quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Educação, diversidade e meio-ambiente

Nos últimos vinte e cinco anos intensificaram-se nos curriculos escolares do ensino básico e médio matérias de "cidadania" incluindo-se meio-ambiente, respeito a diversidade etc. Da mesma forma foram reduzidos conteúdos das matérias clássicas. Em função da pouca elasticidade do tempo sob o qual o aluno deva permanecer na escola. O ensino de terceiro grau (universidades) continua sendo o que mais investimentos recebem.

Hoje nos deparamos com o apagão mão-de-obra, nosso índice de produtividade industrial não avança, inobstante aos avanços em tecnologia. Da mesma forma, os resultados em exames de ordem e de conselhos (OAB, CFM, CFE etc) não apresentam aumento de recém-formados aprovados e as médias de aprovação continuam pífias.

Em compensação a esse lamentável cenário, continuamos a ter enchentes, deslizamentos de terra, alagamentos, dengue e demais epidemias típicas de pouca consciência com o meio-ambiente por intermédio de limpeza urbana responsável por parte dos cidadãos. Também os índices de violência urbana e agressões gratuitas não recrudescem.

O Plano Nacional de Educação irá insistir na mesma fórmula de redução de matérias clássicas.
A reflexão que lhes convido: Estamos no caminho certo? Qual seriam as soluções de melhora a partir da educação fundamental, básica e média?
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O preço da honra -


 GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo 


O roteiro é mais que conhecido. Desvenda-se a trama de tráfico de influência envolvendo quadros da administração pública em conluio com figuras dos negócios privados, indiciam-se e afastam-se implicados, abrem-se processos, os casos entram nos longos corredores da Justiça, sob o bumbo midiático e a ação de partidos interessados em tirar vantagem da celeuma. Vejam o último episódio. A investigação que flagrou Rosemary Nóvoa de Noronha, chefe do gabinete da Presidência em São Paulo, usando o cargo para intermediar interesses assume proporções impactantes por apontar suas ligações com o centro do poder (o próprio Palácio do Planalto, onde trabalha a presidente Dilma), com o ex-presidente Luiz Inácio e outras figuras de relevo, como o ex-ministro José Dirceu. Mas acabará no baú do esquecimento, pois os braços da lei, como é sabido, costumam deter e punir criminosos, porém são curtos para propiciar assepsia completa em costumes e práticas de agentes públicos. Ainda mais quando se sabe que o tráfico de influência está no topo de nossas mazelas desde os tempos em que o escriba Pero Vaz de Caminha, na carta do Descobrimento do Brasil, pedia ao rei a volta a Portugal de seu genro, degredado na África por ter roubado uma igreja e espancado o padre.

Abre-se a questão com a pergunta: por onde começar o combate às formas de corrupção com origem no tráfico de influência? A resposta sugere que se comece pelo Judiciário, pelo nexo que se forma entre corrupção e sentimento de impunidade. É generalizada a impressão de que, fossem punidos de forma rigorosa corruptos de todos os calibres, o País abriria um novo capítulo em sua História. Daí ser alvissareira a promessa do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, de continuar a devassa nos tribunais, luta em que se engajou a ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon. A limpeza nos canais e corredores do Judiciário é fundamental para a implantação de um abrangente programa de moralização nos vãos e desvãos dos Poderes, firmando a crença de que a ansiada meta de passar o País a limpo, até que enfim, será atingida. E por onde deveria começar a faxina no Poder que administra a justiça? Se o exemplo deve partir de cima, é razoável sugerir que os tribunais mais elevados devem abrir a tarefa de moralização institucional. De início, pelo menos três situações deverão ser contempladas pela nova agenda do Superior Tribunal de Justiça: a advocacia praticada por advogados parentes de magistrados, o patrocínio de empresas para encontros de juízes e a independência da magistratura.

O que deve ser levado em conta, qualquer que seja a circunstância, é a preservação da identidade desse Poder da República, que goza do mais alto conceito da sociedade. Não se trata de proibir filhos de juízes de exercer o múnus nem de censurar organizações que tentem estreitar laços com o Judiciário. Mas evitar que a equidade da Justiça seja rompida e desviada em benefício de uns e em detrimento de outros, ameaça sempre presente quando operadores do Direito alteram ou se empenham para adulterar procedimentos sagrados do império legal. O juiz independente, por sua vez, é aquele que ordena uma justa sentença, nos termos do filósofo Francis Bacon: "Deus costuma abrir o seu caminho elevando vales e abaixando montanhas; de maneira que, se aparecer, do lado de uma das partes, um braço poderoso, uma pressão violenta, astuciosas vantagens, combinações, poderes, grandes conselhos, nesse caso a virtude do juiz consiste em nivelar desigualdades para poder fundar sua sentença num terreno plano".

É difícil uma planta conservar sua pureza quando banhada por lodo. Mas, urge lembrar, flores também nascem no pântano. Uma das promessas não realizadas pela democracia, na lembrança de Bobbio, é o combate ao poder invisível, que floresce nos votos de escambo e permuta (fontes de mensalões), nas malhas intestinas da administração pública e em máfias de intermediação de negócios. Os governos, por mais democráticos, não conseguem dar plena transparência às suas ações, robustecendo, assim, o "poder mascarado" que se ramifica nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Da tríade que se forma nas modernas democracias - tecnocratas, círculos de negócios e atores políticos - se origina a maior parcela do produto nacional bruto da corrupção. Essa composição, a merecer rigorosa análise dos mecanismos de defesa da sociedade, exige sistemas ágeis para apurar denúncias e um Judiciário imune às pressões de cadeias particulares - algumas com ligações políticas - que intentam interferir em processos para obter vantagens. Castas, seitas, grupos, corporações, núcleos profissionais podem até pressionar os Poderes para fazerem valer pontos de vista - sob a égide da livre associação e liberdade de expressão -, mas a eles se impõe o dever de exercitar suas funções de maneira transparente, obedecendo a preceitos éticos e morais condizentes com os padrões civilizatórios. No caso do instrumental da Justiça, maiores cuidados devem ser tomados. Afinal, a Justiça não pertence a nenhum campo, a nenhum partido, todos são moralmente obrigados a defendê-la.

Por último, é oportuno acrescentar que os focos de corrupção que se disseminam nos porões da administração pública se relacionam a outros fenômenos perversos, dentre os quais a burocracia e a mediocracia. O primeiro se ampara num amontoado de leis e regulamentos, donde se originam veredas e desvios para as negociatas e dribles na Justiça. O segundo leva em conta a influência política para a indicação e ocupação de cargos públicos. Perfis medíocres e quadros despreparados acabam integrando os pelotões de corrupção nas três instâncias federativas. O servilismo emerge, dessa forma, na sombra do favoritismo. Sob a bandeira da injustiça e da indignidade.

É mais do que hora de resgatar o brasão dos justos, hoje alvo de escárnio: "Não há nada que pague o preço da honra".
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Evasão ou melhora do fluxo escolar?


Marcelo Côrtes Neri
Valor Econômico


A última Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (Pnad) de 2011 trouxe avanços em áreas antes estagnadas como cobertura de esgoto e analfabetismo. A principal preocupação ensejada nos debates após a sua publicação diz respeito à redução da frequência escolar da população jovem. Endereço aqui a queda da frequência escolar bruta entre os jovens de 15 a 17 anos baseado em trabalho conjunto realizado com Luis Felipe Batista de Oliveira, do Ipea.

O processo de universalização do acesso às escolas entre os alunos de 15 a 17 anos passou de 81,8% em 2004 para 83,7% em 2011, mas com um aparente retrocesso de 1,46 ponto de porcentagem a partir de 2009 quando a mesma atingia 85,2%. É cada vez maior o número de estudantes na etapa correta de ensino, cuja proporção sobe de 50,9% para 51,6% entre 2009 e 2011. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual de alunos que ainda frequentava o ensino fundamental era de 34,6% em 2004 e foi reduzido para 31,9% em 2009 e 29,4% em 2011.

Tal melhoria no fluxo é percebida nos indicadores de distorção idade-série, sobretudo no ensino médio. Houve redução no percentual de distorcidos do ensino médio, passando de 42,1% em 2004 para 32,9% em 2009 e 29,8% em 2011.

A melhora do fluxo escolar explica 80% da queda de frequência bruta entre jovens entre 15 e 17 anos

Decompor a queda da taxa de frequência bruta em seus possíveis determinantes é essencial para separarmos até que ponto a menor repetência diminui a estadia na escola. A frequência bruta entre os jovens de 15 a 17 anos caiu 1,46 ponto percentual. Porém 1,19 pode ser atribuído a pura melhoria de fluxo. Ou seja, por jovens que estão entre 15 e 17 anos com ensino médio completo, aguardando o próximo passo. Isso explica mais de 80% da queda de frequência bruta. A menor parte é explicada por aqueles que desistiram de completar seus estudos, sendo responsáveis por 0,27 ponto percentual - ou apenas 18,5% da queda da frequência nessa idade.

A Pesquisa Mensal do Emprego (PME), embora raramente seja usada para tratar de assuntos educacionais, possui características similares à Pnad para a faixa acima de 10 anos de idade. A desvantagem é a sua cobertura restrita às seis principais áreas metropolitanas brasileiras. A vantagem é a maior atualidade da informação. Ela, por exemplo, nos permitiu antecipar, já nos idos de 2009, o aumento da frequência escolar entre 15 e 17 anos observada de 2007 a 2009 que só foi constatada pela Pnad lançada em setembro de 2010. A redução da defasagem média de um ano e meio na Pnad para um mês no caso da PME é fundamental para o monitoramento de políticas públicas. No caso do episódio relatado, houve a criação do Benefício Variável Jovem aos beneficiários do Bolsa Família de 16 e 17 anos.

Similarmente, apontamos abaixo dados de frequência escolar bruta para agosto de 2012 portanto 12 meses além da última Pnad recém-lançada. A notícia preocupante é que a frequência bruta não é revertida entre agosto de 2011 e 2012, mas continua sua trajetória de queda passando de 90,22% para 90,11%.

A literatura recente tem apontado a importância do crescimento do fenômeno apelidado de "nem nem", referente ao aumento da frequência de estudantes que não estudam e não trabalham. Outra possibilidade oferecida pela PME é analisar de forma concomitante a educação regular e a profissional. Os dados mostram um avanço não desprezível na frequência desses cursos de 2,56% entre abril de 2004 para 6,88% em agosto de 2012, correspondendo a um incremento de 169% no período. O salto derradeiro foi de 2,56% para 5,96% entre abril de 2004 e 2007 (vide www.fgv.br/cps/senai e www.fgv.br/cps/proedu).

Depois de um período de estabilidade, pós 2007, há um avanço já no período mais próximo à comparação entre as duas últimas Pnads. A taxa de frequência em cursos profissionalizantes sai de 5,69% em agosto de 2009 chegando a 7,17% em 2011. Note o novo salto em curso na cobertura do ensino profissionalizante, chegando a 7,61% em agosto de 2012.

Tiramos um par de lições a partir do processamento dos dados da PME, a saber: a confirmação das trajetórias apontadas na Pnad, incluindo o incremento da evasão recente e a extrapolação dessa tendência que será apontada na próxima Pnad de 2012. Em segundo lugar, o avanço da frequência em cursos não regulares de natureza profissionalizante de 169% entre 2004 e 2012, na faixa etária de interesse, incluindo um novo salto observado, entre 2009 e 2011, e entre essa última e a próxima, referente a 2012.

Em suma, o ensino médio enfrenta uma série de percalços, entretanto nem tudo são dificuldades e retrocessos. Ressaltamos que a redução da frequência escolar bruta na faixa de 15 a 17 anos a partir de 2009 não foi observada na frequência líquida, que segue a tendência de alta. Na verdade, a melhora dos fluxos explica mais de 80% da queda de frequência bruta. O processamento dos dados da PME mostra que a trajetória de queda de frequência bruta apontada na Pnad veio para ficar pelo menos até 2012 e que ela veio acompanhada pelo crescimento de cursos profissionalizantes, o que sugere a busca de outros caminhos por aqueles elegíveis pela faixa etária ao ensino médio.

Marcelo Côrtes Neri é presidente do Ipea e professor da EPGE/FGV. Autor de "A Nova Classe Média" (Editora Saraiva), "Microcrédito: o Mistério Nordestino e o Grameen Brasileiro" (FGV) e "Cobertura Previdenciária: Diagnósticos e Propostas" (MPS). Escreve mensalmente às terças-feiras.
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Virada climática


JORGE SOTO
O GLOBO 

Mais uma Conferência das Partes (COP) da Convenção Internacional sobre mudanças climáticas se realiza. Esta é a 18ª desde a Rio-92. De lá para cá, contínuas evidências científicas já não deixam dúvida de que a temperatura global está aumentando e que as atividades humanas são a principal causa dessa tendência.

Nos os últimos 20 anos, várias iniciativas para um acordo global têm sido lançadas. Acompanhei as últimas três COPs. É um processo de negociação complexo, pois a maioria dos países vê as ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas como ameaças às suas economias. Isso porque as principais emissões decorrem da queima de combustíveis fósseis. Segundo o Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas, 56,6% das emissões globais eram consequência dessa queima em 2004. E, como mudar essa dinâmica não é simples, a maioria dos países prefere uma postura reativa.

O Brasil tem buscado assumir uma liderança proativa. Em 2009, em Copenhagen, o país ofereceu compromisso voluntário de reduzir mais de 36% das suas emissões projetadas para 2020, principalmente com a redução do desmatamento. Em 2012, em Durban, foi um dos países que buscaram um acordo para a redução mais ampla das emissões. A partir de 2020 os países emergentes se juntarão aos desenvolvidos no esforço da estabilização das emissões. Essa postura pode evoluir mais um passo. O Brasil tem características que lhe permitiriam buscar oportunidades. Temos uma matriz energética relativamente limpa (48% de fontes renováveis) e se estima que permanecerá assim pelo menos até 2019. O Brasil também tem a maior área arável do planeta, ampla insolação e disponibilidade de água. Somos o segundo maior produtor mundial de etanol e, recentemente, graças a investimentos no polietileno verde, nos tornamos o maior produtor de biopolímeros.

É possível sonhar mais alto. O país pode se tornar o maior fornecedor mundial de produtos químicos de origem renovável. Os benefícios dessa alternativa industrial são muitos. O econômico, com o aumento das exportações. O social decorreria da maior geração de empregos ao incentivar a cadeia industrial e a agrícola. Mas o grande diferencial vem do lado ambiental. O polietileno verde, em vez de emitir, captura gases de efeito estufa. A razão é simples: o carbono que acaba fazendo parte da composição da resina vem do etanol da cana de açúcar, cujo carbono vem da atmosfera.

Está em nossas mãos a possibilidade de transformar esse potencial em realidade. O lado empresarial já mostrou que é possível. Mas é necessário aumentar a escala. O governo pode fazer a diferença incentivando pesquisa e desenvolvimento dessas tecnologias e apoiando a desoneração dos investimentos verdes.

Dessa forma, o Brasil pode dar importante passo para se tornar uma potência mundial da economia verde e inclusiva e contribuir para uma "virada climática e competitiva".
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Narrativas


DENIS LERRER ROSENFIELD
O GLOBO 

Um fato é frequentemente sua narrativa, ou melhor, suas diferentes narrativas, em suas sintonias, dissonâncias e mesmo contradições. Nosso olhar do mundo é moldado por visões perpassadas por versões que suscitam adesões e posições, simpatias e antipatias, conceitos e preconceitos. Eis por que em situações de conflito a disputa pela opinião pública é de tanto valor, pois nela se tecem e articulam alianças e oposições que são da maior relevância não somente para a compreensão dos fatos, mas também para a orientação das ações.

O recente conflito de Israel com o grupo radical Hamas é muito bom exemplo de como versões atropelaram claramente os fatos, dando lugar a manifestações de simpatia ou antipatia, em que preconceitos vieram facilmente à tona. Supostas análise e reportagens que se apresentavam como "neutras" deram vazões a preconceitos bem arraigados. Alguns analistas deveriam fazer análise, psicanaliticamente falando.

O conflito foi, em certas versões, apresentado como uma agressão israelense que teria "assassinado" o comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari. Seria, nessa perspectiva, uma iniciativa israelense. Ora, o Hamas vinha bombardeando com foguetes o Estado de Israel, não dando trégua a seus cidadãos. O que era esperado? A inércia e a renúncia à autodefesa? O que faria qualquer cidadão que tivesse tiros diários contra a sua casa? Deveria simplesmente resignar-se, dormir num subterrâneo?

A ação israelense foi apresentada como um "assassinato", e não como a morte de um inimigo com mãos manchadas de sangue. Era público e notório que Jabari fora responsável por uma série de assassinatos - dos quais, aliás, jamais negou sua responsabilidade. Logo, o responsável por assassinatos foi "assassinado". Aliás, o próprio Estado de Israel postou um vídeo mostrando a explosão de seu veículo, como alvo propriamente militar.

Outro fato particularmente notório é a insistência com que se repete, continuamente, o número de mortes de civis do lado palestino. É como se esse fosse o critério dirimente para a discriminação dos "justos" e "injustos". Nesse sentido, o Hamas tem sabido manipular a mídia por meio de jornalistas coniventes.

Uma tática militar usada pelo Hamas consiste na utilização de escudos humanos, de modo que um alvo militar termine atingindo civis. As Forças Armadas de Israel não têm como alvos os civis, mas os militares, onde quer que se escondam. E eles se escondem em residências civis, em zonas altamente urbanizadas, lá armazenando armas e munições, com o objetivo de que civis sejam mortos para que apareçam midiaticamente como "vítimas". Diz-se que o quartel-general do Hamas se encontra nos subterrâneos de um hospital, o que fala por si mesmo de sua preocupação com os "civis". Por outro lado, os foguetes lançados contra Israel têm como alvo os civis, precisamente.

Na contabilidade de mortes civis, as fontes do Hamas não só omitem esses dados, como, por si sós, não têm nenhuma credibilidade. No último confronto em Gaza, a própria ONU foi conivente com a mentira. Foi noticiado com estardalhaço que as Forças Armadas israelenses haviam bombardeado sua sede local. Isso foi repetido à exaustão. Quando o desmentido foi feito pela própria ONU, um mês depois, a antipatia pela ação israelense já estava arraigada. Alguns jornais, após terem publicado manchetes sobre a "destruição da sede da ONU por forças israelenses", relegaram a páginas interiores minúsculos espaços de restabelecimento da verdade dos fatos.

Qual seria, pois, a diferença entre as fontes noticiosas israelenses e do Hamas? A credibilidade advinda de uma democracia, contrastando com um regime político de tendências teocráticas. Informações podem ser verificadas ou não. Israelenses podem manifestar-se livremente contra suas Forças Armadas, criticar, por exemplo, a condução militar contra Gaza ou discordar da inércia das autoridades de seu país, caminhando para um verdadeiro acordo com os palestinos. Nada disso é possível nos territórios controlados pelo Hamas.

Dado particularmente significativo foi a barbárie divulgada em foto por militantes do Hamas contra supostos colaboradores israelenses. Assassinados na rua, com a maior crueldade, foram depois mostrados sendo arrastados por motos, como um exemplo. Ora, exemplo de quê? De crueldade? Se fossem mesmo espiões, deveriam ser julgados, com direito à defesa.

Particularmente gritante é a simpatia pela Turquia, cujas manifestações anti-Israel são acolhidas acriticamente. Ela fala de "massacre", "limpeza étnica", etc. Trata-se de um caso particularmente patológico, exemplo de esquizofrenia profunda. Limpeza étnica fez o Estado turco contra os armênios, assassinando milhões deles, num genocídio inaugural do século 20. Até hoje a Turquia se recusa a reconhecer tal fato. Ademais, a Turquia não reconhece internamente a sua minoria curda, recusando-lhe um Estado autônomo. Os curdos não possuem Estado e são sistematicamente agredidos. Os ataques não respeitam nem as fronteiras dos países vizinhos, com incursões militares e bombardeios, no Iraque e na Síria, contras as populações curdas. E agora se arvora em representante dos palestinos. Por que não reconhece o Estado curdo? Por que não interrompe seus assassinatos, bombardeios e incursões militares?

Convém não esquecer que o Hamas, ao contrário do governo palestino da Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, não reconhece o Estado de Israel e prega sua destruição pela violência. A convivência entre israelenses e palestinos, baseada em dois Estados independentes, não se poderá concretizar senão sob a forma de reconhecimento mútuo, o que passa, evidentemente, pelo abandono dos preconceitos recíprocos de ambas as partes.

Não é denegrindo o Estado de Israel nem apregoando a sua extinção que se chegará lá. O antissionismo é uma forma recente de antissemitismo politicamente correto. Não é com ele que se alcançará a paz.
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A França se supera


GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo


A França é um país criativo. Sempre quer ser melhor do que os outros e frequentemente o consegue. Por exemplo, em termos de ridículo.

O que vem ocorrendo há alguns dias dentro do partido de direita (UMP) que colocou Sarkozy em órbita para a eleição presidencial, não tem precedente. E é também muito bizarro.

Em resumo: Sarkozy foi derrotado na última eleição presidencial e substituído pelo socialista François Hollande. À direita, a frustração foi grande. Mas veio a reação. E o partido se recompôs rapidamente.

Para começar, afirmou que os socialistas são um bando de idiotas. Mas quando isso é repetido durante meses, o público fica cansado. Então, ela implantou seu "plano B"; para a chefia do partido decidiu eleger um homem forte, incontestável, um gênio, um vencedor.

Essa eleição teve lugar no domingo passado. Havia somente dois candidatos, as duas vedetes da direita: François Fillon, que foi primeiro-ministro de Sarkozy durante cinco anos - uma personalidade do interior, melancólico, sério, democrata, sem bravatas e muito honesto.

Seu concorrente foi Jean-François Copé, ex-secretário da UMP que pretende se candidatar a presidente. Um perfil bem diferente: ele representa a direita radical. Não gosta dos muçulmanos. Brilhante, burlão, cruel, sem escrúpulos, arrogante. Uma máquina de guerra, estilo Sarkozy.

A eleição foi um desastre. Como no Zimbábue ou na Transcaucásia, manipulação das urnas, fraudes, trapaças. Copé diz que venceu no voto. Fillon diz que foi ele o vencedor. Os votos foram recontados. A "comissão de verificação" deu seu veredicto: Copé foi o vitorioso.

Então o calmo e distinto François Fillon explodiu como uma velha granada da guerra de 40. Não é possível. Todos os seus amigos se reuniram em seu apoio. Os amigos de Copé se rebelaram. O grande partido da direita francesa se decompõe. A França hesita entre o pânico e o riso.

Na manhã de terça-feira, Fillon, o mau perdedor, surgiu com um trunfo surpreendente: ele se deu conta que, na contagem dos votos, foram esquecidos três territórios franceses localizados no fim do mundo: Mayotte, no Oceano Índico, Nova Zelândia, no Pacífico, e também Wallis-et-Futuna, um arquipélago isolado com 12 mil habitantes. E se levados em conta os três esquecidos, Fillon venceria a eleição por 28 votos a mais. Fillon diz que ele venceu a eleição. Copé responde "não, fui eu".

Como explicar esse grotesco combate? Os dois homens se odeiam. Fillon diz que Copé é um "rufião". Que considera Fillon uma "nulidade". Mas há principalmente uma divisão ideológica. Copé dirige uma "direita desinibida, cínica, brutal, quase militar, tentada pela xenofobia".

Fillon lustra uma direita mais educada, que flerta com o centro, os moderados, os conservadores, o século 19, a fadiga...

E agora? O grande partido da direita vai se romper? Estamos à procura de um "sábio" para resolver. Como Alain Juppé, mas Juppé não gosta de Fillon, tampouco de Copé.

Surge então uma pergunta: por que não pedir a Nicolas Sarkozy que, quando presidente, tinha os dois homens a seu serviço, para intervir. Ele seria a pessoa certa para colocar os doidivanas no seu lugar e acalmá-los. Infelizmente, Sarkozy não quer se envolver na política, no momento.

Além disso, nesta semana ele foi interrogado durante longas horas por um juiz que suspeita que ele teria usado dinheiro da velha bilionária Liliane Bettencourt para financiar ilegalmente a campanha eleitoral que o levou à presidência da república em 2007.

A internet está zunindo. Essa mensagem por exemplo: "Sarkozy diante do juiz. Copé e Fillon pegos com a mão no vidro de geleia. E dizer que confiamos as chaves para esses três tipos..."

Os socialistas estão discretos. É verdade que, do seu lado, não estão dando um espetáculo maravilhoso. Então, quem está contente? Marine Le Pen, chefe do partido xenófobo, a Frente Nacional. Desde quinta-feira ela parece um urso marrom que encontrou o seu vidro de geleia.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Vendo o monte crescer


 FERNANDO REINACH
O Estado de S.Paulo


Um dia me disseram que a Cordilheira dos Andes se formou por causa de um choque entre duas placas tectônicas. Logo imaginei um índio sentado em algum lugar do Pantanal, observando o pôr do Sol. De repente, a terra tremeu e surgiu uma enorme cordilheira bem na sua frente.

A professora teve dificuldade em me convencer que a formação dos Andes havia sido um processo lento, que teria ocorrido ao longo de milhões de anos e não em um final de tarde. Além disso, argumentou ela, o levantamento dos Andes teria ocorrido muito antes do surgimento do homem na Terra. Com a imaginação subjugada, acabei me convencendo de que nunca veria uma montanha surgir. Imagine minha surpresa quando descobri que um grupo de cientistas acompanha, mês a mês, o crescimento de uma montanha no sul da Bolívia.

No meio dos Andes há um grande planalto. No sul desse planalto, próximo da tríplice fronteiras de Chile, Argentina e Bolívia, está o vulcão Uturuncu, inativo há 270 mil anos. A região desse vulcão está sobre uma espécie de mar de magma, o maior e o mais próximo da superfície desses mares de magma, encontrados sob muitas cordilheiras. Como todo esse magma está a uma profundidade de somente 18 quilômetros (lembre que um avião voa a 11 quilômetros do solo), essa região vem sendo monitorada por geólogos interessados em vulcões.

Nos últimos 19 anos, três satélites passam todos os meses sobre a região. Usando uma espécie de radar, os satélites medem a distância entre diferentes pontos do solo e seus sensores. Observou-se ao longo dos anos que essa distância vem diminuindo mês a mês, indicando que a montanha está crescendo. No ponto de maior velocidade de crescimento, a montanha sobe 10 milímetros por ano (1 metro por século).

Usando os dados desses satélites, pode-se sobrepor ao mapa da região o mapa de crescimento da montanha. A região que sobe é um círculo de 50 km de raio. Se você caminhar 25 km, do centro para a periferia deste circulo, você estará sobre uma área onde o solo ainda sobe a uma velocidade de 6 milímetros por ano.

O mais interessante é que em volta do pico que cresce os cientistas detectaram uma região, na forma de um anel que circunda o pico, que está afundando a uma velocidade de até 2 milímetros por ano. Ou seja, forma-se na região uma montanha que se parece com um chapéu mexicano (sombrero), onde o pico é cercado por um vale mais baixo que o planalto que circunda a região.

Bolha de magma. O que provocaria essa elevação abrupta? Cientistas creem que se formou uma espécie de bolha de magma de menor densidade, que lentamente se desloca para cima, empurrando a superfície da montanha. Essas bolhas se chamam diapir. Os cientistas acreditam que esse diapir teria o formato de um ovo de 13 km de altura e 10 km de diâmetro.

Ainda faltam 19km para essa bolha chegar à superfície. E é difícil saber se ela vai parar de se mover, esfriar e solidificar ou se transformar em um vulcão enorme. Mesmo que ela chegue à superfície, isso não vai ocorrer tão cedo - afinal, percorrer 19 quilômetros a 1 metro por século leva pelo menos 19 mil séculos ou 1,9 milhão de anos. Como o homem surgiu no planeta faz aproximadamente 1 milhão de anos e nos últimos 150 anos vem se dedicando a destruir o meio ambiente do qual depende, é pouco provável que nossa espécie ainda exista quando essa bolha de magma atingir a superfície.

Minha professora tinha razão: é impossível observarmos fenômenos tão lentos com nossos cinco sentidos durante nossa curta vida. Mas as tecnologias criadas por nosso cérebro tornaram possível medirmos esses fenômenos extremamente lentos.

O fato de atualmente aceitarmos que existem na natureza fenômenos muito lentos como o movimento dos continentes e a evolução dos seres vivos é uma das grandes contribuições da ciência para descobrirmos nosso lugar no universo. Talvez essa compreensão venha a tornar o Homo sapiens mais humilde, colaborando para nos convencer de que não somos o centro do universo, mas uma pequena anomalia transitória no grande e longo esquema da natureza.
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Medíocres distraídos


 LYA LUFT
REVISTA VEJA


Leio com tristeza sobre quanto países como Coreia do Sul e outros estimulam o ensino básico, conseguem excelência em professores e escolas, ótimas universidades, num crescimento real, aquele no qual tudo se fundamenta: a educação, a informação, a formação de cada um. Comparados a isso, parecemos treinar para ser medíocres. Como indivíduos, habitantes deste Brasil, estamos conscientes disso, e queremos — ou vivemos sem saber de quase nada? Não vale, para um povo, a desculpa do menino levado que tem a resposta pronta: "Eu não sabia"", "Não foi por querer". Pois. mesmo com a educação — isto é a informação — tão fraquinha e atrasada, temos a imprensa para nos informar. A televisão não traz só telenovelas ou programas de auditório: documentários, reportagens, notícias, nos tornam mais gente: jornais não têm só coluna policial ou fofocas sobre celebridades, mas nos deixam a par e nos integram no que se passa no mundo, no país, na cidade.

Alienação é falta grave: omissão traz burrice, futilidade é um mal. Por omissos votamos errado ou nem votamos, por desinformados não conhecemos os nossos direitos, por fúteis não queremos lucidez, não sabemos da qualidade na escola do filho, da saúde de todo mundo, da segurança em nossas ruas. O real crescimento do país e o bem da população passam ao largo de nossos interesses. Certa vez escrevi um artigo que deu título a um livro: "Pensar é transgredir". Inevitavelmente me perguntam: “Transgredir o quê?”. Transgredir a ordem da mediocridade, o deixa pra lá, o nem quero saber nem me conte, que nos dá a ilusão de sermos livres e leves como na beira do mar, pensamento flutuando, isso é que é vida. Será? Penso que não, porque todos, todos sem exceção, somos prejudicados pelo nosso próprio desinteresse.

Nosso país tem tamanhos problemas que não dá para fingir que está tudo bem, que somos os tais, que somos modelo para os bobos europeus e americanos, que aqui está tudo funcionando bem, e que até crescemos. Na realidade, estamos parados, continuamos burros, doentes, desamparados, ou muito menos burros e doentes e desamparados do que poderíamos estar. Já estivemos em situação pior ? Claro que sim. Já tivemos escravidão, a mortalidade infantil era assustadora, os pobres sem assistência, nas ruas reinava a imundície, não havia atendimento algum aos necessitados (hoje há menos do que deveria, mas existe). Então, de certa forma, muita coisa melhorou. Mas poderiamos estar melhores, só que não parecemos interessados. Queremos, aceitamos, pão e circo, a Copa, a Olimpíada, a balada, o joguinho, o desconto, o prazo maior para nossas dívidas, o não saber de nada sério: a gente não quer se incomodar. Ou pior: nós temos a sensação de que não adianta mesmo.

Mas na verdade temos medo de sair às ruas, nossas casas e edifícios têm porteiro, guarda, alarmes e medo. Nossas escolas são fraquíssimas, as universidades péssimas, e o propósito parece ser o de que isso ainda piore. Pois, em lugar de estimularmos os professores e melhorarmos imensamente a qualidade de ensino de nossas crianças, baixamos o nível das universidades, forçando por vários recursos a entrada dos mais despreparados, que naturalmente vão sofrer ao cair na realidade. Mas a esses mais sem base, porque fizeram uma escola péssima ou ruim, dizem que terão tutores no curso superior para poder se equilibrar e participar com todos. Porque nós não lhes demos condições positivas de fazer uma boa escola, para que pudessem chegar ao ensino superior pela própria capacidade, queremos band-aids ineficientes para fingir que está tudo bem.

Não se deve baixar o nível em coisa alguma, mas elevar o nível em tudo. Todos, de qualquer origem, cor, nível cultural e econômico ou ambiente familiar, têm direito à excelência que não lhes oferecemos, num dos maiores enganos da nossa história. Não precisamos viver sob o melancólico império da mediocridade que parece fácil e inocente, mas trava nossas capacidades, abafa nossa lucidez, e nos deixa tão agradavelmente distraídos.
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O grande e velho planeta


 PAUL KRUGMAN
O Estado de S.Paulo

Como os EUA pesquisarão recursos naturais se as escolas que ensinam geologia precisarem dedicar igual tempo a afirmações de que o mundo tem só 6 mil anos?


N o início desta semana, a revista QG publicou uma entrevista com o senador Marco Rubio, para muitos um possível candidato à indicação republicana nas eleições presidenciais de 2016. Uma pergunta feita a Rubio foi sobre a antiguidade do mundo. Depois de dizer "não sou um cientista", o senador assumiu um comportamento desesperadamente evasivo, para acabar declarando que "esse é um dos grandes mistérios".

É uma situação engraçada e conservadores gostariam, como nós, de esquecer o ocorrido o mais rápido possível. Ora, dizem eles, o senador estava querendo apenas satisfazer os prováveis eleitores nas primárias republicanas de 2016. Afirmação que por alguma razão seria para nos tranquilizar. Mas não devemos esquecer essa história facilmente. Ler a entrevista de Rubio é como dirigir por um cânion profundo; de repente você consegue ver claramente o que está sob a superfície. Como as camadas de rochas que nos explicam as eras geológicas, a incapacidade de Rubio para reconhecer uma evidência científica também explica a mentalidade antirracional que tomou conta do seu partido político.

A propósito, esse assunto não surgiu de repente. Como presidente da Câmara dos Deputados da Flórida, Marco Rubio prestou uma enorme ajuda aos criacionistas que querem restringir a educação científica. Numa entrevista, ele comparou o ensino da evolução às táticas de doutrinação comunistas, embora tenha acrescentado: "Não estou equiparando os evolucionistas com Fidel Castro". Puxa, obrigado! Qual é a reclamação de Rubio com relação ao ensino de ciências? Que pode destruir a fé das crianças naquilo que seus pais disseram que deviam acreditar. E aí você tem a visão moderna do Partido Republicano, não no caso da biologia, mas com relação a tudo. Se a evidência contradiz a fé, vamos suprimir a evidência.

O exemplo mais óbvio, além da questão da evolução, é o problema da mudança climática provocada pelo homem. À medida que o aquecimento do planeta se torna cada vez mais evidente e assustador, os republicanos se afundam cada vez mais na negativa, com afirmações de que tudo é uma fraude criada por uma vasta conspiração de cientistas. E essa recusa é acompanhada de medidas frenéticas para silenciar e punir qualquer pessoa que reporte fatos inconvenientes.

O mesmo fenômeno é observado em muitas outras áreas. A mais recente demonstração foi no caso das pesquisas eleitorais. Na última eleição, as pesquisas por Estado apontaram uma vitória de Obama, mas quase todo o Partido Republicano recusou-se a reconhecer essa realidade. Analistas e políticos rejeitaram furiosamente os números e atacaram pessoalmente todos aqueles que mostravam o óbvio: a demonização de Nate Silver, do The Times, em particular, foi notável.

O que representa esta rejeição? No início deste ano, Chris Mooney, jornalista que cobre matérias científicas, publicou "The Republican Brain", que não é, como você pensaria, uma ladainha partidária, mas um levantamento da hoje extensa pesquisa ligando ideias políticas a tipos de personalidade. Como ele mostrou, o moderno conservadorismo americano está muito vinculado a uma propensão autoritária - e os autoritários têm uma forte inclinação a rejeitar qualquer evidência que contradiga suas crenças. Os atuais republicanos se escondem numa realidade alternativa definida pela Fox News, por Rush Limbaugh e a página editorial do The Wall Street Journal. Somente em raras ocasiões, como na noite da eleição, encontram algum indício de que aquilo em que acreditam pode não ser verdade.

Isso não é simétrico. Os liberais, como humanos, com frequência cedem a quimeras, mas não da mesma maneira sistemática, abrangente.

Voltando à idade do mundo, é importante? Não, disse Rubio, proclamando que se trata de "uma disputa entre teólogos". E quanto aos geólogos?, eles "não tem nada a ver com o PIB ou o crescimento econômico dos Estados Unidos". Ele não pode estar mais errado.

Afinal, vivemos numa era em que a ciência tem um papel econômico crucial. Como os EUA vão pesquisar eficazmente os recursos naturais se as escolas que ensinam geologia moderna precisarem dedicar igual tempo a afirmações de que o mundo tem somente seis mil anos? Como o país vai continuar competitivo no campo da biotecnologia se as aulas de biologia evitarem qualquer matéria que possa ofender os criacionistas?

E ainda há a questão de usar a evidência para criar uma política econômica. Recente estudo do Serviço de Pesquisa do Congresso concluiu que não existe apoio empírico para o dogma segundo o qual cortar impostos dos riscos acarreta um maior crescimento econômico. Como os republicanos responderam a isso? Suprimindo o relatório. Na teoria econômica, como nas ciências exatas, os modernos conservadores não querem ouvir nada que conteste suas ideias preconcebidas. E não querem que ninguém ouça esse tipo de coisa também.

Portanto não deve-se tratar com indiferença esse momento embaraçoso de Rubio. Sua incapacidade para lidar com a evidência geológica é indicativo de um problema mais amplo - que pode, no final, colocar os EUA no caminho de um inexorável declínio. 
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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Ministério de Ciência e Tecnologia aos trancos


 ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE
FOLHA DE SP 


Um breve passeio pela história do MCT mostra que é melhor que ele seja dirigido por alguém da área, em vez de políticos gulosos com razões eleitoreiras

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) foi criado no início da administração Sarney. Aparentemente, mais por uma conveniência política do que por convicção quanto ao amadurecimento da pesquisa nacional. O ministério não estava nos planos de Tancredo Neves. Mas havia mais candidatos a ministro que ministérios...

Penitencio-me hoje por ter criticado a decisão do presidente Sarney. Quem assumiu o MCT foi Renato Archer, político hábil que percebia a importância da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento do país.

Em seguida, o MCT foi extinto por Collor de Melo. Foi criada uma secretaria. Diminui-se, assim, o "status" da ciência e da tecnologia para o país. Assumiu José Goldemberg, um profissional do ramo, com vasta experiência. "Meno male".

Após ser eleito, Fernando Henrique restabelece o MCT, mas o entrega inicialmente às mãos de uma sucessão de políticos. O MCT se torna moeda de troca, prêmio de compensação para politiqueiros ávidos de cargos e benesses.

Reeleito, FHC entrega o MCT ao seu amigo e cientista José Israel Vargas. Parecia que tudo ia bem. O percentual do PIB atribuído ao orçamento do MCT crescia espantosamente -até que se percebeu que não passava de maquiagem para conceder isenções fiscais às montadoras multinacionais do setor automobilístico. O bode expiatório foi o amigo Vargas.

Assume Bresser-Pereira, economista de reconhecida imaginação. Deixou um importante legado, tal seja o conceito e consequente legislação das organizações sociais. Infelizmente, não teve fôlego para resistir ao jogo político de Brasília. O grande legado de FHC para a ciência brasileira foi ter, em seu segundo mandato, escolhido acadêmicos para o MCT, embora não lhes desse grande suporte.

A administração Lula concede ao PSD, no tabuleiro da distribuição de ministérios, o MCT. O escolhido é um político profissional, Roberto Amaral, que, sofredor de incorrigível logorreia, choca-se com a comunidade acadêmica e é substituído por outro político, Eduardo Campos.

Esse, porém, hábil e diligente, serviu antes para abalar a tese de que políticos não são adequados para o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia. Todavia, sua saída possibilitou a ascensão de um cientista capaz e politicamente sagaz que, por pouco, deixou de consolidar o preceito de que um ministério técnico como o MCT deveria ser dirigido por um profissional do ramo.

Escolhido no início da presente administração para o MCT, Aloizio Mercadante, um político tradicional, porém com alguma experiência acadêmica, teve um inesperado sucesso, devido, possivelmente, ao seu profissionalismo e à incontestável influência na administração da presidente Dilma Rousseff.

Ao ser "promovido" para o Ministério da Educação, Mercadante foi substituído, recentemente, por um competente administrador do setor de ciência e tecnologia, Marco Antonio Raupp.

Apesar da alternância entre períodos de progressão e de regressão, parece que cresce a convicção, em Brasília e no resto do país, de que ciência e tecnologia é melhor dirigida por profissionais do setor. O Brasil já merece um Ministério de Ciência e Tecnologia que não seja mera plataforma eleiçoeira em mãos de políticos gulosos.
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