sábado, 19 de julho de 2014

Avatares, Atlantis e Lemurianos


Considerações sobre nossa idiossincrasia e uma outra ótica acerca da liderança

Há um bom texto que fala sobre o apagão de líderes que dá conta da enorme ausência de líderes em nossa sociedade. Usam-se alguns exemplos de fora que passam a idéia de que todas as falhas ocorreram por falta de liderança.

Gostaria, contudo, de oferecer uma outra visão sobre esta problemática.
Até que ponto, de fato, inciaríamos uma grande guinada apenas por ação de um líder?

Se olharmos a etimologia da palavra, tão explorada na literatura corporativa, podemos verificar que líder tem origem em idioma saxão, to lead, ou seja, estar à frente.

O que isto pressupõe? Que os demais estão compartilhando o mesmo caminho. O papel do líder não é dizer a todos: Vejam, vocês estão no caminho errado. Este é o caminho certo. Não! Estar à frente significa que todos os demais estão na mesma direção, ou seja, todos os demais compartilham o mesmo caminho, a mesma visão e o mesmo entendimento.

Por que isto se dá? Porque há uma forte noção de pertinência do que fazer como certo, do caminho a ser seguido e, sobretudo, de pertencimento. Ou seja, o cidadão, liderado, tem a exata noção de pertencimento ao grupo que ele está seguindo.

E o que há por detrás desta noção de que o caminho que o líder está à frente é pertinente e pertence ao bem-comum do grupo que o segue: As referências, a noção internalizada por valores, crenças e sentimentos de que aquele caminho que todos seguem com o líder que vai à frente os conduzirá ao bem-comum.

Bem, de que forma se dá a consecução de que o bem é comum para todos que seguem o caminho atrás do líder?  A noção do que é melhor para todos é forte, internalizada no grupo e prevalente. Ele prevalece e se evidencia sobre todas as dúvidas, daí o líder liderar pelo convencimento e não imposição. Todos aceitam, acatam e estimulam aquele caminho.

Agora, o que fazer de nós, sociedade na qual não temos fixado a noção, sequer referenciais do que é certo, do que é o bem comum, a ser compartilhado por todos?
Se nas escolas, instituições, locais de trabalho há anos prevalece a noção do “esperto”, do “ta certo sim”, do “ta defendendo o dele” etc etc?

Como, sem referenciais sólidos, poderíamos convencer jovens ou outros seguidores de que se ele vier a abrir mão de alguns privilegias ou mesmo acudir à alguns sacrifícios o bem comum será atingido e toda a coletividade sairá ganhando?

Será que com a nossa Constituição de 1988, extremamente zelosa em promover e proteger os direitos e garantias individuais não abrimos mão, de vez, em se promover o bem comum, a preocupação com o “coletivo”.

Os exemplos práticos que vejo no dia-a-dia, de famílias comprando dvds piratas nos restaurantes, lanchonetes e barracas, dirigindo-se falando ao celular, estacionando-se em filas duplas, em vagas de idosos e deficientes, clonando-se celulares, cartões de crédito, andando-se na contra-mão, fazendo-se xixi nas calçadas, fazendo-se greves e deixando-se doentes e cidadãos desamparados estaríamos pensando no coletivo? Pensando no desenvolvimento social? Querendo-se ser uma economia de primeiro mundo em poucos anos?

Será que, ao invés do apagão dos líderes tivéssemos uma fosforescência dos mesmos os seguidores com esta postura ética e referenciais sociais, os renitentes em mal comportamentos seguiriam? Mudariam de postura em prol do bem-comum?

Acho que não, talvez em Atlantis, Lemúria, estas tidas como sociedades tão perfeitas que soçobraram, ou na Terra dos Avatares. Aqui, pensando e agindo assim...jamais!!
##

A Fábula dos porcos assados

A Fábula dos porcos assados

Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir dai, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque... Até que descobriram um novo método.

Mas o que quero contar é o que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem: as vezes, os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava muito a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de assa-los. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.

Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos, seminários e conferencias passaram a ser realizados anualmente para buscar uma solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferencias.


As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas a indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou a inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda as arvores, excessivamente verdes, ou a umidade da terra ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar - na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: maquinário diversificado, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiadores que eram também especializados (incediadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos e diurnos - com especialização matutina e vespertina - incendiador de verão, de inverno etc). Havia especialista também em ventos - os anemotecnicos. Havia um diretor geral de assamento e alimentação assada, um diretor de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um administrador geral de reflorestamento, uma comissão de treinamento profissional em Porcologia, um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reforma igneooperativas.

Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação - utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não soprariam mais que três horas seguidas.

Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores arvores e sementes, o fogo mais potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, alem de mecanismos para deixa-los sair apenas no momento oportuno.

Foram formados professores especializados na construção dessas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades para que os professores fossem especializados na construção das instalações para porcos. Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos etc.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes em direção oposta a do vento, de forma a direcionar o fogo. Não é preciso dizer que os poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um embasava suas idéias em dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelado em verão chuvoso) chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido - bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas - assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor geral de assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete, e depois de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe: "Tudo o que o senhor disse esta muito bem, mas não funciona na pratica. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotecnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?". "Não sei", disse João. "E os especialistas em sementes? Em arvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas maquinas purificadores automáticas de ar?". "Não sei". "E os anemotecnicos que levaram anos especializando-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao pais? Vou manda-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano tem trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?". "Não sei", repetiu João, encabulado. "O senhor percebe, agora, que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução ha muito tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotecnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas arvores não dão frutos e nem tem folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?". "Não sei, não, senhor". "Diga-me, nossos três engenheiros em Porcopirotecnia, o senhor não considera que sejam personalidades cientificas do mais extraordinário valor?". "Sim, parece que sim". "Pois então. O simples fato de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que nosso sistema é muito bom. O que eu faria com indivíduos tão importantes para o pais?" "Não sei". "Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as anemotecnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (nossa maior carência) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o sistema, e não transforma-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!". "Realmente, eu estou perplexo!", respondeu João. "Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por ai que pode resolver tudo. O problema é bem mais serio e complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia - isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo. Não por mim, o senhor entende. Eu falo isso para o seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é mesmo?".

João Bom-Senso, coitado, não falou mais um "a". Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu.

Autor desconhecido ou ignorado
.

A ARCA DE NOÉ

COMO PERDER DE VISTA UM OBJETIVO

A ARCA DE NOÉ
L’arche de Noé.
Tradução e adapatação: J.B.Xavier

Absalão era um homem que se podia conceituar como justo. Era um estudioso, e quando repetia aos sábios que os lados de um quadrado eram iguais, tornava-se realmente difícil entendê-lo.

Dos seus 60 anos de idade, a maior parte havia dedicado à arte da guerra, na qual eram aplicados conceitos técnico-científicos. Particularmente, era apaixonado pela organização das forças de combate e no uso de armas avançadas, tais como lança de grande alcance, setas orientadas e a última novidade bélica: o lançador de pedras!

Era um verdadeiro líder.
Com o avanço da idade e o correspondente aumento da sabedoria, Absalão também se preocupava com assuntos humanos os quais, porém, o perturbavam um pouco. O Criador já não era reverenciado como no seu tempo; os filósofos eram ridicularizados; havia uma inversão completa na política, acreditava-se mais na energia e estultice dos jovens do que na ponderação e sabedoria dos mais idosos. Um dia andava Absalão pela ravina quando de repente - PUFF! - uma nuvem de fumaça apareceu, acompanhada de uma voz tonitruante:
- ABSALÃO!!!

Absalão prostrou-se. Só podia ser o Criador! E era! Em pessoa!
-ABSALÃO! -voltou a voz- NÃO ESTOU CONTENTE COM OS HOMENS. ELES ESTÃO POLITIZADOS, GUERREIAM ENTRE SI E SÓ DEFENDEM INTERESSES PRÓPRIOS. O TRINÔMIO ADÃO-EVA-COBRA DEU NISSO... FAREI CHOVER POR 40 DIAS E 40 NOITES ATÉ COBRIR A TERRA DE ÁGUA, O QUE SERÁ CONHECIDO COMO DILÚVIO... MAS QUERO QUE UMA NOVA HUMANIDADE NASÇA DE UM HOMEM INTELIGENTE, PRÁTICO E COM OBJETIVOS. VÁ E CONSTRUA UM BARCO PARA VOCÊ E SUA FAMÍLIA E COLOQUE NELE UM CASAL DE CADA SER VIVO. VOCÊ TERÁ 4 MESES PARA ESTE EMPREENDIMENTO. MEU CONTATO COM VOCÊ SERÁ O ARCANJO GABRIEL, QUE COSTUMAM CHAMAR DE MINISTRO DE DEUS. PUFF!!- e a nuvem se foi...

Absalão ergueu-se pálido. O Criador o elegera gerador de uma nova humanidade! todas as suas idéias seriam propagadas para o futuro. Absalão pouco conhecia de barcos ou de navegação mas nem pensaria em discutir a grande oportunidade que o Criador lhe oferecera. Mas precisava resolver um problema técnico-científico: construir um barco enorme! Que objetivo! Absalão provaria que era capaz de salvar a humanidade com a sabedoria dos mais velhos e a energia dos mais jovens.

Rebuscou a memória.
Conhecia um engenheiro naval chamado Neul, ou seria Neus? Não! Noé! Sim, era este o nome! Noé poderia construir-lhe o barco. Ele, Absalão seria o coordenador do Empreendimento e Noé seria o técnico. Famoso por sua objetividade, logo já conversava com Noé.

- Meu caro, quero encomendar-lhe um barco - e dos grandes!
- Perfeitamente, meu senhor, mas de que tipo e para que espécie de carga e navegação?
- Ora, Noé, isto são detalhes. É um barco para grande carga e águas pesadas. Quero fazer uma longa viagem com a família e levarei tudo.

- Esta bem, senhor, aqui mesmo temos floresta com madeira de densidade de 0.8 g/cm3 em quantidade suficiente. Se a carga é grande, faremos o centro de gravidade baixo e o centro de empuxo alto, de modo a obter grande estabilidade. Acho que com 10 bons carpinteiros que consigo arranjar na aldeia e um mês de trabalho duro, estaremos com o barco pronto.

- Perdão, Noé, não queria interrompê-lo, mas como pode ter certeza desta dencidade da madeira? Sabe se os homens são realmente competentes? Se trabalharão com eficiência? 
- Senhor, a unidade a que me referi chama-se densidade, e os homens são carpinteiros, já meus velhos conhecidos...
- Não, não, Noé, disse Absalão com um sorriso de condescendência, este Empreendimento é grande e a coordenação é minha. Serei o presidente e você será o técnico. Combinado?
- Combinado, senhor, o barco é seu e quem manda é o senhor, replicou Noé, dando de ombros. Levantou-se para cumprimentar Absalão e retirou-se. 

Absalão ficou pensando: "Puxa, não havia pensado nisso! São precisos carpinteiros para cortar as árvores e construir o barco! É preciso selecionar bem estes homens, pois o Empreendimento não pode falhar. Ah! Já sei! Meu auxiliar na Cruzada Santa das Três Pedras fez uma ótima seleção de lanceiros. Roboão é o seu nome. Hoje está selecionando beterrabas para uma indústria, mas virá trabalhar comigo por um salário um pouco maior.

* * *

- Mas, chefe, se o técnico disse 10 carpinteiros precisaremos de no mínimo 15! O senhor sabe, faltas, doenças, férias, turn over... e para selecionar bem 15 homens temos que explorar um universo de pelo menos 150 a 200 candidatos. Levarei algum tempo para isso e precisarei de auxiliares.

- Confio em você, Roboão. Já fez um bom trabalho para mim e tem grande experiência com Pessoal. Realmente achei Noé muito simplista. Convide quem você achar melhor para realizar o recrutamento e seleção dos homens para a tarefa. Mantenha-me informado. 
- Certo, chefe, sairei em campo imediatamente. Obrigado pela confiança.

Nesta noite Absalão dormiu satisfeito. Em menos de 24 horas após receber a missão do Senhor já tinha o técnico e o especialista em pessoal. Dormiu embalado pela algazarra que ainda faziam os 20 membros de sua família na festa de inauguração do Empreendimento.

O segundo dia amanheceu tranqüilo e claro. O Presidente foi acordado por Roboão com boas notícias:
- Chefe, já tenho cinco homens anunciando no povoado - é a fase de recrutamento. De acordo com o mercado estamos oferecendo cinco dinheiros.
- Mas, Roboão, não será pouco? Minha mulher ganha 9 dinheiros cosendo para fora...
- Deixe comigo, chefe. No recrutamento da última batalha pagamos 8 dinheiros para valentes combatentes, e economizamos um bom bocado. Estes são apenas carpinteiros que não podem ser comparados aos combatentes ou à sua senhora. Temos assim 5 recrutadores e 10 examinadores para a fase de seleção menos de 10% dos candidatos esperados! 
- E quanto ganharão?
- O salário desta equipe varia de 8 a 12 dinheiros pois são especialistas. Chefe, um probleminha a mais: Não quero responsabilidade com o numerário e não sou bom de contas. O trabalho com o pessoal já é o bastante. Não acha melhor termos um homem para a gerência do Empreendimento?
- Bem lembrado, Roboão, mas não conheço nenhum e deve ser um homem de confiança.
- Chefe, se me permite, quero lembrar-lhe o Judas, que se ocupava do dinheiro das forças de combate.
- Não. Não. Roboão. Esse negócio de dinheiro com pessoal das armas não dá certo. Pensemos em outro! Deve ser um especialista na coisa, você me compreende?
- Então, chefe, poderemos fazer uma seleção entre candidatos. Sairei em campo.

O Empreendimento crescia de vento em pôpa. As equipe de recrutamento e seleção já estavam em plena operação. As finanças já tinham um responsável. Mas, onde colocar esse pessoal? Absalão partiu com seu habitual dinamismo e logo adquiriu uma grande cabana, já com divisórias e tapetes, e contratou imediatamente o pessoal da zeladoria e segurança. Eram todos velhos conhecidos das forças de combate.
Iniciou-se assim, a operação em grande escala. 

-Senhor Presidente - falou timidamente a graciosa telefonista, está aqui o Dr. Noé com alguns desenhos e... 
- Minha filha, já lhe disse para não interromper. Diga ao Noé que passe depois do almoço. 

Absalão continuou a entrevista com o futuro gerente do material, Jacob, seu velho conhecido de carreira.
- Pois é, amigo Jacob, preciso cercar-me de gente de confiança, para o sucesso do Empreendimento. Material é uma área delicada e não tolerarei desvio de estoque!

- Certo, chefe! sabe que pode confiar em mim! Nunca sumiu uma flecha ou lança no meu tempo, mas o armazenamento de madeira exige um almoxarifado adequado. Para o controle vou precisar de alguns arquivos, armários, fichas, prateleiras e pessoal de apoio.

-Justo, Jacob! Encomende as prateleiras na carpintaria do povoado e fale com Roboão para o recrutamento do pessoal necessário.
Neste momento entrou Cloé, a secretária executiva do Presidente.
- Senhor Presidente, acaba de chegar um relatório da Segurança, indicando certos nomes que não devem ser contratados...Há suspeitas de que alguns não são muito confiáveis...
- Ótimo trabalho de Primus. Jamais lhe faltou a intuição! Precisamos estar alertas!
- Ah! outra coisa, senhor Presidente. o Dr. Noé telefonou novamente. Parece aflito para a aprovação de alguns desenhos.
-Ora, esse Noé! Sempre querendo me confundir com idéias de madeira, centros de fluxo...ele sabe que sozinho não posso me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Diga-lhe que nomearei um grupo de traba-lho do barco, o GT-Bar, para dar-me um parecer. O homem é bom de projetos, mas nada entende de custos ou de administração por objetivos. Teremos tudo nos eixos tão logo chegue meu chefe de administração. Ele vai colocar ordem e método nessa turma: Quero ver produção!

Quinze dias se passaram e o organograma proposto já se encontrava na mesa do Presidente: Uma Diretoria das Coisas (DC), uma dos Investimentos (DI) e uma de Barco (DB). O DB já havia montado um laboratório especializado para a medida da densidade da madeira, análise de fungos e cupins, e já estavam instalados os equipamentos para medir a elasticidade e flexibilidade.

Em apenas quinze dias a Administração havia elaborado as provas de seleção para arquivista e desenho naval, provas de seleção para selecionadores de pessoal de Seleção e Recrutamento, pessoal de apoio, etc...

Roboão, como um cumprimento ao chefe, havia mandado comprar uma charrete último tipo, de seis rodas e boléia separada, acompanhada de charreteiro, naturalmente. Houve um pequeno atrito com Jacob, (chefe do material), mas como eram companheiros de batalhas, o incidente foi esquecido e contornada a auditoria.
Naquela noite, o Presidente estava cansado, mas não esquivou-se de receber Noé em sua residência.

- Sr. Presidente, desculpe-me interromper seu descanso, mas o projeto já esta pronto e as pessoas do GT-Bar ainda não foram nomeadas. O material já está especificado, mas o laboratório ainda não emitiu o laudo de aprovação da madeira e não conseguiu os carpinteiros para o corte. Se o senhor pudesse me autorizar a trazer os carpinteiros conhecidos do povoado...

- Não se preocupe, Noé. Falarei amanhã com o DB e apressarei a contratação do pessoal. Você sabe, apesar de Presidente, não posso mudar as regras da Organização autorizando diretamente seus carpinteiros. Da chefia vem o exemplo do cumprimento às normas. Não se preocupe que o Empreendimento está nas mãos de profissionais - os melhores! Boa noite, Noé.

Noé afastou-se sem entender muito bem. Havia sido contratado para fazer um barco. Agora estava às voltas com normas, instruções, exames de seleção...Balançou a cabeça. As coisas deviam ser complicadas mesmo. Mas o Presidente era um homem capaz senão não seria Presidente! Partiu otimista para sua cabana. Se o Presidente disse, é porque tudo vai indo muito bem.
----------------------------------------------------------------------------------------------------

* * *


Vigésimo quinto dia.
Manhã linda. Cloé anuncia a chegada de Roboão.
- Entre logo, meu velho. Sente-se. Aceita um leite de cabra?
- Sim, chefe. Obrigado. Por falar nisso, segundo a lei, mandei distribuir leite de cabra pela manhã e a tarde, a todos. Já está até codificado o material para o computador. Fizemos pequenas despesas para chegar a esses resultados: Tivemos que adquirir 200 cabras, alugar um pasto e contratar 5 pastores. Jóia, chefe! Dá 40 cabras por pastor, e só ganham 10 dinheiros!
- Você é um bicho na administração do pessoal, Roboão. Falarei ao seu Diretor para propor sua promoção na próxima vez. Como vai sua avaliação?
- Realmente não sei, chefe, É confidencial...
- Darei um jeito para que seja boa. Afinal, já temos 500 pessoas no efetivo, e todas passaram por você. E você ainda conseguiu comprimir o quadro, que era de 800 pessoas! Quanto economizamos, em média?
- Nessas 300 pessoas, cerca de 4000 dinheiros, chefe - respondeu Roboão com um sorriso de falsa modéstia, e pensou consigo mesmo: " Quem sabe? talvez fosse aumentado para 30 dinheiros!"
- Roboão, não quero incomodá-lo e nem por sombra desfazer o belíssimo trabalho de sua equipe, mas Noé me disse que ainda não foram contratados os carpinteiros para o corte...
- Ora, chefe! Noé é um sonhador! Só pensa nos seus desenhos. Já lhe expliquei a complexidade da contratação. Por exemplo: aumentamos a oferta de salário para 6 dinheiros, porém todos os candidatos foram reprovados no primeiro psicotécnico. Não adianta contratar pessoal sem aptidão psicoprofissional para o corte da madeira. Também não adianta aumentar ainda mais a oferta de salário. Não podemos elevar demais nossos custos... E depois, se não passaram neste teste simples, imagine nos outros... 
- Realmente você tem razão. Noé desconhece os rudimentos de Administração. Toque como você achar melhor. Se o contratei, é porque tenho total confiança em seu trabalho.


* * * 


Quadragésimo dia.
Finalmente, a primeira reunião da Diretoria. Era o momento solene das grades decisões de cúpula do Empreendimento. Todos com sua melhores túnicas sentaram-se à Plenária com suas pastas de executivos. O Presidente, satisfeito, relatava que o Empreendimento era o orgulho do povoado. Havia muito trabalho e emprego para todos.

Aproveitando o clima de satisfação, o DC informou que havia feito convênio com a Escola de Carpintaria, pois a mão-de-obra necessária estava aquém do desejável. Além disso havia criado o Departamento de Recursos Humanos, com a missão de retreinar os carpinteiros em técnicas de construção naval, além de apoiar todos os demais departamentos, capacitando, de quebra, datilógrafas, secretárias e auxiliares administrativas. Criara também o Departamento de Segurança e Higiene do Trabalho, por força de lei. O ambulatório já atendia 20 pessoas por dia! Todos se olharam admiradíssimos pelas inovações revolucionárias, e tão logo o Presidente emitiu o primeiro elogio, todos parabenizaram o DC por suas brilhantes idéias.

Cloé aproveitou para informar que os preços dos cabeleireiros do povoado haviam subido demais depois do início do Empreendimento, e que inclusive o clube local estava criando problemas na admissão de novos associados. Todos esperaram o Presidente se manifestar, e quando ele delegou ao Relações Públicas a missão de conversar com os cabeleireiros e com o Clube para conter esses abusos, a Reunião Plenária quase foi interrompida pelo burburinho causado pelas reações de indignação de todos os presentes devido à falta de cidadania dos dirigentes do povoado. Quando a calma foi restabelecida, o DB ponderou timidamente que faltava pessoal para desenho, e que a eficiência dos carpinteiros era baixa. Havia só um - disse ele - que conseguira cortar três árvores, duas das quais, bichadas, segundo o relatório do Controle de Qualidade. Noé estava tentando suprir a falta desenhando em folhas de bananeira e cortando as árvores à noite, depois do expediente. A proposta era então aumentar o salário de Noé para 15 dinheiros.

O DC explodiu, seguido de perto pelo DI:
- Esses sabichões! pensam que sabem tudo! Atrapalham a organização, trabalham mal e ainda querem aumento! Sr. Presidente, sou de opinião que devemos aumentar a equipe de recrutamento e apertar nos exames de seleção! Nossa equipe técnica deixa muito a desejar!
- Perdão - retrucou o DB - o laboratório funciona! vejam como detectou as árvores bichadas. Acontece que não temos o apoio necessário. o senhor desvia recursos para a área de Operação do barco, recrutando timoneiros, veleiros etc...
- Mas e lógico! - interveio o Presidente - Temos que agir com antecedência no treinamento. Afinal, treinar é investir no futuro!

O DB achava correta essa linha de pensamento do Presidente, desde que o treinamento fosse direcionado para as prioridades. Mas achou melhor não comentar nada. Todos conheciam muito bem o temperamento do Presidente e sabiam que, quando contrariado, seus modos brandos desapareciam completamente. Muitos já havia sido demitidos - comentava-se - nesses acessos de cólera.


* * *


Octogésimo dia.
Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era Presidente de um Empreendimento que contava com 1200 pessoas. As vêzes Noé e suas preocupações lhe vinham à cabeça. Mas eram todas infundadas. Noé não passava de um tecnocrata pessimista. Felizmente havia o Diretor de Barco para despachar com ele - um aborrecimento a menos! Subitamente... PUFF !! - uma nuvem de fumaça.

O ministro do Senhor - exclamou Absalão prostrando-se.
- ABSALÃO, PONHA GENTE DE MAIS PESO NO TOPO, CASO CONTRÁRIO O EMPREENDIMENTO AFUNDARÁ ! PUFF !!
Absalão correu a cabana de Noé.
- Noé, Noé! ponha um convés no alto do mastro! vou colocar as pessoas mais pesadas em cima!
- Mas Presidente, isto é impossível! Sempre o convés é embaixo e o mastro aponta para cima! Se aumentarmos a massa em cima, o centro de gravidade ficará muito alto e o barco emborcará...
- Não estou falando do suprimento de comida, droga! O ministro de Deus mandou colocar as pessoas mais pesadas em cima e isso que vou fazer!

Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Talvez Cloé - que acumulava as funções de gerente de treinamento e dominava as técnicas de persuasão - pudesse fazê-lo ver mais claro.

Noé correu à secretaria Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operação do Barco, que esperava há mais de uma hora. Com ele estavam o subcomandante nível 3, o imediato, o pré-imediato, dois assistentes e três assessores.

- Noé - disse o comandante - o seu projeto não anda! Como vou treinar meus homens sem barco? Vim pedir a autorização do Presidente para adquirir um simulador de barco, caso contrário não me responsabilizo! O DI diz que a curva de aproveitamento de meus treinandos não bate com a curva histórica do manual de navegação. E com essa mania de se meter no departamento dos outros, ele acaba tumultuando. Preciso de mais instrutores! Já reparou quantas pessoas de apoio tem o Departamento de Apoio? 

Noé balançou a cabeça e retirou-se vagarosamente. Realmente o que ele conseguira ? uma meia dúzia de desenhos em folhas de bananeira. Isto em 80 dias! Ele havia prometido ao Presidente que faria o barco em 30 dias! Estava acabrunhado e sentia-se incompetente. O que estaria errado consigo? Já lhe haviam dito que com o tempo tudo estaria bem, que não se precipitasse, que não deveria andar mais depressa que a Organização. Mas - lembrava-se - havia sido contratado exatamente por seu espírito prático e descomplicado! 

O Presidente entrou furioso, desabafando em Cloé.
- Veja! só faltam 40 dias e a Divisão de Importação diz que há crise de transporte e a madeira só chegará no prazo médio de 10 dias! O pessoal de PO mais o de O&M e o CPD fez tudo para diminuir o caminho por onde deverá vir a madeira. 
- Noé ligou há pouco e disse que há uma empresa, a P.E.R.T.O., especializada em transporte rápido, senhor...
- Noé, Noé! Não estou mais agüentando esse sujeitinho que tem sempre solução para tudo! Para ele parece tudo muito fácil, como se não houvesse uma estrutura por trás do Empreendimento! Se não faltasse tão pouco tempo, eu o substituiria imediatamente! Ele só tem atrapalhado, retardado e confundido os executivos que tocam a obra!

Cloé conhecia bem o Presidente, e sabia que um copo de leite quente o acalmaria.
- Quero uma reunião de emergência com os diretores. Vou despedir o Setor de Carpintaria e contratar outro. Se não fosse o Roboão e sua equipe de recrutamento, não sei o que seria... - Senhor... - disse Cloé timidamente - faltam 40 dias para o quê?
- Para o Dilúvio, minha filha, para o Dilúvio!

Absalão rabiscou algumas linhas num papel.
- Passe este Telex:
"DE: ABSALÃO
PARA: SENHOR
SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO RESTANTE 40 DIAS: DIFICULDADES INTRANSPONÍVEIS. CRISE INTERNACIONAL DE MADEIRA. PROSTRAÇÕES. ABSALÃO.
O ruído monótono da teleimpressora deixava Absalão ainda mais nervoso, mas a resposta veio finalmente:
PARA: ABSALÃO
CONCEDIDO PRAZO CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS. ELEVAÇÃO DE ÁGUAS EM ANDAMENTO.
Absalão desesperou-se e partiu para a reunião. Pelo telefone interno, Cloé iniciou a telefofoca do Dilúvio.


* * * 




Octogésimo segundo .
Primus adentra o gabinete do Presidente.
- Chefe, tenho aqui um relatório dizendo que há desvio de cipós de amarração do almoxarifado. A listagem do computador não bate com a auditoria.
- Que inferno! Coloque sua equipe em campo! Jacob está fora de suspeita por ser meu amigo. Verifique o pessoal da Carpintaria. Mande um memorando ao Roboão para aumentar a equipe de segurança. Cloé! ponha o Roboão na linha!
- Roboão, aqui é o Presidente! Já recrutou os carpinteiros?
- Infelizmente não passam nos testes, chefe. Até afrouxamos as provas, mas o reconhecimento de tipos genéticos de cupins reprova todo mundo! É por isso que a madeira do estoque está bichada, segundo relatório do Departamento do Material.
- Presidente - interrompeu Cloé - é urgente! Há dois pastores na ante-sala dizendo que há crise de leite nas cabras, e não haverá distribuição aos funcionários por uma semana. O Suprimento não estocou capim para a época de seca...Qual a sua decisão?



* * * 


Centésimo dia. 
Reunião da Diretoria.
- Sr. Presidente - falou o DI - dentro de uma semana vencem nossos empréstimos internacionais com os povoados vizinhos e o Caixa não é suficiente. Nosso Empreendimento economicamente vai bem, mas financeiramente estamos à beira de uma crise. Sugiro uma redução do pessoal.
- Toda vez que se fala em redução de pessoal, todos olham para mim! - desabafou o Comandante de Operações - Sem meus homens não há Operação do Barco, que nem sairá do porto. E meu simulador ainda nem foi aprovado!
- Sr. Presidente - tentou timidamente o DB - acho que o Comandante tem razão: Não prometemos ao Ministro que o barco estaria logo pronto?
- Mas como, sem material?! - gritou o DC - Por acaso posso fabricar madeira? Seu laboratório não acha boa madeira local e há crise de transporte! Os carpinteiros são incompetentes! E esse tal de Noé? Que fez ele até agora? E ganha 10 dinheiros!
- Senhores - falou gravemente o Presidente, enquanto todos o olhavam esperançosos - a situação do Empreendimento é razoável, mas temos que tomar uma atitude mais séria quanto ao projeto do barco.
- Presidente, não quero interrompê-lo, mas em nossos arquivos não existiam as normas do Empreendimento. Isso é falta grave, e sou obrigado a demitir Noé. Gostaria que o senhor providenciasse, através do Roboão.


Noé ficou realmente furioso com a notificação. Nem exigiu a fração do 13o salário a que tinha direito. Estava disposto a sair daquela terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Partiu para a floresta e reuniu cinco amigos.
- Companheiros, vamos cortar essas árvores bichadas mesmo, construir um barco e sair daqui!
- Mas Noé, não somos carpinteiros nem sabemos construir barcos...
- Não importa. Ensinarei a cortar a madeira, e tenho os desenhos. Seremos uma equipe motivada com o objetivo de construir um barco e partir para uma vida melhor em outras terras! levaremos uns bichos a bordo para comermos no caminho. Só falta meter mãos à obra!
A madeira começou a ser cortada. Lascas voavam para todos os lados. As partes mais bichadas eram isoladas e deixadas de lado. Mosquitos voavam ao tombar as árvores. Em poucos dias o casco do barco começava a tomar forma.


* * * 


Centésimo vigésimo quinto dia.
O Presidente acordou preocupado. A madeira tinha chegado. mas só havia três carpinteiros. Sua charrete tomou o caminho mais rápido para o escritório, para fugir ao mau tempo. O céu estava carregado. Nuvens negras pairavam no horizonte, anunciando tempestade. Foi direto ao Telex, mas Cloé só chegava às 9 horas. Correu ao CPD .

- Que há por aqui? O expediente ainda não começou? Quem é você? 
- Sou uma digitadora senhor. O pessoal não gostou muito do Plano de Reclassificação de Cargos e salários, e eu acho que se a nova Política de Promoções for mesmo implantada, não vai sobrar ninguém!
Absalão voltou ao escritório. No caminho encontrou Primus muito aflito que lhe disse ter ouvido um zum-zum acerca de um tal Plúvio, que poderia ser um terrorista, por seus modos muito estranhos de agir, mas que sua equipe já estava providenciando o seu afastamento.
Absalão ficou branco e voltou ao telex.
- Rápido, Cloé, rápido!
DE: ABSALÃO
PARA: SENHOR
DIFICULDADES COM PROJETISTA ATRASARAM EMPREENDIMENTO SOLICITO PRORROGAÇÃO DO PRAZO.

A resposta veio imediata.

DO: SENHOR
PARA: ABSALÃO
PRORROGAÇÃO NEGADA. ELEVAÇÃO DAS ÁGUAS EM ANDAMENTO. 
Absalão ia praguejar quando um relâmpago violentíssimo seguido de um trovão ensurdecedor estourou nos céus. Vários vidros se partiram, e começou a chover. Absalão correu para fora, seguido de Jacob. Chovia torrencialmente.
- Veja, chefe - gritou Jacob - há um barco descendo o rio! Olhe a prôa...Não dá para ler direito...
Absalão colocou as mãos em concha sobre os olhos e leu:

ARCA...DE...NOÉ...

Fazer o Que Se Gosta



Stephen Kanitz

A escolha de uma profissão é o primeiro calvário de todo adolescente. Muitos tios, pais e orientadores vocacionais acabam recomendando “fazer o que se gosta”, um conselho confuso e equivocado.

Empresas pagam a profissionais para fazer o que a comunidade acha importante ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro ou tomar chope na praia.

Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?

Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num projeto social. “Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo selvagem.” Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem para conversar em uma semana.

É uma arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.

As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O “ócio criativo”, o sonho brasileiro de receber um salário para “fazer o que se gosta”, somente é alcançado por alguns professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.

O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns membros da sociedade só querem “fazer o que gostam”? Pediatras e obstetras atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.

Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem “fazer o que gostam”.

Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético da qualidade e da perfeição.

Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que àqueles que fazem o mínimo
necessário.

Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não estudaram o suficiente, não sabem fazer aquilo que gostam, e aí odeiam o que fazem mal feito.

Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais, vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os outros.

Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho de fazer.

Se você não gosta de seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso é um raro prazer.

Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.

http://blog.kanitz.com.br/fazer-gosta/#sthash.M2pg4nZN.dpuf

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A política brasileira é analógica, e os jovens eleitores são digitais


Essa entrevista foi publicada originalmente no blog da Sonia Racy no Estadão. Reinato Meirelles é um dos palestrantes no evento Kotler e Grandes Nomes, no dia 01/09/14 em São Paulo

Na eleição com mais jovens indo às urnas, Renato Meirelles, presidente do Data Popular, alerta: se a campanha não se aproximar das pessoas, País terá a maior abstenção da história.

Aos 36 anos, casado há três e “louco para ser pai”, Renato Meirelles é o rosto por trás do Data Popular, fundado em 2001. O publicitário dá voz e forma à chamada nova classe média – massa de 108 milhões de pessoas. Do estranhamento inicial do mercado, passando por “quatro anos de prejuízo”, o instituto de pesquisas consolidou-se como o retrato mais fiel dessa fatia da população para a iniciativa privada. O interesse é genuíno. Afinal, estamos falando de 54% dos brasileiros e um consumo anual de R$ 1 trilhão.

Mas, afinal, o que essas pessoas desejam? “Sonhar com tranquilidade”, responde Meirelles, sem pestanejar. Mais ainda quando se fala dos jovens. As eleições deste ano terão a maior parcela histórica de eleitores entre 18 e 30 anos: 42 milhões de pessoas – sendo 23 milhões da classe média. “Esse voto será preponderante”, diz o publicitário. O Data Popular, aliás, acaba de tabular a pesquisa A Relação dos Jovens com a Política – cujos dados, inéditos, foram antecipados à coluna.

Os números impressionam: 58% dos jovens acham que o Brasil seria melhor sem partidos. Por outro lado, acreditam no poder da urna – sete em cada dez jovens acham que seu voto pode mudar o País. Além disso, 81% consideram a política importante, mas somente 32% afirmam entender do assunto. Hora de mudar o discurso. “Os jovens da classe C são os novos formadores de opinião da classe média. Não há como discutir o processo eleitoral sem falar deles – que estão olhando para frente, não para trás”, decreta.

A seguir, os melhores momentos da conversa com Renato Meirelles, na sede do Data Popular, em São Paulo.

Quem é o jovem que vai para a rua protestar?
São dois jovens diferentes. Um vai para a rua porque está irritado com a democratização do consumo. A renda dos 25% mais ricos cresceu 12% em dez anos, enquanto a renda dos 25% mais pobres cresceu 45%. O mais rico não tem a sensação de que a vida melhorou tanto quanto o mais pobre. Os números são autoritários. Quase dois terços dos jovens que protestaram em junho estavam interessados no que vai ser o Brasil a partir de agora. Os estudos do Data Popular mostram que essa é uma eleição de futuro e não de legado. A discussão sobre quem controlou a inflação e quem distribuiu renda não vai pautar o processo eleitoral.

Bate com outra pesquisa de vocês, que diz que a vida melhorou só da porta para dentro.
O Brasil tem 42 milhões de eleitores jovens, entre 18 e 30 anos, em que o voto é obrigatório. É a maior parcela histórica do eleitorado brasileiro: 32%. O Brasil vive o auge do bônus demográfico – a maior concentração de pessoas em idade economicamente ativa. Nunca antes na história deste País tivemos tantos jovens votando. E qual a importância disso? Ele é mais escolarizado e conectado do que o pai. E o jovem da classe C – 55% desses 42 milhões de eleitores – contribui mais para a renda familiar. Não há como falar em discussão do processo eleitoral sem falar desse jovem.

Pode-se dizer, então, que o voto do jovem da classe C vai ser preponderante nesta eleição?
O voto da classe C é importante, mas ela é heterogênea. O voto do jovem da classe C vai ser preponderante. Dos jovens no Brasil, 81% consideram a política um assunto importante, mas só 32% afirmam entender de política. Ou seja, política é importante, mas não a entendo direito, porque não faz parte da minha vida. É uma sensação de que o que está aí não me representa. Por que a oposição não cresce com mais força? Porque, na sua forma de se comunicar e se relacionar com o jovem, ela representa a outra face da mesma moeda. E o problema está na moeda. A oposição não vem conseguindo se mostrar como alternativa para que a vida desse jovem melhore. Isso tem a ver com vocabulário, com linguagem, com a dificuldade que a política tradicional – esquerda e direita – tem em ouvir. É como se a política fosse analógica e o jovem fosse digital. Como o jovem entende o debate eleitoral? Mais do mesmo. Ele quer outra forma de fazer política. Isso tem a ver com o papel da internet, que muda o jogo.

Os candidatos estão preparados para fisgar esse eleitor?
Se você perguntar, todos respondem que estão superconectados, que têm estratégias para as redes sociais. Eles estão investindo, mas muita gente ainda pensa internet só pela guerrilha, para fazer o lado sujo da campanha, não para ter um conjunto de propostas participativas. Por que eles têm dificuldade? Isso é uma questão de engajamento, que é voluntário. Por mais que se tenha um exército de militantes profissionais na rede, isso não gera um engajamento natural. É um discurso feito por pessoas que não estão na rede. Basta ver fenômenos como TV Revolta eDilma Bolada: eles entenderam a linguagem. Não adianta reproduzir na internet só o que sai na televisão. A televisão tem a função do recall, a internet tem a função de criar defensores da candidatura.

O maior desafio de Dilma é combater a insatisfação generalizada com a coisa pública?
Por estar na presidência, Dilma simboliza o maior político do Brasil. Parte tem a ver com a história que ela construiu em quatro anos, mas parte tem a ver por estar ocupando a presidência. E ponto. Quando analisamos o histórico das manifestações de junho, vemos que quem mais sofreu foram os prefeitos, que tinham acabado de ser eleitos. Por que o prefeito não fez uma boa gestão? Não era esse o ponto, é porque ele estava ocupando o cargo e a prefeitura, no limite, representa o quanto a política está descolada da vida das pessoas.

As manifestações vão dominar a pauta eleitoral?
Estamos pesquisando isso. Claro que haverá manifestações na Copa, isso acontece em qualquer lugar do mundo. A Copa é o pretexto para que o mau humor da sociedade se manifeste. Nas manifestações de junho e julho, as pessoas confundiram motivos para protestar com o pretexto. As razões eram as mais diversas. Com a repressão policial em São Paulo e no Rio, houve um motivo efetivo. A manifestação do passe livre dava um calendário e a Copa das Confederações dava data, local e garantia de cobertura de imprensa. Agora, o mau humor permanece, estamos num cenário parecido. A grande incógnita é o peso que as manifestações terão nas eleições. Se elas forem violentas, prejudicarão menos a situação e favorecerão menos a oposição. Agora, se forem alegres, com palavras de ordem nos estádios, caras-pintadas, em que se defenda o Brasil sem defender os governos, teremos o pior cenário para a situação e o melhor para a oposição.

A economia vai pesar na hora que o eleitor for às urnas?
Esta eleição é uma eleição de economia, mais do que qualquer outra. Só que é a economia do cotidiano, que faz diferença na vida das pessoas. Estranho muito quando os economistas das campanhas falam de economia sem levar isso em consideração. Acontece dos dois lados. Quem conseguir levar para o chão a discussão da economia vai ter sucesso na conquista do eleitorado.

O PT investiu no discurso do medo, como fez o PSDB no passado. Foi um tiro no pé?
A impressão que tenho é que só os intelectuais compreenderam o discurso do medo. Já para as classes C e D, o vídeo serviu para lembrar que a vida melhorou, não para despertar o medo de voltar a ser o que era antes. E isso deu impacto nas pesquisas de intenção de voto que vieram depois. O eleitorado não vai ser pautado pela chantagem – nem de um lado nem de outro. O eleitorado vai ser pautado por quem se mostrar capaz de fazer sua vida continuar melhorando. E negar que a vida das pessoas melhorou pode ser um tiro no pé da oposição também. O brasileiro está olhando para frente.

Os políticos estão preparados para, além de reformular seus discursos, modernizar também seus planos de governo?
Não sei. Acho que as manifestações de junho e julho serviram para que eles prestassem atenção nisso. Mas, depois, voltaram para o dia a dia. Se caírem de novo no dia a dia, teremos outros junhos e julhos. Nossa nova pesquisa diz que 58% dos jovens acham que o Brasil seria melhor sem partidos políticos. Isso mostra uma insatisfação grande. Só que esse cara acredita no poder do voto – sete em cada dez jovens acham que seu voto pode mudar o Brasil.

Não é uma discrepância?
A discrepância é com a organização dos partidos. Esse cara hoje se mobiliza mais por bandeiras e manifestações horizontais do que por manifestações verticais e orgânicas como partidos e sindicatos. Ele acha que o voto pode transformar porque acredita no seu poder de mudar as coisas. Os intelectuais de esquerda veem esse dado e dizem que eles defendem a ditadura. Não é o que as pessoas estão dizendo. Elas dizem: “Os partidos que estão aí não me representam”.

Já pensou em trabalhar para partidos políticos?
Nunca fiz campanha, mas também não posso dizer que não faria nem critico quem faça. Só acho que tem de ter cuidado. Eu me assusto quando solto uma pesquisa e há utilização partidária – de um lado ou de outro. No processo eleitoral, isso me deixa com receio de entrar no jogo.

Já sofreu algum tipo de pressão ou se sentiu ameaçado?
Toda vez que a gente solta pesquisas que tratam de grandes temas nacionais e serviços públicos. Isso só nos faz ser cada vez mais criteriosos. Por outro lado, sinto na oposição e na situação uma genuína vontade de nos ouvir. Isso me deixa otimista. Meu grande medo no processo eleitoral é que a gente caia na falsa discussão se o copo está meio cheio ou meio vazio e pare de olhar para o conteúdo do copo. E que o debate eleitoral emburreça uma discussão mais profunda sobre a realidade e o futuro do Brasil.

O povo não quer saber mais de troca de acusações.
Se a campanha for assim, teremos a maior abstenção da história. Se a discussão não for sobre a economia do cotidiano, a vida real das pessoas, e ficar numa acusação rasa e direta entre as candidaturas, teremos a maior abstenção da história.

O que a classe média quer?
Quer poder sonhar com tranquilidade, ter um nível de estabilidade que permita traçar planos para ir além. É esse o medo que ela tem hoje, o medo está nessa segurança de que ela vai poder continuar a realizar os sonhos. Parte considerável do mau humor da sociedade tem a ver com isso.

E o que mais pesa na hora da compra?
Depende da categoria. Cada vez mais, a classe média compra na relação custo-benefício. São as marcas em que ela confia. Nesse processo de alta inflacionária, está fazendo mais pesquisa de preço para não ter de abrir mão das marcas que conhece.

O preconceito diminuiu?
Vai diminuir por um motivo torto. Cada vez mais as pessoas estão saindo da classe C e indo para as classes A e B. São pessoas que têm bolso de classe A e B e cabeça e jeito de pensar de classe C.

Como você avalia seu trabalho à frente do Data Popular?
Costumo dizer que sou um angustiado estrutural (risos). Estou feliz por poder dar voz a um Brasil que não teve voz durante muito tempo. Mas ainda temos de avançar muito para diminuir o preconceito da elite em relação aos emergentes – não só de classe, mas os negros, os idosos, as mulheres. A classe C não existiria sem as mulheres, por exemplo. Mostrar as desigualdades do Brasil é uma coisa que me motiva. Sou apaixonado por gente. /MIRELLA D’ELIA
.

O país das pequenas desobediências

EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR


Nossa tolerância às pequenas corrupções do dia a dia leva à tolerância com as grandes corrupções do mundo político


Já disse o professor Belmiro Valverde – por anos colunista da Gazeta do Povo, e recentemente falecido – que o Brasil “não é para amadores”. Aliás, deu este nome ao seu mais antológico e referencial livro, traduzido em várias línguas e frequentemente citado em estudos acadêmicos mundo afora. Ele tinha razão em dar no emblemático subtítulo a pista para nos tornarmos tão incompreensíveis diante dos olhos civilizados: somos “a terra do jeitinho”, dizia Belmiro.

De fato, é preciso ser “profissional” para entender a razão de, um ano depois de inúmeros brasileiros terem tomado conta das ruas do país para exigir das autoridades mais respeito às leis e aos direitos sociais, uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas nos mostra que o brasileiro médio está, agora, mais disposto a infringir leis do que no passado ainda tão recente.

Segundo o estudo, desobedecer a regras de conduta é uma opção natural e adotada pela grande maioria da população. De acordo com a segunda edição do Índice de Percepção do Cumprimento da Lei (IPCL), elaborado pela Escola de Direito da FGV, entre 2013 e os primeiros meses de 2014 aumentou a quantidade de pessoas que admitem cometer pequenas ilegalidades e infrações. Numa escala de zero a dez (em que zero representa o desrespeito completo às leis e dez representa a honestidade total), o índice de 2014 recuou para 6,8 em relação aos 7,3 aferidos em 2013. A pesquisa entrevistou 3,3 mil pessoas em sete estados e no Distrito Federal.

Os entrevistados nem mesmo se sentem culpados pelas infrações que cometem. Os comportamentos abordados vão desde posturas mais “inofensivas”, como atravessar a rua fora da faixa de pedestres, até outras que podem ter graves consequências, como dirigir após ingerir bebida alcoólica; comprar produtos piratas, subornar agentes públicos para evitar multas, jogar lixo fora do local indicado e atrapalhar vizinhos com barulho também figuraram na pesquisa. A culpa, dizem os entrevistados, é das próprias leis, no seu entendimento “falhas”, e das autoridades constituídas – as primeiras a desrespeitá-las e não serem punidas pelas transgressões.

Embora as leis de trânsito sejam as mais citadas como objeto de mais frequente desobediência, inúmeras outras situações são resolvidas por meio de modos aparentemente inocentes e admissíveis de burlar regras previstas na legislação. Na interpretação dos autores da pesquisa, dá-se, neste caso, um fenômeno inusitado: as pessoas que cometem delitos se amedrontam menos com a possibilidade de virem a ser punidas do que com a imagem social negativa que suas transgressões possam lhes causar. Mais cruel e inibidora é a opinião alheia – dos vizinhos incomodados com o som alto fora do horário, por exemplo – do que a eventual intervenção dos agentes da lei encarregados do seu cumprimento.

Comportamentos como estes simbolizam o grau de desrespeito a que os brasileiros chegaram em relação às instituições e aos seus mandatários. Se representantes encastelados nos palácios e tribunais podem burlar os mandamentos legais (que, aliás, juraram obedecer) e nada ou muito pouco lhes acontece, por que o cidadão comum estaria obrigado à sua fiel observância?, raciocinam.

Trata-se de um círculo vicioso que a pesquisa da FGV escancara: nossa tolerância às pequenas corrupções do dia a dia leva à tolerância com as grandes corrupções do mundo político, que por sua vez desanimam o cidadão que tenta levar a vida de forma honesta, e assim sucessivamente. Os eleitos são reflexo dos eleitores, e vice-versa.

Este ciclo precisa ser rompido. Claro que, para isso, se exigem mudanças culturais e comportamentais profundas e que não se dão do dia para a noite. Mas é preciso começar, e espalhar essa noção de cidadania àqueles que nos são mais próximos. E, além disso, há passos que podem ser cumpridos no curto prazo e com datas marcadas: dos bons cidadãos, chamados às urnas a cada dois anos, se espera que escolham como nossos representantes políticos pessoas realmente comprometidas com a ética e com o respeito às leis.
.

O mundo preocupa-se com a saúde. E nós?

 WASHINGTON NOVAES
O ESTADÃO  

É inquietante verificar que, fora este jornal (12/7), raros órgãos da comunicação brasileira informaram que a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul confirmou duas mortes no Estado por gripe suína, de duas mulheres não vacinadas. Além delas, outras 43 pessoas morreram em 2013 no Estado, vitimadas pela gripe.

É preciso dar muita atenção aos surtos de doença em massa, ainda presentes sob muitas formas. O Brasil relatou 1,4 milhão de casos de dengue em 2013 (New Scientist, 24/5). Estudo publicado na revista científica The Lancet (10/7) indica que uma vacina reduziu em 88,5% os casos de dengue hemorrágica em três países asiáticos (Agência Estado, 11/7). E dengue não é o único problema. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu (4/7) a ministros da Saúde africanos medidas drásticas para conter epidemia de Ebola na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria. Desde março, 759 casos foram confirmados, com 467 mortos nos três países - e não há vacinas nem tratado. Alta porcentagem de infectados morre. E não foi essa a única preocupação da OMS na reunião: tratou-se ali também do temor do possível ressurgimento do vírus da varíola, epidemia considerada extinta há mais de três décadas. E a razão está em que vírus da doença continuam a circular pelo mundo em estudos científicos, com risco de evasão.

Na mesma reunião da OMS em Genebra, a Comissão do Código Alimentar pediu que todos os países adotem recomendações sobre uso de medicamentos em animais que serão usados na produção de alimentos, sobre níveis máximos de chumbo em produtos para mulheres que amamentam, assim como de arsênico no arroz e certas toxinas no milho. Outras recomendações: limites máximos de resíduos em praguicidas, alimentos e medicamentos, assim como no uso de aditivos em alimentos. São temas que preocupam no mundo todo.

Outro capítulo está no uso excessivo de antibióticos, que está favorecendo "pragas modernas", como diz um livro de Martin J. Blaser, microbiologista da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, pela Editora Macmillan (New Scientist, 24/5). Segundo a revista, os relatos de bactérias resistentes a antibióticos estão "crescendo de ano para ano". E os antibióticos estariam contribuindo também para a obesidade, ao perturbarem bactérias intestinais que têm papel importante no processo da nutrição. Criadores usam esses medicamentos para engordar o rebanho - e isso aconteceria também com seres humanos. Mas problemas podem sobrevir nas áreas de diabetes, alergias e certos tipos de câncer.

Diz o cientista que "estamos perturbando" o equilíbrio entre células e bactérias (que existem em número dez vezes maior), já que a cada dose de antibiótico eliminamos também "massas de inocentes bactérias" e essa ausência implicaria perdas no campo das imunidades, na asma, na diabetes tipo 1, em infecções gastrointestinais e em outras doenças. Precisamos, por isso, criar medicamentos que eliminem apenas os organismos nocivos. E formatos para enfrentar a resistência a antibióticos. Mas para tudo isso, diz a OMS, será preciso desenvolver soluções que sejam consideradas um "bem público", não "um jogo comercial". E exigirão um acordo com a indústria farmacêutica: esta precisará ser paga, por meio de fundos, pela pesquisa, e não por vendas. Não seria tão difícil, pois o mercado já não lhe proporciona altos rendimentos nessa área.

São temas importantes para o Brasil, onde os problemas na área da saúde pública, embora venham caindo, ainda são muito preocupantes - com a agravante de que 54% das despesas com saúde vêm sendo, na média, financiadas por gastos privados (Comitê de Estudos Médicos do Estado de Goiás, julho de 2014, citando estudo da OMS), e não por verbas públicas, necessárias para a imensa maioria da população. É um panorama bem diferente do que ocorre em países até mais ricos, como a Noruega, onde o poder público financia 86% dos gastos. Ou na Turquia (75%), na Colômbia (75%) e no Uruguai (68%). Em 2013, de nossos investimentos federais de R$ 47,3 bilhões, a área de saúde ficou com apenas 8,2%, menos até que a média africana, de 10,6%. Estudo do British American Journal, citado pela Folha de S.Paulo (5/7), mostra que temos 350 mil mortes anuais no País por doenças cardíacas, embora elas tenham diminuído 21% em uma década nos municípios atendidos por programas de saúde da família. Nas doenças cerebrovasculares a redução foi de 18%.

Um avanço maior nas áreas de saúde será decisivo. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (7/7), um estudo paralelo evidencia que 14,4% dos brasileiros já perderam todos os dentes - com as consequências que isso tem. Entre as mulheres de baixa renda, mais de 55% já os perderam. E 30 milhões de crianças nunca foram a um dentista. Apenas 55% dos brasileiros com mais de 18 anos de idade têm todos os dentes - e isso varia de 39,1% na Região Norte a 66,5% no Sudeste e no Sul.

Portanto, não nos faltam razões para nos inquietarmos - elas vão das ameaças (ou concretizações) de surtos epidêmicos como a dengue a problemas na escala mundial ou à precariedade de certas condições internas de saúde. E até mesmo ao surgimento, em Goiânia, de um caso suspeito da "febre chicungunya", uma infecção viral transmitida pelo Aedes aegypti, parecida com a dengue, e que teria sido contraída por uma mulher durante viagem à República Dominicana. Conforme infectólogos, "a Organização Mundial da Saúde considera o Brasil vulnerável à febre" (O Popular, 3/7).

Grande parte do problema está em que a maioria dos nossos administradores continua a achar que desenvolvimento é só crescimento do produto interno bruto - e por isso eles concedem tantas isenções de impostos e perdão de dívidas a empresas, sem se lembrarem de avançar nas condições de vida da população.
.

Dimensões chinesas

Relembrando que a Indústria é o carro-chefe de qualquer economia forte por sua capacidade de arrecadação de impostos e de investimentos, ressalto um importante artigo sobre uma escolha de nosso governo, como política externa, intensificada nos últimos dez anos.

Em outras palavras, acordos que beneficiam mais a China do que pais de família desempregados por queda vertiginosa da atividade industrial brasileira....mais dependência de programas sociais, mais crianças nas ruas, mas violência urbana, mas filas nos postos de saúde, etc, etc E etc.

Detalhe, este mesmo governo está, novamente, na frente nas intensões de votos.


[...] " A partir de 2009, a China superou os EUA para se tornar nosso primeiro parceiro comercial; o Brasil está em nono lugar na lista de Pequim.[...]

[...] até o início dos anos 1990, o Brasil exportava principalmente manufaturados; hoje, predomina a venda de matéria-prima, e vários setores da indústria perdem mercado para os chineses.[...]


Dimensões chinesas
EDITORIAL FOLHA DE SP



O líder máximo da China, Xi Jinping, pinçou uma frase de Confúcio para comentar os 40 anos de relações bilaterais entre seu país e o Brasil. Nessa idade, segundo disse o sábio chinês, "a pessoa se livra da perplexidade". É difícil sustentar, contudo, que o enunciado se aplique igualmente às duas nações.

A visita de Xi Jinping a Brasília ontem deixou como legado a assinatura de 32 acordos, entre os quais se destacam a retirada do embargo à carne bovina brasileira e a compra de 60 jatos da Embraer, numa transação de US$ 2,9 bilhões (para comparação, o Brasil demorou 15 anos para adquirir 36 caças suecos por US$ 4,5 bilhões).

Brasil e China, no entanto, nem sempre conviveram em meio a cifras suntuosas. Em 1978, quatro anos após a formalização dos laços diplomáticos (ocorrida em 15 de agosto de 1974), o saldo da balança comercial era de US$ 133 milhões.

No ano passado, esse montante era alcançado em cerca de 15 horas; a soma das exportações e importações entre os dois países atingiu US$ 83,3 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento.

Esse crescimento se deu sobretudo neste século, graças à disparada da economia chinesa. A partir de 2009, a China superou os EUA para se tornar nosso primeiro parceiro comercial; o Brasil está em nono lugar na lista de Pequim.

Por baixo dos números grandiosos, porém, há um aspecto preocupante: até o início dos anos 1990, o Brasil exportava principalmente manufaturados; hoje, predomina a venda de matéria-prima, e vários setores da indústria perdem mercado para os chineses.

No campo político, divergências ideológicas jamais se converteram em obstáculo intransponível nesses 40 anos. Primeiro como ditadura militar alinhada aos EUA, depois como democracia, o Brasil foi se aproximando cada vez mais do país dirigido com mão de ferro sempre pelo Partido Comunista.

O pragmatismo de ambos os lados e a ausência de pendências históricas fizeram com que prevalecessem as afinidades de países continentais em desenvolvimento.

São continentais, contudo, também as diferenças econômicas e demográficas. Enquanto a China ostentou, no ano passado, PIB de US$ 9,2 trilhões e mais de 1,3 bilhão de habitantes, o Brasil apresentou PIB de US$ 2,3 trilhões e 201 milhões de habitantes.

Com crescimento pífio nos últimos anos e tendo sua indústria estagnada, o Brasil se acomoda como coadjuvante e assiste, decerto com perplexidade, ao avanço do gigante asiático, cada vez mais confortável no papel de potência global.
.

GEOMAPS


celulares

ClustMaps