa fácil para organizações políticas e religiosas radicais.

O “teste da fronteira” (que pergunta: ‘quem migra para onde?’), uma variante do “teste do pudim” (‘é comendo que se prova o pudim!’), tão ao gosto de economistas, ao apontar para a direção dos fluxos migratórios, dá razão aos povos originários da Europa, que alegam uma superioridade de sua cultura, capaz de produzir melhores resultados em termos de desenvolvimento econômico e proteção social. Esperar dos newcomers que não desfigurem esta cultura “superior” e que respeitem as instituições vigentes, parece aspiração razoável. Afinal, o direito à preservação da cultura é tão válido quanto qualquer outro. Mas, evocá-lo passou a ser pecaminoso.

Posta esta visão sobre a questão demográfica europeia, podemos passar para o caso brasileiro, diferente em natureza, mas também determinante do que chamamos “demografia perversa”. (Continua na segunda parte)

 https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/a-demografia-perversa-primeira-parte/

RACIONALISMO E ALIENAÇÃO

Percival Puggina

 



 


         A aparente contradição entre a fé e a razão suscita um debate que - mais do que recorrente - tem sido permanente nos últimos três séculos da história. Durante todo esse período, assim como houve quem lesse a Bíblia como um livro científico, houve quem lesse os livros da ciência como obra revelada e nesse teimoso engano abriram-se trincheiras que ainda persistem em mentes mais renitentes. 

         Que a Bíblia não é um livro científico parece evidente. E que a razão e a observação - a testa e o tato - não são as vertentes exclusivas e definitivas do que é verdade ou verdadeiro, deveria ser igualmente óbvio. Conforme registra Karl Popper (um agnóstico que não pode ser apresentado como defensor da religiosidade), nossos sentidos costumam nos iludir, as verdades científicas são sempre hipóteses provisórias e acreditar que a razão produz a verdade é uma outra espécie de fideísmo (qualquer bom filósofo sabe a razão pode conduzir a paradoxos).

         A dimensão religiosa é natural à pessoa humana, assim como o são, entre outras, as dimensões artística, moral, econômica e política. Qualquer uma delas pode ser desenvolvida ou não e o fato de perder impulso no transcurso da existência de algumas pessoas não significa que tenha deixado de existir. Por isso, o fenômeno religioso é presente em todos os povos e épocas. Há dezenove séculos, Plutarco já sustentava: “Podereis encontrar uma cidade sem muralhas, sem edifícios, sem ginásios, sem leis, sem moeda, sem cultura das letras. Mas um povo sem Deus, oração, juramentos, ritos, tal nunca se viu”. Todo conhecimento antropológico posterior veio corroborar essa observação, assim como veio comprovar a preeminente posição da religiosidade em todas as culturas.

         Joachim Wash, em seu Estudo comparativo das religiões, ensina que a experiência religiosa é uma resposta do homem à realidade última das coisas, a qual se expressa num Ser superior, transcendente, todavia susceptível de se relacionar com ele; que orientar-se para esse Ser exige do homem uma resposta total; e que aproximar-se dele constitui uma experiência inigualável, criativa e transformadora.

         A naturalidade da dimensão religiosa resiste aos totalitarismos. Jamais perece e ressurge, inclusive, nas explicações redutivas, de cunho científico, que a pretendem suprimir. Em todas há uma fé (ainda que na matéria, na natureza, no próprio homem, nas leis econômicas, no valor da sensualidade, na política) e, consequentemente, há em todas uma doutrina inquestionável e alguma forma de culto. Por isso, Max Scheler, não sem alguma ironia, afirma ser impossível se convencer alguém de que Deus existe pela mera razão. Mais fácil, constata ele, é mostrar que essa pessoa colocou algo no lugar de Deus: a si mesmo, a riqueza, o poder, o prazer, a beleza, a ciência, a arte. De fato, é curta a distância, mas há um abismo qualitativo entre o amor a Deus e a idolatria.

         Dada a naturalidade do fenômeno religioso e da dimensão religiosa do ser humano, recusá-las é negar realidade ao próprio ser. E isso é uma forma de alienação. De fato, como a vida se encarrega de evidenciar, aceitar a Razão como única fonte da verdade deixa o homem sem possibilidade de resposta para equações inerentes à sua natureza - tais como o sofrimento, o amor, a esperança, a morte e a própria finalidade da vida - cujas incógnitas não se resolvem nesse plano ou no dos sentidos.


* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.

https://www.puggina.org/artigo/racionalismo-e-alienacao__17329

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