quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Seu Maior Tesouro

Diz a lenda que, certa vez, um homem caminhava pela praia numa noite de luacheia. Pensava desta forma:
"Se tivesse uma casa grande, seria feliz". "Se tivesse um excelente trabalho, seria feliz. Se tivesse uma companheira perfeita, seria feliz".
Nesse momento, tropeçou com uma sacolinha cheia de pedras e começou a jogá-las, uma a uma, no mar, a cada vez que dizia: "seria feliz se tivesse..."
Assim o fez até que a sacolinha ficou com uma só pedrinha, que decidiu guardá-la.
Ao chegar em casa, percebeu que aquela pedrinha tratava-se de um diamante muito valioso.
Você imaginou quantos diamantes jogou no mar, sem parar para pensar?
Quantos de nós vivemos jogando fora nossos preciosos tesouros por estar esperando o que acreditamos ser perfeito ou sonhando e desejando o que não temos, sem dar valor ao que temos perto de nossas mãos?
Olhe ao seu redor e, se você parar para observar, perceberás quão afortunado você é. Muito perto de ti está tua felicidade.
Observe a pedrinha, que pode ser um diamante valioso.
Cada um de nossos dias pode ser considerado um diamante preciso e insubstituível. Depende de nós aproveitá-lo ou lançá-lo ao mar do esquecimento para nunca mais recuperá-lo.
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Irracionalidade econômica e racionalidade política


Antonio Delfim Netto
Valor Econômico


O cabo de guerra que se instalou nos Estados Unidos entre o Executivo (dominado pelos democratas) e o Legislativo (dominado pelos republicanos) para a aprovação do aumento do endividamento público é um jogo político de alto risco, mas com altíssimo prêmio: o resultado da eleição presidencial de 2012. Não parece, entretanto, que o "mercado" da dívida pública americana tenha lhe dado até aqui maior importância, o que não se pode dizer dos mercados mais especulativos que vivem das incertezas que geram volatilidade. Isso se prova pelo fato que, semanalmente, o Tesouro americano vende, em média, qualquer coisa parecida com US$ 80 bilhões de papéis com vencimento de 30 dias (35%), de um ano (25%), e de dois anos (40%). No último leilão semanal, de 26/7, vendeu US$ 73 bilhões com as características apresentadas na tabela abaixo.

A demanda global dos papéis de vencimento em 30 dias, com relação ao nível de corte do Fed, foi de 5,3 vezes (para cada US$ 1 bilhão vendidos apresentaram-se potenciais compradores de US$ 5,3 bilhões). Nas quatro semanas de julho o Fed vendeu US$ 102 bilhões de papéis com vencimento de 30 dias. As demandas sempre foram mais do que 4,5 vezes o montante vendido, com taxa de juro media inferior a 0,06%. No mesmo mês, o Fed colocou mais de US$ 330 bilhões de papéis com vencimentos entre 30 e 720 dias (contra uma demanda superior a US$ 1,2 trilhão) com suas respectivas taxas de juros praticamente inalteradas.

Esses números não parecem revelar qualquer angústia maior do "mercado" da dívida pública com a possibilidade de um "default". Talvez porque esse seria o primeiro da gloriosa história da dívida interna americana desde que Hamilton, inteligentemente, decidiu honrar as dívidas das colônias após a conquista da independência. Não foi sem razão que o dólar transformou-se, depois da Segunda Guerra, na unidade de conta com poder liberatório e reserva de valor universais, e que os papéis do Tesouro dos EUA são a única aplicação com risco nulo. Isso ajuda a explicar porque a economia americana transformou-se no que é.

Essa é a maior demonstração que não se trata de um problema sobre a capacidade ou a eventual incapacidade de os EUA honrarem a sua dívida ou de continuarem a encontrar compradores para seus papéis a taxa de juros praticamente nula (de fato negativas). O Tesouro americano não enfrenta questão de solvência e, por definição (porque emitem a moeda de poder liberatório universal), muito menos de liquidez!

O único problema do Tesouro americano é o estabelecimento de um teto legal de endividamento nominal, que já foi alterado muitas vezes quando preciso. Em condições normais de pressão e temperatura isso tem sido feito sem grande celeuma, uma vez que o teto é corroído pelo próprio processo inflacionário e pelo crescimento do Produto Interno Bruto, o que mostra a irracionalidade institucional.

Irracionalidade? Muito pelo contrário! É apenas mais uma das medidas "racionais" do Congresso americano para controlar o Poder Executivo. O risco é que em condições especiais: 1) quase equilíbrio entre a representação republicana e democrática no Congresso; 2) uma situação de crise econômica muito mal resolvida; 3) uma política econômica fortemente contestada porque protegeu Wall Street à custa da Main Street; e 4) às vésperas de uma eleição presidencial, esse poder - por pura ignorância das consequências - tornar-se uma arma de destruição em massa.

Quando o poder está em jogo, a irracionalidade econômica pode ter racionalidade política e a insensatez tem sua chance! Mas, felizmente, ainda não foi agora que aconteceu.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
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Era da ciberguerra começou e envolve países e empresas

 Michael Riley e Ashlee Vance | Bloomberg  - Businessweek
Valor Econômico



Tecnologia: Escalada de ataques a computadores é vista por especialistas como início de um novo confronto



Nas primeiras horas da manhã de 24 de maio, um ladrão armado, com o rosto encoberto por uma máscara de esquiar, invadiu os escritórios da Nicira Net-works, uma empresa iniciante do Vale do Silício instalada em um dos incontáveis prédios de arquitetura indefinível na Highway 101. Ele passou pelas escrivaninhas repletas de computadores portáteis e dirigiu-se diretamente à mesa de um dos principais engenheiros da empresa. O assaltante parecia saber exatamente o que queria: um computador volumoso, que armazenava o código-fonte da Nicira. Pegou a máquina e fugiu. Toda a operação durou cinco minutos, como mostrou um vídeo capturado pela minicâmera do computador de um dos funcionários.

O sargento Dave Flohr, da polícia de Palo Alto, decreveu o caso como um típico roubo de computador no Vale do Silício. "Há montes de idiotas por aí que pegam o que podem e saem", diz.

Duas fontes próximas à empresa, no entanto, dizem suspeitar, assim como investigadores federais encarregados do caso, de algo mais sinistro: um assalto profissional, realizado por alguém com laços com a China ou a Rússia. O ladrão não queria um computador que pudesse vender na Craigslist, empresa popular de anúncios classificados. Queria as ideias de Nicira.

O roubo de propriedade intelectual está longe de ser algo inédito no Vale do Silício. Na maioria das vezes, se trata de uma invasão digital de redes por hackers em busca de algum produto muito usado. Neste caso, houve uma invasão física, por um ladrão armado que estava atrás de uma tecnologia secreta, que ainda nem está no mercado.

A Nicira passou os últimos quatro anos desenvolvendo silenciosamente um programa de infraestrutura de computação para centros de dados. De acordo com site da empresa, os fundadores da Nicira vieram dos departamentos de ciência da computação das universidades de Stanford da Califórnia, em Berkeley.

A empresa conta com grandes investidores em capital de risco, como a Andreessen Horowitz e New Enterprise Associates. A Nicira também pediu verbas para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, para trabalhar em tecnologias de rede para uso militar. Representantes da Nicira não quiseram comentar o assunto para este artigo. (A Bloomberg LP, dona da Bloomberg Businessweek, é investidora na Andreessen Horowitz).

Os que estão a par do roubo se recusam a falar publicamente. Atribuem a relutância a ordens dos investigadores federais. De forma reservada, mostram preocupações em comum: a ciberespionagem e os ataques de hackers ligados a países parecem estar aumentando em frequência e gravidade. O que outrora parecia domínio de Hollywood - assaltantes de alta tecnologia armados e vírus de internet que derrubam usinas elétricas - tornou-se real. Eles temem que os conflitos on-line e os incidentes de espionagem estejam aumentando venham a se transformar em uma disputa cruel e perturbadora, envolvendo governos, empresas e hackers altamente avançados e fora de alcance.

A nova era da "Code War" (Guerra de Códigos, que em inglês soa semelhante a Guerra Fria) não se tem superpotências encarando-se para ver quem pisca primeiro. Lembra mais a Europa de 1938, quando o continente era um caos e um conflito mundial parecia inevitável.

Os ciberataques costumavam ser mantidos em silêncio. Muitas vezes, passavam despercebidos por muito tempo depois do ataque, e países ou empresas atingidos normalmente não falavam sobre o assunto. Isso mudou à medida que um fluxo constante de incursões mais descaradas começou a ser exposto.

Em 2010, por exemplo, a Google acusou a China de espionar funcionários e clientes da empresa. Na ocasião, informou que pelo menos outras 20 empresas foram vítimas do mesmo ataque, apelidado de Operação Aurora pela empresa de segurança em computação McAfee. Entre as vítimas também estavam Adobe Systems, Juniper Networks e Morgan Stanley.

Joel F. Brenner, chefe de contrainteligência dos EUA até 2009, diz que a mesma operação que desencadeou a Aurora teve muitas outras vítimas ao longo dos anos. "Seria aceitável dizer que pelo menos 2 mil empresas foram atingidas", diz Brenner. "E esse número está mais para o lado conservador", afirma.

Dezenas de outros nomes, como a Lockheed Martin, a Intel, o Ministério da Defesa da Índia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Pacific Northwest National Laboratory, sofreram ataques similares. Neste ano, hackers invadiram as redes de computador da RSA, uma empresa de segurança que protege computadores de outras empresas. Eles roubaram alguns dos códigos de computador mais valiosos do mundo, os algoritmos das fichas SecureID, da RSA, produtos usados por agências do governo dos EUA, fornecedores militares e grande bancos para impedir invasões de computadores. É como invadir um chaveiro altamente protegido e roubar a chave mestra que abre os cofres de todos os cassinos na Las Vegas Strip.

No mês de julho, o Pentágono revelou que também havia sido "hackeado". Mais de 24 mil arquivos foram roubados dos computadores de um fornecedor militar, não identificado, por "invasores estrangeiros".

O mais famoso incidente de ciberguerra até agora, cujos detalhes tiveram maior divulgação, envolveu o vírus Stuxnet. Em 2010, o Stuxnet - cuja existência foi noticiada em primeira mão pelo blog de segurança de Brian Krebs - apareceu em dezenas de países, tendo como alvo o que se conhece como controladores lógicos programáveis, que são computadores industriais do tamanho de um maço de cigarro, presentes em quase tudo.

O Stuxnet foi projetado para atingir apenas um tipo: os controladores de processamento de combustível de urânio em uma instalação nuclear do Irã.

As pessoas que analisaram o ataque acham que alguém conectou um "pen drive" carregado com o Stuxnet em algum computador pessoal com Windows conectado às centrífugas, localizadas dentro de um refúgio. O vírus deu a ordem para o equipamento girar com velocidade exagerada, o que o acabou destruindo.

Enquanto tudo isso acontecia, o Stuxnet manteve-se escondido dos técnicos iranianos. O vírus desarmou os alarmes e inseriu falsos informes de funcionários, assegurando que as centrífugas estavam funcionando bem.

O Stuxnet atrasou o programa nuclear iraniano por meses. Não comprometeu apenas bases de dados, como a maioria dos vírus de computador: destruiu algo físico. "O Stuxnet foi o equivalente a uma arma balística de alta potência", diz Ed Jaehne, estrategista-chefe da KEYW, empresa de segurança de computadores, em Maryland, que vem apresentando grande crescimento.

Quando os pesquisadores dissecaram a tecnologia e buscaram os motivos, alguns apontaram para os EUA ou Israel como o local mais provável de origem.

A investigação sobre o Stuxnet não era necessariamente de muita ajuda: se há uma característica distintiva dos ataques na Guerra dos Códigos é que a tecnologia envolvida está em constante mutação. Os ciberarmamentos parecem estar entrando na era dourada de progresso acelerado - uma nova corrida armamentista. O desafio em Washington, no Vale do Silício e por todo o mundo é desenvolver ferramentas digitais tanto para a espionagem como para a destruição.

Os alvos mais atraentes nesta guerra são civis - redes elétricas, sistemas de distribuição de alimentos e qualquer infraestrutura básica que rode em computadores. "Esse negócio é mais cinético do que os armamentos nucleares", diz Dave Aitel, fundador da Immunite, uma empresa de segurança em computadores, em Miami Beach, usando um termo militar que designa poder de destruição no mundo real. "Nada é mais revelador de que você perdeu do que uma cidade faminta."

Os ciberarmamentos existem há vários anos, em sua maior parte nas agências de inteligência nacionais e militares. Especialistas em segurança confirmaram que trabalhos da Northrop Grumman, Raytheon e General Dynamics, potências da indústria militar tradicional, estão ajudando o governo dos EUA a desenvolver formas de espiar ou desativar redes de computadores de outros países.

O setor, no entanto, começou a mudar em torno a 2005, quando o Pentágono começou a dar mais ênfase ao desenvolvimento específico de ferramentas de hackers com fins militares.

A mudança na política militar permitiu o nascimento de uma série de pequenos, mas avançados, "negociantes de ciberarmamentos" de ataque. A maioria são empresas "obscuras" que camuflam o financiamento governamental e trabalham em projetos confidenciais. "Há cinco anos, ocorreu uma explosão", diz Kevin G. Coleman, ex-estrategista-chefe da Netscape e autor de "The Cyber Commander"s eHandbook", um guia que pode ser baixado da internet. "Simplesmente, entraram em cena pessoas com capacidades ofensivas."

Dois dos principais armamentos no arsenal dos guerreiros virtuais são os "botnets" e "exploits". Um botnet é um grupo de dezenas ou até centenas de milhares de computadores sendo comandados sem o conhecimento de seus donos. Para criar esses exércitos involuntários, os hackers passam anos infectando os computadores das pessoas com códigos maliciosos (vírus de computador de autopropagação), que ficam escondidos e preparam o computador para receber ordens. Quando ativado, um botnet pode derrubar redes ao bombardeá-las com lixo digital. Também pode ajudar a espionar e, se necessário, a sabotar um grande número de máquinas.

Um "exploit", no sentido usado pelos hackers para a palavra, é um programa que explora as vulnerabilidades de outros programas de amplo uso, como o Windows, da Microsoft, ou das milhões de linhas de códigos que controlam servidores de rede. Os hackers usam os exploits para entrar e inserir um vírus ou outros conteúdos destrutivos. Algumas dessas brechas são bem conhecidas, embora os fornecedores de software possam levar meses ou até anos para criar soluções para elas.

Os exploits mais importantes são aqueles desconhecidos de todos até a primeira vez em que são usados. São chamados de "exploits dia zero" (o dia em que o ataque é descoberto seria o "dia um"). Nos subterrâneos do mundo dos hackers, em bate-papos on-line apenas para convidados nos quais são negociados produtos ilegais, um exploit dia zero para uma rede com Windows pode ser vendido por até US$ 250 mil. O Stuxnet usou quatro exploits dia zero de alta complexidade, o que o torna uma grande estrela nos círculos de hackers.

O guia de Coleman lista cerca de 40 tipos de ataques possíveis com botnets e exploits. O número 38 é o assassinato. Assim como o Stuxnet deixou a centrífuga girando fora de controle, um vírus de computador pode desativar uma terapia intravenosa ou o sistema de oxigênio controlados por computadores em algum hospital, antes de a equipe médica tomar conhecimento de que há algo errado.

Número 39: hackear carros. Os carros estão repletos de computadores, que controlam freios, câmbio, motor e praticamente tudo. Controle esses sistemas e você pode controlar o veículo - e provocar uma batida, se quiser.

Soa absurdo? Em 2010, pesquisadores da Rutgers University hackearam os computadores de um carro que estava a quase 100 quilômetros por hora, por meio do sistema sem fio usado para monitorar a pressão dos pneus.

Não está claro se o governo dos EUA já usou alguma dessas técnicas. "Somos capazes de fazer coisas que ainda não decidimos se são o melhor a fazer", diz o general Michael V. Hayden, ex-diretor da CIA.

O que diferencia um ataque normal de hacker de um do Pentágono neste contexto não é a imponência de poder, mas a destreza com que o invasor pode infiltrar-se em uma rede, esconder seu material e, depois, desaparecer.

Na Coreia do Sul, um vírus de computador iniciou em março um ataque de dez dias, tomando o controle de milhares de computadores de estudantes, trabalhadores e donos de lojas. As máquinas, então, bombardearam sites militares e governamentais com um grande tráfego incessante, derrubando redes ou inabilitando-as parcialmente. O ataque destruiu milhares de computadores e custou centenas de horas de trabalho para atenuar os problemas. Segundo a empresa de segurança McAfee, no entanto, o verdadeiro objetivo provavelmente era testar as defesas digitais sul-coreanas, sugerindo que há mais por vir.

Os pesquisadores da McAfee, tentando encontrar a origem do ataque, descobriram que o vírus recebeu comandos de servidores em 26 países, incluindo Vietnã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Cerca de 20% dos servidores estavam nos EUA. Quando a trilha digital começava a desvendar-se, os computadores atacados foram instruídos a apagar seus códigos de software básicos, tornando-se inúteis. Os investigadores ainda tão têm certeza sobre quem lançou o ataque, mas a McAfee suspeita da Coreia do Norte.

O incidente demonstrou um dos aspectos mais assustadores da ciberguerra: a impossibilidade de rastreamento. Jaehne, da KEYW, diz que empresas iniciantes são mais apropriadas para lidar com esses ataques misteriosos de alta velocidade.

"A grande base industrial dos fornecedores militares não é conhecida por sua capacidade quanto a isso ou por sua velocidade em inovação", diz Jaehne. "Eles precisam dirigir-se a empresas menores, mais ágeis, para encontrar essa inovação."

A KEYW diz ser a única empresa com ações negociadas especializada puramente em "cibersuperioridade". Jaehne e outros executivos fundadores da empresa de Hanover, no Estado de Maryland, saíram do Northrop Grumman para criar sua empresa em 2008. A maioria dos 800 funcionários tem autorização para trabalhar em projetos secretos de agências de inteligência dos EUA, responsáveis pela maior parte da receita da empresa. Em 2010, a receita subiu 175%, de US$ 39 milhões para US$ 108 milhões. Quando perguntado sobre os tipos de munições digitais que a KEYW produz, Jaehne responde: "Não há nada que eu possa falar sobre isso."

Aitel, da Immunity, também não fala sobre os trabalhos da empresa para o governo. De acordo com uma fonte próxima à Immunity, a empresa produz "rootkits" transformados em armas: sistemas de invasão digital de grau militar usados para entrar em redes de outros países. A fonte não quis ser identificada porque o assunto é delicado. Entre os clientes, estão agências de inteligência e militares dos EUA.

O governo americano passou os últimos dois anos formalizando as suas operações e estudando a questão da guerra por computadores. Em 2009, o governo de Barack Obama anunciou a criação do U.S. Cyber Command, com sede em Fort Meade, Maryland. O presidente assinou recentemente ordens que dão aos militares aprovação total para usar armamentos digitais que possam desempenhar várias tarefas, como as de espionagem e de ataques a redes elétricas de inimigos - esses últimos exigem ordens presidenciais. É um momento de mudanças rápidas e assustadoras.

"É como nos primeiros dias do balanceamento nuclear americano-soviético", diz Clarke. "Não conhecemos as regras da estrada."

Gunter Ollmann, especialista em segurança de computadores e ex-diretor da X-Force, diz que o poder sedutor dos ciberarmamentos pode superar o medo dos governos quanto à instabilidade que seu uso possa causar. Também acredita, no entanto, que os armamentos digitais podem reduzir o risco de conflitos travados com tanques e mísseis.

O Stuxnet evitou o conflito aberto que teria se seguido a um bombardeio das instalações nucleares iranianas. Os países com arsenais digitais avançados poderiam usar a tecnologia para influenciar nações contrárias, desligando a iluminação em Caracas, por exemplo, ou inabilitando o porto da capital líbia.

"Deixa de ser uma batalha cinética e passa a ser uma guerra de cerco", diz Ollmann. "Posso controlar sua água ou sua energia a distância. E quando toda a confusão for decifrada, posso voltar a conectá-las."

Para lidar com a guerra de códigos, que implica um constante estado de ameaça, governos e empresas podem tentar desenvolver sua própria tecnologia. Mas, assim como as bombas inteligentes, caças-bombardeiros e outros instrumentos do "mundo real", as armas cibernéticas são sempre mais fáceis de ser construídas do que destruídas.

"A indústria dos hackers está muito à frente em relação à sua capacidade de implantar um grande botnet", diz Amichai Shulman, chefe de tecnologia da Imperva, empresa especializada em segurança. "Se uma nação quer lançar um ataque distribuindo algum tipo de malware, faz mais sentido para ela simplesmente alugar um botnet já existente", afirma.
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A defesa no sentimento nacional

 Mario Cesar Flores
O Estado de S. Paulo



Ressalvado o restrito mundo profissional da defesa, nos últimos decênios nosso sistema militar vem sendo lembrado principalmente na síndrome da insegurança pública e (se tanto) no cenário da criminalidade transnacional fronteiriça, problemas de natureza basicamente policial, embora também militar, nos limites definidos em legislação. Nas pesquisas de opinião as Forças Armadas são bem hierarquizadas no quesito confiabilidade. Entretanto, trata-se de confiabilidade relacionada mais à correção ética num universo público visto como venal do que como instrumento de defesa, preocupação ausente. Praticamente não existe no Brasil interesse político e societário pela defesa nacional.

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada em dezembro de 2008, é um documento abrangente, aberto ao conhecimento público, sobre a defesa em seus vários aspectos interativos, militares e civis. Pode e deve ser aperfeiçoada - como certamente será -, mas já é um passo positivo, despercebido pela opinião pública e pelo universo político. Vigente há mais de dois anos, qual foi até agora a sua repercussão no Congresso Nacional? Não houve, ao menos em nível que chamasse a atenção da mídia e, por intermédio da mídia, provocasse a da sociedade, em particular, da intelligentzia nacional. Essa apatia preocupa, porque numa democracia a construção de poder militar eficiente, em coerência com o País e sua inserção internacional, não é viável na contramão do sentimento nacional, principalmente de sua representação política. Depende da aceitação política e societária de que fraqueza, pacifismo autista e jurisdicismo utópico não são virtudes absolutas, não garantem em quaisquer circunstâncias o progresso em tranquilidade.

A falta de interesse decorre de quatro razões.

Primeira: o preconceito gerado pelas interveniências militares na vida nacional, tema superado, mas ainda influente em segmentos do sectarismo anacrônico.

Segunda: no sistema militar não há espaço para a cultura clientelista e patrimonialista - o que reduz ainda mais o já precário interesse dos políticos brasileiros pautado nessa cultura.

Terceira: a defesa nacional não gera votos, tanto assim que na discussão política o tema militar praticamente se limita ao que afeta o humor eleitoral corporativo (salário, por exemplo).

E quarta: a mais que centenária ausência de ameaça clássica em que o Brasil tivesse vivido papel protagônico ou ao menos significativo (na 2.ª Guerra Mundial fomos atores coadjuvantes). Depois de Rio Branco, que via espaço para o poder militar, a política brasileira não o tem enfatizado - propensão insegura no incerto maior prazo, porque poder militar moderno não se improvisa ao se manifestar sua necessidade. Solução emergencial ao estilo "voluntários da Pátria" mal armados e mal preparados, da Guerra do Paraguai, seria hoje catastrófica; lembremos a esse respeito nosso despreparo na entrada na 2.ª Guerra Mundial, que compulsou à dependência tutelar dos EUA. Curiosamente, o ministro do Exterior não está explicitado no rol de ministros responsáveis pela formulação da END; a ser real a ausência, é, no mínimo, instigante!

O sentido desta última razão está sintetizado no final dessa frase de professor universitário, proferida com tranquila convicção no coffee break de seminário numa universidade: "Realmente os militares ganham pouco, mas por que pagar-lhes mais se não precisamos deles?"! Remuneração à parte, sem espaço neste artigo, a afirmação "não precisamos deles" é preocupante.

Sintoma emblemático do descaso: na votação do Orçamento a outorga ou a negação de recursos independem de seus efeitos na defesa nacional. Não se pode pretender do Congresso atenção detalhada, mas os recursos são concedidos ou negados à revelia daqueles efeitos, embora na democracia o Congresso também seja responsável pela defesa. Na conciliação do preparo militar com as limitações orçamentárias - compreensíveis, errado é atuarem no bojo da apatia refletida no corte abstrato, tanto na tramitação congressual como na liberação pelo Executivo -, o orçamento da defesa precisa ser estruturado com a visão que assegure continuidade aos projetos prioritários, em geral longos e caros. Esse quesito não tem sido atendido, exigindo ajustagens que tumultuam o preparo militar e prejudicam o desenvolvimento tecnológico de interesse da defesa e a continuidade da indústria de defesa, insustentável sem demanda segura.

Não havendo trauma de risco que a precipite dramaticamente, a elevação da sensibilidade nacional sobre defesa é processo cultural que se estenderá por longo tempo. O processo deve esclarecer por que, como e quanto a dimensão estratégica do poder continua atuante no século 21, deve contextualizar a segurança do Brasil na sua região e no mundo, sem arroubos ufanistas, mas também sem escapismos utópicos como se o mundo vivesse a paz kantiana, embora Hobbes continue vivo nele... Na medida em que ocorra a elevação, a defesa nacional passará a assunto de mérito, vista com responsabilidade e menos sujeita a mudanças radicais com as eleições porque é assunto de Estado, transcende os governos. Será resgatada da apatia e exercerá seu papel de respaldo ao progresso em tranquilidade e à interação do Brasil com o mundo, cujas turbulências pedem atenção, sem exageros, mas prudente.

Voltando à END: embora de fato um primeiro passo positivo, falta-lhe o aval do sentimento nacional, dependente do interesse político e societário pela defesa, sobretudo do político, hoje em claro déficit. A configuração do sistema militar é problema profissional, interno ao Ministério da Defesa, mas sua moldura é política. A dúvida que permeia as agendas nacionais dos países relevantes em todo o mundo, sobre o sistema militar que responde às vulnerabilidades e aos interesses do País nas circunstâncias do século 21, não terá resposta consistente sem aquele aval.
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Crime e mal

Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O assassinato de 77 pessoas na Noruega, cometido por uma pessoa aparentemente normal, nórdica, branca, criada dentro do Estado de bem-estar social, levanta uma série de questões relativas à compreensão de um fato que foge do que consideramos a normalidade. Mais do que isso, tal fato suscita questões sobre o que entendemos por natureza humana, a partir da qual são construídas as formas mesmas de organização do Estado. Conceitos, então, multiplicam-se para explicar o que aparece como inexplicável, talvez porque nossos parâmetros de compreensão do que foge da normalidade sejam muito estreitos. Atentemos para alguns aspectos.

1.º - Chama particularmente a atenção a polícia norueguesa estar completamente despreparada para enfrentar esse tipo de crime, como se ele caísse fora do seu escopo de atuação. O crime seria uma "enormidade" para os parâmetros do que essa polícia considera "normal", objeto de sua ação específica. Dentre outros fatos, demorou mais de uma hora para chegar à Ilha de Utoya, onde jovens do partido social-democrata participavam de uma convenção. Se tivesse sido eficiente, pelos menos metade das pessoas mortas teria sido salva.

2.º - A justificativa de que não havia helicópteros disponíveis porque os pilotos estavam de férias é francamente risível. No entanto, o chefe de polícia foi prestigiado ao fazer essa declaração. Isso porque os próprios dirigentes do país compartilham a mesma opinião, a de que é normal pilotos de helicópteros tirarem férias em julho ou agosto. O problema é que o próprio país já vinha sendo objeto de ameaças do terror islâmico e, certamente, não as tomou a sério. Ou pensam que terroristas só atuam em momentos em que a polícia está totalmente preparada?

3.º - A ação veio de onde menos esperavam, ou seja, de um cristão, branco, nórdico, alguém de dentro do sistema. Na verdade, esse tipo de pessoa não deveria ser, para o Estado norueguês, objeto de preocupação, pois, conforme a concepção do Estado de bem-estar social, uma vez resolvidos os problemas sociais básicos, um crime como o cometido não poderia mais ocorrer. Estabelece-se uma conexão entre criminalidade e condições sociais, como se as segundas extirpassem a primeira.

4.º - A pressuposição aqui em questão é a de que a natureza humana está voltada necessariamente para o "bem", o "mal" sendo uma espécie de disfunção social ou psicológica. No âmbito social, com as condições do Estado de bem-estar social dadas, a ação humana não poderia mais estar voltada para tal tipo de disfunção. Desconsidera-se uma outra possibilidade, que não quer ser sequer pensada: a de que o ser humano tem uma propensão ao mal, independentemente de condições sociais.

5.º - Nesse sentido, não é casual que o criminoso tenha declarado que seu crime seria o mais "monstruoso" depois dos do nazismo, estabelecendo ele mesmo uma filiação com uma forma de mal "político", fenômeno intrigante que Hannah Arendt procurou pensar recorrendo ao conceito kantiano de "mal radical". Há pessoas, grupos humanos e agremiações políticas que voltam suas ações, racionalmente, para a realização do mal, fazendo isso parte de seu projeto, para além de quaisquer considerações de ordem social ou psicológica.

6.º - O advogado do criminoso, estupefato com seu cliente, pois ele foge aos parâmetros da "normalidade", descreveu-o como "frio", "calmo", não demonstrando nenhum arrependimento. Sabia precisamente o que fazia e por que o fazia, segundo as suas convicções. Ele exibiu, operante, uma razão voltada para o mal. Não se trata de um descontrole emocional, ao contrário, nota-se extremo controle. A qualificação de "louco" ou de "insanidade mental" nada mais é do que o resultado dessa estupefação, palavras utilizadas para explicar o que, para essa compreensão da normalidade, é inexplicável.

7.º - A pena máxima para crimes na Noruega é de 21 anos, podendo, em casos excepcionais, ser prorrogada a cada 5 anos em caso de extrema periculosidade. Há, no entanto, um artigo na lei que aumenta a pena para 30 anos em caso de atentado aos "direitos humanos". Do ponto de vista numérico, não faz grande diferença. O problema é outro. A legislação penal norueguesa, assim como a de boa parte dos países ditos desenvolvidos, está baseada no pressuposto de que a prisão não é uma punição, mas um instrumento de regeneração. Ou seja, está excluída a hipótese de que haja indivíduos não regeneráveis, não reeducáveis, que deveriam ser excluídos do convívio humano livre, seja pela prisão perpétua ou pela pena de morte.

8.º - Indivíduos cuja propensão para o mal se faz através de uma "fria" racionalidade caem fora da legislação penal e do sistema prisional desse tipo de Estado, baseado na concepção de que todos os indivíduos, por serem seres humanos, são reeducáveis. Imaginem um indivíduo desses, "reeducado", saindo da prisão... Apenas repetirá o que já fez! A sociedade seria de novo exposta a um perigo que nasce dessa forma do "politicamente correto", a da reeducação, da regeneração.

9.º - O juiz encarregado do caso mostrou uma compreensão do caso ao decidir que essa etapa do seu julgamento seria a portas fechadas, não estando aberta ao público nem às suas formas espetaculares de transmissão midiática, ao vivo. Ações voltadas para o mal contam, para alcançar seus objetivos, com os efeitos midiáticos, de modo que seu autor possa exibir suas "razões", "ideias" e "concepções". O criminoso teria ficado "decepcionado" com a decisão judicial, pois ela o impede de cumprir a sua "missão". O juiz, dessa maneira, limitou os seus efeitos, procurando evitar que "outros" sofram o efeito da emulação, da repetição.

Se as sociedades não pensarem o mal como uma dimensão essencial da ação humana, sobretudo em sua forma "política", ficarão completamente desguarnecidas ante ações desse tipo.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

É preciso avançar


 Amir Khair
O Estado de S. Paulo


Nuvens negras no cenário internacional. A dívida dos EUA, mesmo se ampliada pelo Congresso, já arranhou sua imagem e passou a ser motivo de preocupação para todo o mundo. Na Europa a crise grega expôs a fragilidade da zona do euro e a tendência é permanecer estagnada por vários anos, com riscos de default dos PIIGS, atingindo o sistema bancário dentro e fora da zona.

Neste cenário, o Brasil deve procurar se defender, continuando sua política externa no rumo dos países emergentes, que crescem, e proteger nossas empresas da invasão de produtos importados ilegalmente por dumping e triangulação da China usando outros países para exportações ao Brasil.

Mas, o principal é nosso mercado interno sobre o qual podemos ter comando. É dar continuidade ao crescimento da classe média com a formalização da mão de obra e geração de empregos. Políticas nesse sentido já começaram, como a elevação dos valores do Bolsa Família, o lançamento do Brasil sem Miséria e a segunda fase do Minha Casa, Minha Vida.

Será lançado o "Programa de Inovação do Brasil", prevendo incentivo para aumentar a exportação de manufaturados e na exigência de maior conteúdo local, agregação de valor, compras governamentais e política de defesa comercial.

Em entrevista dia 22, a presidente Dilma Rousseff afirmou que a economia está fazendo um "pouso suave" e não aceita a dicotomia entre controle da inflação e crescimento. "Não queremos inflação sob controle com crescimento zero", quando questionada se trabalharia para levar a inflação a 4,5%, em 2012, a qualquer preço. Muitos bancos centrais olham a inflação e o crescimento, como o dos EUA, mas o nosso, só a inflação e, assim, mesmo com instrumento inadequado. O "pouso suave" pode significar preocupação com a inflação face ao crescimento previsto pelo governo de 4,5%, aquém de 6% nos emergentes e de pouco acima de 4% no mundo.

Em relação ao cenário externo afirmou que o Banco Central (BC) "está correto" ao usar os juros para domar a inflação. Nesse dia 22, o Copom elevou a Selic para 12,50%, a quinta alta consecutiva neste ano. A presidente não iria criticar o BC, mas não creio que esteja satisfeita, pois a Selic elevada atrai dólares, que aprecia o câmbio, causa principal do processo de desindustrialização e rombo nas contas externas.

A estratégia do BC de elevar as reservas internacionais para zerar o fluxo de dólares não deu certo e eleva seu custo de carregamento, podendo alcançar neste ano R$ 70 bilhões (!), enquanto o governo se esforça para garantir o superávit primário. Analistas têm afirmado que a principal causa da apreciação cambial está nas operações de derivativos do mercado futuro de câmbio e que o governo deveria tornar essas operações caras e arriscadas. Foi o que fez dia 28 o Conselho Monetário Nacional (CMN).

A primeira medida foi cobrar 1% de IOF, podendo chegar a 25%, quando os investidores ampliarem suas apostas na valorização do real que excederem US$ 10 milhões. A segunda é exigir o registro das operações com derivativos. A terceira taxa em 6% de IOF empréstimos superiores a 720 dias que forem antecipadamente resgatados.

Mas ficou de fora a maior fonte de ingressos de dólares pela porta dos investimentos diretos de estrangeiros (IDE), que não pagam o IOF de 6%. O BC poderia controlar essas operações antes da internação dos dólares pelo depósito obrigatório em sua conta no exterior, só liberando cada entrada ao fluxo de caixa necessário ao investimento a ser feito no Brasil. Não o faz e, assim, os dólares que entram se transformam em reais e podem ser aplicados na Selic, gerando lucros financeiros que são remetidos para a matriz. Isso ficou evidenciado na elevação de 169% (!) do IDE no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2010.

Para completar a defesa cambial é necessário que a Selic vá para o nível internacional para coibir operações de carry trade (tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outro). Esse é o desafio que falta o governo enfrentar. Não é a visão do BC, que usa a Selic elevada como âncora cambial e produz o boletim Focus consultando só o mercado financeiro sobre as expectativas para a inflação. Esse mercado vive da Selic elevada, sendo suspeito para gerar expectativas que vão influenciar as decisões dos agentes econômicos. Esse procedimento já foi questionado e o BC prometeu mudar, mas não mudou. Cabe ao CMN encerrar esse boletim até que isso ocorra. Não dá para protelar mais.

Mudança. É necessário ter nova política monetária, para permitir o desenvolvimento em níveis mais elevados, com controle da inflação de forma diversa da adotada pelo BC do tipo "samba de uma nota só", com a mega Selic e taxas de juros bancárias (inclusive nos bancos oficiais) de botar inveja aos agiotas.

Os efeitos colaterais danosos dessa política da mega Selic são claros: juros criando déficits fiscais, elevação da dívida pública, custo de carregamento das reservas, apreciação cambial, ganhos ao capital externo, elevação da liquidez pelo carry trade, desincentivo ao investimento privado, rombos nas contas externas e desindustrialização.

Condução. Cabe ao CMN o comando da economia. É falsa a questão da independência operacional do BC. É dependente do mercado financeiro. Nos raros casos em que divergiu, foi duramente atacado, como ocorreu na reunião do Copom de 6 de dezembro, quando introduziu as medidas macroprudenciais para controlar o crédito e prevenir a elevação da inadimplência em empréstimos superiores a 24 meses.

Isso atingiu os lucros dos bancos, por terem de elevar capital para empréstimos de prazos mais longos e sofrer aumento nos depósitos compulsórios. Assim, abriram fogo contra o BC, que deveria ter elevado a Selic. Diante disso, logo na primeira reunião do Copom, em 19 de janeiro, retomou a velha política de elevação da Selic.

Inflação. O controle inflacionário deve ser feito de outra forma, via metas de inflação, cuja responsabilidade passa a ser do CMN, pois outros fatores de caráter não monetário influem muito mais na inflação, como choques de oferta, inflação internacional de commodities, falta de etanol, a Vale dobrar num dia o preço do minério de ferro, elevando os custos das empresas a jusante e ao IGP-M, índice que corrige os contratos de locação.

A eficácia no controle deverá se dar através de medidas macroprudenciais, que podem calibrar o crédito e o valor das prestações (o que a Selic não consegue), adequando o crescimento da oferta de empréstimos à evolução da massa salarial, para ter sob controle a inadimplência.

Outros fatores podem contribuir para o controle inflacionário: o resultado fiscal e o comércio externo.

No resultado fiscal, o governo atingiu 68% do seu objetivo neste primeiro semestre, enquanto o BC está batendo o recorde de despesas com juros, danificando as contas públicas. A Lei de Responsabilidade Fiscal pôs limites às despesas de pessoal e dívida para o setor público, mas falhou ao não limitar o impacto fiscal da política monetária.

No comércio exterior, o governo deve controlar mais a importação via impostos, preços mínimos, quantitativos máximos, como fazem os demais países para a proteção de suas empresas e/ou da população contra os preços abusivos internos.

A presidente deve pôr o mercado financeiro e o BC a favor da economia e da sociedade, limitando as taxas de juros e tarifas bancárias extorsivas e trazer a Selic ao nível internacional até meados de 2012. Se assumir esse enfrentamento, terá o apoio da sociedade e se livrará das amarras, que até agora vêm impedindo aproveitar o imenso potencial material e humano que o Brasil possui.


MESTRE EM FINANÇAS PÚBLICAS PELA FGV E CONSULTOR
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Teatro do absurdo

MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO 

Uma semana inteira de tensões, apelos dramáticos, beira do precipício e ameaças. Assim o mundo viveu os últimos dias, estupefato, diante da maior economia do planeta. Acreditar, ninguém acredita que o impasse possa ter ido tão longe. O que leva uma democracia madura como a dos Estados Unidos a um grau suicida de polarização como a que se viveu nas últimas semanas?

Em agosto, os Estados Unidos têm de pagar uma Grécia e meia aos seus credores. Não é nada para uma economia de US$ 14 trilhões, mas, como disse o presidente Barack Obama, o problema é o sistema político, que não tem estado à altura da boa nota do crédito americano. No governo brasileiro, que tem mais de US$ 200 bilhões das reservas aplicados em títulos do Tesouro americano, caminhou-se do "eles não farão isso" para o "se eles fizerem isso, os fundos de investimento não vão se desfazer dos papéis americanos". Análise ou desejo?

Independentemente do que aconteça, o cristal trincou: já se sabe que eles podem chegar à beira do abismo. Portanto, quem trabalha com risco a sério tem de considerar que a insensatez pode contaminar o ambiente político americano e exibir em Washington um teatro do absurdo.

Para entender o que houve na política e na economia dos Estados Unidos é preciso recuar de novo ao 11 de setembro de 2001. George Bush fora eleito, em 2000, num ambiente já de polarização. O processo eleitoral foi contestado pelos seus óbvios defeitos; o país exibiu ao mundo uma contagem de votos pouco confiável, e com métodos toscos, no estado governado pelo irmão do suposto vencedor. Com baixa popularidade e um discurso de guerra fria, George Bush II assumiu restaurando o fundamentalismo entre os republicanos. O 11 de setembro feriu os Estados Unidos e criou o ambiente para erros políticos e econômicos em série.

Na política, fortaleceu a islamofobia e reforçou as piores características de uma ala da sociedade americana. Diante de duas torres derrubadas em plena Manhattan e de 3.500 inocentes mortos, a direita radical achou que tivera razão desde sempre. Duas guerras foram iniciadas para achar e matar o inimigo. Os cofres foram abertos em gastos sem limites na "guerra ao terror". A crise de confiança econômica que se seguiu ao 11 de setembro poderia levar o mundo à recessão. E também para evitar isso os cofres foram abertos e os juros derrubados a zero. Bush conseguiu se reeleger. Ele não soube como sair das guerras que entrou, os juros negativos e os gastos públicos fomentaram bolhas no mercado americano e elas explodiram na crise da quebra do Lehman Brothers em 2008. Os cofres foram escancarados, de novo, desta vez para salvar o país do seu pior fantasma, a repetição da depressão nos moldes da de 1929.

Na eleição de 2008, os Estados Unidos pareciam reencontrar o eixo moderado na política. No Partido Democrata, a disputa era entre uma mulher e um negro. Do lado republicano, na frente, estava um moderado, John McCain. Para se contrapor ao fato de que lutava contra os que sempre tinham estado fora do poder - mulheres e negros -, ele escolheu uma mulher, e mais conservadora que ele, tentando unir seu partido e agradar o eleitorado. Sarah Palin era desconhecida antes e continua sem expressão hoje, mas o sentimento conservador profundo que sempre habitou uma parte do interior do país se viu refletido nela e assim nasceu o facção republicana extremada conhecida como Tea Party.

A eleição de Obama foi com votos de latinos, negros, independentes, e do trabalhismo democrata que migrou de Hillary para o vencedor das primárias. Os republicanos perderam a Presidência e a maioria nas duas Casas. Os democratas ganharam o poder executivo e legislativo de um país economicamente em destroços e atolado em duas guerras. Elas já mataram duas vezes mais americanos que o 11 de setembro.

Os empresários americanos dizem que o presidente Barack Obama não os ouve. Nas reuniões, parece nem prestar atenção no que dizem. Obama se mostra mais à vontade em discursos diretos à população ou quando está se comunicando com tecnologias de ponta. Ontem mesmo estava tuitando para que eleitores pressionassem parlamentares.

A incapacidade de Obama de restaurar o crescimento e criar emprego azedou a relação com o eleitorado na eleição de meio de mandato. Por outro lado, o Tea Party, que parecia ser um movimento exótico e lateral, ganhou força e hoje é 25% dos republicanos na Câmara. Não têm líderes expressivos, nem número, mas já fizeram um estrago na cena política. Os mais moderados dentro do Partido Republicano foram empurrados mais para a direita. Temem perder espaço nos seus Estados por estarem entre dois fogos: o radicalismo dos Tea Party e os rivais liberais do Partido Democrata. Daí surgiu o impasse, que mesmo após a aprovação na Câmara da proposta de elevar o teto da dívida, mantém o mundo em suspense.

O discurso contra o excesso de impostos sempre fez eco na alma americana, que numa rebelião anti-impostos fez sua independência. É esse sentimento que foi manipulado nesse momento de polarização. O Partido Democrata quer suspender benefícios fiscais aos muito ricos e às grandes empresas, principalmente as do setor de alto carbono. Os republicanos tratam isso como se fosse um aumento de imposto sobre o cidadão comum. Os mais moderados entre os republicanos que tentaram negociar foram chamados de traidores pela ala radical. Os democratas, sem maioria na Câmara e apertados no Senado, foram incapazes de romper o bloqueio. Assim foram os últimos e loucos dias vividos na bicentenária democracia que governa a maior economia do planeta.
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O poder pelo poder

 GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo

O momento vivido pelos EUA, um dos mais tensos de sua contemporaneidade política, é fértil em simbolismos, não apenas pela possibilidade de a maior democracia do planeta vir a dar um calote nos credores externos (coisa ainda inimaginável), mas porque põe no centro do debate a missão dos atores políticos no seio das democracias modernas. Impressiona o fato de os Partidos Republicano e Democrata, deixando de lado o papel desempenhado pelo país na textura das nações, parecerem inclinados a continuar uma luta esganiçada pelo poder e a depositar na cesta do lixo a célebre lição de John Kennedy: "Não pergunte o que a América pode fazer por você, mas o que você pode fazer pela América". Mesmo que se chegue a um acordo sobre o limite da dívida do governo federal (aumento além de US$ 14,3 trilhões), a crise aponta para o ocaso de uma era, na qual a representação política, ante a ameaça de catástrofe, esquecia divergências partidárias e se dava as mãos pela salvaguarda do bem comum. Os partidos já não acendem aquela chama de civismo que tanto maravilhou Alexis de Tocqueville, há 180 anos, quando o jovem advogado de 26 anos foi enviado pela França para estudar o sistema penitenciário estadunidense.

Descrevia ele, na obra A Democracia na América: "Os grandes partidos são instrumentos que se ligam mais a princípios que a suas consequências, às generalidades que aos casos particulares, às ideias e não aos homens". A queda de braço entre as duas estruturas que se revezam no poder e o duelo verbal entre o presidente Barack Obama e o presidente da Câmara, John Boehner, mostram que a balança dos pesos e contrapesos está quebrada. A política refunda-se sob a égide do salve-se quem puder. O altruísmo, valor tão enaltecido pela democracia norte-americana, cede lugar ao pragmatismo; o fervor social esfria, basta ver a avaliação negativa que a população confere ao presidente Obama, aos dois partidos e aos líderes. Sob essa teia de tensões, os EUA ingressam na segunda década do século 21 com a imagem de liderança no painel das democracias planetárias em franco processo de declínio. Quais as razões para tal mudança de paradigma? A principal causa aponta para a alteração da fisionomia política na sociedade pós-industrial. A política deixa de ser missão para se tornar profissão, desvio que ocorre na esteira do desvanecimento das ideologias. Ademais, o motor econômico, principalmente na moldura da globalização, passou a movimentar a máquina política, como se aduz dos atuais embates que se travam nos EUA e na Europa. Ideários e escopos doutrinários perdem substância. Tornam-se apêndices da economia. É esta que torna viável a eficácia de governos.

Dito isto, cabe indagar: como essa "nuvem de disfunção" (é assim que alguns analistas veem a crise norte-americana) afeta países como o Brasil? Ora, o fio desse rolo já chegou até nós há muito tempo. Ou o Brasil não tem nada que ver com a prática da intransigência, do impasse político e da polarização entre situação e oposição? A lupa sobre nosso modelo mostra que, por aqui, a política não dá trégua aos competidores. A gana pelo poder é tão desmesurada que os climas eleitorais se intercambiam. O panorama da eleição seguinte é divisado tão logo a paisagem anterior acomoda os eleitos em seus cargos. Não há interstício entre uma urna e outra. Quem não enxerga, por exemplo, que o teatro do pleito de 2012 já está montado? Ou que o palanque das eleições gerais de 2014 já passou a ser usado por um matreiro cabo eleitoral disposto a energizar o País? A presidente Dilma nem bem completa sete meses e uma lista de pré-candidatos já está pronta para disputar o seu lugar. Nos espaços governativos de todas as instâncias, programas e projetos, mesmo os mais abrangentes, comportam ações de cunho eleitoreiro. Políticas de longo prazo, nem pensar. O Brasil é o território do "aqui e agora", fato que motiva o megaempresário Jorge Gerdau a fazer o alerta sobre, por exemplo, nossa política cambial: "Se é só pela visão financeira, do fluxo de capital, nós poderíamos deixar como está, porque a situação é cômoda a curto prazo. Mas, numa visão estratégica de longo prazo, é preciso ter políticas de desenvolvimento industrial, ter emprego de qualidade e não depender apenas de commodities e do minério".

A ausência de estratégia de longo prazo deriva da efervescência eleitoral que impregna o ânimo dos conjuntos. Como nos EUA, por aqui não se abre espaço para a busca de consenso entre blocos de um lado e de outro a respeito de temáticas relevantes. A disputa obedece a uma lógica que Thomas Hobbes cunhou de política de golpes preventivos: A teme que B ataque e decide atacar primeiro, mas B, temendo isso, quer se antecipar, fazendo que A, pressentindo o golpe, tente reagir, e assim por diante. O ataque não abriga armas de destruição ideológica (até porque as ideologias estão no fundo do baú), mas movimentos táticos. Como se sabe, as clivagens partidárias do passado, originadas em antagonismos de classes, perdem sentido no fluxo da expansão econômica e do consequente ingresso de parcelas das margens sociais no centro da pirâmide. Todas as siglas se assemelham e seus lemas, antes ancorados em escopos de cunho ideológico, agora ganham um uníssono eco: o poder pelo poder. O vezo socializante com que certas organizações tentam selar suas identidades não se deve a uma convicção ideológica, mas às bolsas e aos pacotes destinados a colocar o pão na mesa das massas carentes.

Nem mesmo nosso sistema de coalizão partidária resiste à "política de emboscadas" que as entidades procuram engendrar para ganhar mais fatias de poder. Cada uma parece cobiçar o espaço da outra. A polis é um detalhe. As alianças, formadas ao sabor das circunstâncias eleitorais, não são firmadas sob a crença em ideários cívicos. O que há é um jogo de conveniências. O contrato de hoje pode se desfazer amanhã. A cada dia, a seiva política escorre pelo ralo.

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Escombros da educação


Ruben Berta e Roberto Maltchik
O Globo

Apesar de verba já ter sido liberada, escolas ainda não foram reconstruídas


O ano letivo de 2011 seria o primeiro de estudos para Renata, de 5 anos, filha da doméstica Mônica Sabino França. Mas, em janeiro, as enxurradas que castigaram a Região Serrana atingiram em cheio o colégio onde ela estava matriculada, no bairro Cascata do Imbuí, em Teresópolis. Mais de seis meses depois, a menina não conseguiu vaga em outra unidade e vai ficar fora da sala de aula. Enquanto isso, R$74 milhões liberados em maio pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para o governo estadual reconstruir escolas atingidas continuam intactos, por problemas burocráticos. A Empresa de Obras Públicas (Emop) garante que a partir de amanhã os recursos começarão a ser aplicados.

- Tentei conseguir uma vaga num Ciep, longe da minha casa, mas nem assim consegui. Minha filha só vai poder estudar mesmo no ano que vem - diz Mônica, que havia matriculado Renata na pré-escola do Colégio Municipal Cascata do Imbuí, destruído em janeiro.

Entre escolas estaduais e municipais, só em Friburgo e Teresópolis há pelo menos 16 interditadas. Não há números precisos de alunos prejudicados, mas só em Teresópolis a prefeitura afirma que dez escolas foram condenadas pela Defesa Civil. Devido à destruição, 2.500 estudantes tiveram que trocar de colégio na cidade.

Em Friburgo, a situação também não é animadora. A prefeitura informou que, enquanto a verba federal não chega, "reformas contratadas pela Emop e realizadas em cerca de 50 unidades foram paralisadas por falta de pagamento". Ao todo, 60 colégios foram interditados no município. Quatro permanecem nessa situação. A prefeitura diz que milhares de alunos foram afetados. Há unidades funcionando em espaços adaptados, como associações de moradores e igrejas.

Verba está na conta do estado desde maio

Enquanto alunos sofrem as consequências, os recursos caminham lentamente. A tragédia ocorreu em 12 de janeiro e só em 25 de abril uma medida provisória do governo federal abriu caminho para a liberação da verba. Em 2 de maio, uma resolução regulamentando o repasse foi publicada. De acordo com o site do FNDE, desde 11 de maio, os R$74 milhões estão na conta da Secretaria estadual de Educação, sem uso.

Os recursos boiaram desde então no mar da burocracia. A Secretaria de Educação alega que a resolução federal determinou que o órgão assumisse a responsabilidade pelas obras nas escolas. Mas os serviços estão a cargo da Emop, subordinada à Secretaria de Obras. A Secretaria de Educação diz que pediu ao FNDE que a verba fosse direto para a Emop, sem sucesso.

No último dia 22, O GLOBO entrou em contato com a secretaria para saber por que o dinheiro não foi aplicado. Foi informado de que o órgão aguardava desde o dia 13 uma resposta do FNDE, sobre uma saída alternativa de emissão de notas de obras, que sairiam em nome da secretaria, mas com um carimbo ressaltando que a Emop usou o dinheiro na Região Serrana. Na última quarta-feira, o órgão informou que a solução foi aceita pelo governo federal.

Segundo o FNDE, os entraves burocráticos ocorreram no "âmbito do governo do Estado do Rio". O órgão federal não quis comentar o prejuízo aos alunos. Ainda assim, admitiu que, entre suas responsabilidades, está monitorar a aplicação do recurso. "Não cabe ao FNDE avaliar os procedimentos de nenhum governo, seja estadual ou municipal. Cabe repassar os recursos, estabelecer as regras para seu uso, monitorar sua aplicação e, depois, analisar a prestação de contas", informou em nota.

De acordo com a Emop, dos R$74 milhões, R$23,6 milhões começarão a ser aplicados nas escolas da Região Serrana a partir de amanhã. A verba será destinada à recuperação de 18 unidades estaduais e 73 da rede escolar dos municípios atingidos. Com a liberação dos recursos, o prazo é de 90 a 120 dias para a conclusão das obras. O restante do dinheiro (cerca de R$50,3 milhões) será usado depois para reconstruir unidades da rede municipal totalmente destruídas (R$41,7 milhões) e equipá-las (R$8,5 milhões).

À espera do repasse, há casos críticos, principalmente em Friburgo. Um levantamento do deputado federal Glauber Braga (PSB-RJ) mostra que há na cidade pelo menos seis unidades em situação extremamente precária. A Escola Anna Barbosa Moreira, no bairro de Lagoinha, é um exemplo: como a reforma não foi concluída, a unidade não foi reaberta, e os alunos precisam estudar numa sala improvisada na associação de moradores local.

Em Teresópolis, na região de Campo Grande, pais dizem que o fechamento da Escola Municipal Professor João Adolfo Josetti, onde estudavam 177 alunos, está criando dificuldades para as crianças. Elas foram remanejadas, apesar de a unidade estar aparentemente precisando só de pequenas reformas.

- Não tenho condições de pagar quatro passagens de ônibus (duas de ida e duas de volta) para meu filho estudar na escola onde consegui matrícula. Ele já está com 13 faltas este ano - reclama a dona de casa Estela Maria dos Santos, mãe de Yuri, de 6, e moradora de um bairro próximo a Campo Grande.

A prefeitura informou que a Escola João Adolfo Josetti, apesar de estar aparentemente em boas condições, tem risco iminente de deslizamento no seu entorno. Sobre o Colégio Cascata do Imbuí, disse que a estrutura do prédio pertence ao estado, que terá que se incumbir da demolição. A recomendação à mãe que não conseguiu vaga para a filha é que procure a Secretaria de Educação.

A Secretaria estadual de Educação disse que atualmente tem duas unidades na Região Serrana cujos alunos foram transferidos. A Etelvina Shotz, na região de Córrego Dantas, em Friburgo, está interditada pela Defesa Civil e os 197 estudantes foram para o Ciep Glauber Rocha. Já o Colégio Galdino do Valle, no Centro de Friburgo, está com problemas estruturais e seus 847 alunos foram para o Ciep Licínio Teixeira. De acordo com o órgão, já foram gastos R$13 milhões para que as escolas voltassem a funcionar o mais rápido possível.
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A nova era na roda do chope

 JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADÃO




Tou te achando muito quietinho, ultimamente, muito caladinho… Não pode ser só o Botafogo. Todo caladinho, sem dar palpite em nada…


- Não tem nada disso, cara, tu tá querendo é me provocar, eu estou a mesma coisa de sempre. É que aqui nessa mesa só sai besteira e não é sempre que eu estou disposto a dar palpite em besteira.


- Deixa de ser cara de pau, aqui nesta mesa um dos que mais falam é você, os outros tu pode enganar, a mim tu não engana. Responde com toda a honestidade, sem subterfúgio nem meias palavras, é a presidenta, não é? Só dá pra falar bem dela e aí tu cala a boca. Eu te manjo, cara.


- Você quer dizer "a presidente". Eu me recuso a usar esse barbarismo.


- Já está no dicionário e é como ela prefere, até nisso tu tem má vontade. Mas eu não quero discutir gramática, quero discutir fatos concretos. A faxina que ela está fazendo no Ministério dos Transportes, somente isso.


- Ela demitiu uns caras, eu li.


- Demitiu uns caras? Já rodaram bem uns 20 e você diz "uns caras"? Uma faxina desse porte?


- Não sei o que é que você quer dizer com "desse porte". Nesse ritmo cata-piolho, ela não dá conta nem de uma ala do ministério antes do fim do mandato. Tinha que fazer era fumigação total e na máquina toda, ministério por ministério, repartição por repartição. O governo ia ficar bastante desfalcado, mas só fumigar é que dá jeito, catar piolho não vai levar a nada.


- É impressionante como os caras como você ficam insatisfeitos, por mais que se faça.


- Já eu acho impressionante como os caras como você ficam satisfeitos, por menos que se faça. Houve as demissões e está tudo bem, não é isso? Ela fez as demissões por quê?


- Ora, por quê. Porque todo mundo sabe que os caras estão envolvidos com os esquemas de corrupção do ministério. Aliás supostamente envolvidos, hoje a gente tem que ter cuidado com o que fala. Sim, os caras são suspeitos disso. E então? Ela foi lá e demitiu.


- Era pra condecorar? Se ela demitiu, foi porque sabia de alguma coisa. Ou de muitas coisas, senão não ia demitir. E aí eles, castigados pela demissão, vão ter que ficar mais ricos montando consultorias, triste exílio para quem trabalhou no governo. Eu tenho a impressão de que até o homem do cafezinho dos palácios vai abrir consultoria para futuros homens do cafezinho, muitos deles ganham bem mais que um professor, você sabia?


- Bem, eu não li nada sobre o assunto, mas é claro que, se houver indícios de irregularidades contra os demitidos, eles serão investigados e…


- …E, se considerados culpados, serão condenados, devolverão o que ganharam ilicitamente e assim por diante. É isso que você quer que eu comente, não é? Não era melhor a gente comentar o enredo completo da Bela Adormecida, não? Ninguém merece. O cara chega aqui no domingo, para beber um chope sossegado com os amigos e esfriar a cabeça e aparece logo um mané que quer ser enrolado novamente e não se cansa nunca de ser enrolado. Vê se te manca, cara, qual é a tua, com esses papos que são sempre a mesma coisa, embora querendo mostrar outra cara. Não mudou nada! Aliás, minto. Manda a honestidade eu reconhecer que ela demite e ele não demitia. Ele deixava estatizado mesmo, ela prefere privatizar. Bonita diferença. Fica tudo como era antes, com essa diferença de estilo, que sem dúvida marcará a história da República: um não demitia, a outra demitia; e ambos permitiam.


- Você está sendo sarcástico, assim não dá para conversar. Você é desses caras que se recusa a ver que as coisas estão melhorando. Isso não é bom, acaba se voltando contra a própria pessoa. Eu não, eu observo tudo com otimismo. Otimismo equilibrado, mas otimismo. Você não tem acompanhado esse movimento da busca da felicidade, tem? Agora tem um movimento da busca da felicidade. Já era estabelecido na Declaração da Independência americana, vai ser estabelecido entre os direitos humanos nas Nações Unidas e na nossa Constituição. De agora em diante, todo ser humano tem direito nato à busca pela felicidade.


- Vai estar na lei?


- No Brasil, provavelmente.


- Ah, então será criada a Agência Nacional da Felicidade, com delegacias em todo o território brasileiro. E aí, depois de muita discussão, se estabelece o Padrão Nacional de Felicidade, em que se tentará enquadrar todos os cidadãos, sem distinção. E fazer o teste da felicidade será como o voto atualmente: é um direito, mas também uma obrigação, todo mundo vai ter que fazer. Quem for reprovado no teste, recebe uma Bolsa Felicidade de seis meses, após o que faz novo teste. Se reprovado outra vez, será incluído no Cadastro Nacional de Brasileiros e Brasileiras Infelizes, tido como doente e obrigado a submeter-se a tratamento em clínicas públicas ou credenciadas. E, enquanto não dispuserem de seus atestados de felicidade, o brasileiro e a brasileira não poderão tirar passaporte, candidatar-se a cargo eletivo, comprar casa própria e assim por diante.


- Você sempre vê tudo dessa maneira descrente e debochada.


- É o hábito, eu moro aqui há mais de 60 anos.


- Mas não vai ser nada como você está pensando.


- Eu sei, vai ser pior. Eu também sou otimista.
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