sábado, 12 de junho de 2021

O lobby da vacina quer cassar a sua cidadania

Guilherme Fiuza  12/06/2021 


Vários projetos de “passaportes de vacina” preveem diversas restrições a quem não se vacinar.|


O Senado Federal aprovou a cidadania de segunda classe no Brasil. Por unanimidade (entre os presentes – 72 votos) os senadores aprovaram o projeto do “Certificado de Imunização e Segurança Sanitária”. É uma espécie de passaporte para estabelecer áreas e atividades que só poderão ser acessadas por quem tenha sido vacinado contra Covid-19. Isto é um escândalo – e pode vir a se configurar como crime contra a saúde pública.


O projeto vai a votação na Câmara dos Deputados. Se prevalecer lá o mesmo nível de irresponsabilidade dos senadores, poderá virar lei – dependendo de sanção presidencial.


Todas as vacinas em aplicação no mundo são EXPERIMENTAIS. Níveis de eficácia e segurança alegados inicialmente decorrem de ciclos de estudos de desenvolvimento que giram em torno de seis meses de duração. Isso nunca aconteceu na história das vacinas – e não há qualquer explicação científica até o momento para tal condensação do tempo de verificação dos efeitos no ser humano, em termos do estudo necessário para aplicação segura e eficaz em larga escala. É um EXPERIMENTO.


Nenhuma das vacinas contra Covid-19 que estão no mercado tem aprovação definitiva das autoridades sanitárias. Para se ter uma ideia, a mais “conceituada” delas – aquela que já provoca até turismo vacinal – tem compromisso para confirmação efetiva de eficácia e segurança na União Europeia apenas em dezembro de 2023.


Os grupos restritos de voluntários para o desenvolvimento laboratorial de imunizantes foram “substituídos”, na etapa atual de estudos, pela totalidade da população – ou quase totalidade, mas as proposições para que se vacine até os bebês já estão aí. E agora? Teremos “voluntários obrigatórios”? Quem tiver efeitos adversos graves ainda não relatados reclama com quem? Com o Papa? Quem vai pagar por essa inconsequência?


Quem vai pagar pela morte de Thais Possati de Souza e seu bebê de 5 meses ainda em gestação? Na noite de 10 de maio de 2021, dia da morte por AVC hemorrágico de Thais (uma promotora de Justiça saudável de 36 anos), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária emitiu nota técnica vetando a aplicação da vacina tomada por Thais em gestantes. Tarde demais para Thais. Ela foi levada por essa desinformação criminosa que se disseminou inclusive por veículos tradicionais de comunicação, propagando, de forma grosseira, que era melhor tomar vacina do que correr o risco de pegar Covid. Desinformação que envolve também autoridades – tanto que a Anvisa considerou necessário emitir uma nota técnica com o veto.


Quantas outras grávidas estão desinformadas? Quantos pacientes de outros grupos populacionais podem estar sofrendo reações importantes por conta dos efeitos coagulantes que provavelmente levaram Thais e seu bebê à morte?


Você não sabe – e não saberá. Pelo simples fato de que os relatos espontâneos de efeitos adversos e casos de infecção após a vacina são historicamente muito baixos. A diferença é que dessa vez a real aferição dos imunizantes depende dos relatos espontâneos, porque o mundo resolveu compactuar com essa aventura de vacinação em massa com vacinas experimentais – abrindo mão dos anos de estudos que precederam a liberação de todos os imunizantes que a humanidade já conheceu.


Você acha que tem o direito de não ser cobaia? Pois o Senado brasileiro quer te obrigar a ser.


Exagero? Então veja: a vacina que Thais Possati tomou, vindo a falecer em seguida e motivando o veto da Anvisa, tem compromisso de confirmação de sua segurança e eficácia perante a União Europeia em março de 2024. Repetindo: MARÇO DE 2024. Entendeu por que é EXPERIMENTAL? Agora leia esse trecho do documento que Thais teve de assinar antes de se vacinar:


“Ainda não foram feitos estudos em gestantes/lactantes que assegurem seu uso, ou seja, não foi verificada evidência científica de segurança e eficácia para sua administração”.


Como você se sente ao ler isso, sabendo que Thais Possati morreu depois de duas semanas de sofrimento atroz? Se estiver se sentindo num cassino macabro ninguém poderá te culpar por isso. Por todos os lados você vê gente gritando vacina ou morte. Aí você vê vacina e morte. Tenta se esconder debaixo da mesa de apostas, mas vem uma blitzkrieg do Senado Federal te arrancar de lá para te botar em cima da mesa. Vai ter que apostar também – se não quiser sumir do mapa.


Beleza. Vamos perguntar aos doutores senadores brasileiros em seus jalecos cinzentos: como estão os estudos sobre ocorrência de miocardite em vacinados com a tecnologia do RNA mensageiro? Não sabem?! Não é possível. Para obrigar a população inteira a se vacinar, suas excelências devem saber todas as conclusões sobre o número expressivo de casos de inflamação cardíaca pós-vacina relatados ao VAERS – Vaccine Adverse Event Reporting System dos EUA. Lá eles ainda não sabem, mas em Brasília os estudos devem estar concluídos.


Não estão? Esperem aí: então isso é cassino mesmo? Cala a boca, toma vacina e se tiver problema cardiovascular agora ou no futuro deu azar? Como se diz num subdialeto da língua de Shakespeare: que porra é essa?


Foi mais ou menos o que disse – com mais classe – o astro Eric Clapton ao perder os movimentos das mãos após se vacinar contra Covid. Você pode imaginar como se sentiu um dos maiores guitarristas da história ao sentir seus dedos ardendo, depois dormentes, depois imóveis – levando-o ao desespero por duas semanas até começar a recuperar parcialmente os movimentos. “Fui um rebelde a minha vida inteira contra tiranias e é isso o que temos agora”, desabafou Eric após a reação “desastrosa” (palavra dele) à vacina, referindo-se ao que virou essa suposta política de saúde na Inglaterra e no mundo.


Você ouviu a denúncia de Eric Clapton? Possivelmente não. Esse tipo de informação, nos dias de hoje, some. Entendeu por que o genial Eric fala em tirania? Entendeu o que está se passando no Brasil com a ação diligente fantasiada de empatia dos vassalos do lobby?


Você já notou que não estamos citando aqui os nomes das vacinas. Naturalmente, não é para não desagradar os vassalos do lobby. É só para ficar claro que não existe AQUELA cuja segurança e eficácia estão consolidadas. Vamos repetir: TODAS são EXPERIMENTAIS. No Brasil está sendo aplicada tanto aquela que a União Europeia e os EUA não deixam entrar, quanto aquela que Thais Possati e Eric Clapton tomaram, quanto aquela que chegou depois, “de primeiro mundo”, à qual estão associados os relatos de miocardite ainda em avaliação.


Essa vacina traz a tecnologia inovadora do RNA mensageiro – que ensejou controvérsias nos meios médicos sobre a falta de estudos por tempo suficiente em humanos. Prêmio Nobel de Medicina, o virologista francês Luc Montagnier declarou sua preocupação com a vacinação em massa durante uma pandemia, especialmente pelo potencial de efeitos adversos desconhecidos dessa técnica a longo prazo. No curtíssimo prazo, está sendo avaliada a presença de nanopartículas lipídicas, provenientes da introdução do mRNA, disseminada pelos órgãos vitais de vacinados – mas não há conclusões sobre isso.


Como se vê, há muitas dúvidas sobre as vacinas – e estamos aqui exercendo a responsabilidade de aponta-las. Menos no Senado brasileiro – que aparentemente resolveu mimetizar iniciativas fascistoides do mesmo tipo em outros países.


A ocorrência de miocardite é encontrada entre jovens vacinados numa proporção e com grau de nocividade que o CDC – o centro de controle de doenças dos EUA – ainda terá que dimensionar. Que tipo de efeitos adversos no sistema cardiovascular em cada faixa etária as vacinas contra covid poderão acarretar? Só o tempo e os estudos dirão. Mas o folclórico Dr. Fauci – cujos e-mails divulgados transbordam contradições inclusive quanto à eficácia das vacinas – usa seu cargo de assessor de saúde da Casa Branca para advogar a vacinação de crianças.


Onde está a ciência nesse tipo de proposição? Pode procurar à vontade que não vai achar. Com quase um ano e meio de pandemia não há um único estudo indicando que a ocorrência de Covid-19 em crianças – tanto em número de casos, quanto em gravidade e em potencial transmissor – indique a necessidade de vacinação dessa faixa etária. Você não acha que isso se parece um pouco com a premissa obscura da criação de uma cidadania de vacinados, aprovada pelos senadores brasileiros?


Com a quantidade de dúvidas contidas nessas substâncias EXPERIMENTAIS, esse passaporte carnavalesco fantasiado de segurança sanitária não criará cidadania alguma – ao contrário, cassará a cidadania dos indivíduos livres e saudáveis. A não ser que você se levante daí e lute pela sua dignidade.


Vacinas incipientes são a porta de saída segura da pandemia? Estranho. Então o que está acontecendo no Chile? Era um dos países com melhores resultados no enfrentamento do novo coronavírus. Começou a vacinar em massa e hoje é o mais vacinado do continente, com cerca de 45% da população tendo recebido as duas doses – e está fechando tudo por conta da explosão de casos de Covid-19.


O que aconteceu na Índia? País com elevada taxa de população vacinada – sendo inclusive produtor de vacina – mergulhou no seu pior momento em toda a pandemia no auge da vacinação. A taxa média de óbitos em maio de 2021 na Índia chegou a ser três vezes superior à do pico da primeira onda. Por que o mesmo fenômeno aconteceu no Uruguai, um dos países com maior percentual de população vacinada na América do Sul? Aliás, por que os primeiros seis meses de vacinação no mundo coincidem com um agravamento dramático e generalizado da pandemia?


Ninguém sabe ao certo. Mas quem pode afirmar, no contexto acima descrito, que vacinas são a salvação certeira contra a pandemia – a ponto de se criar OBRIGATORIEDADE de vacinação (fantasiada de “passaporte”, “certificado” e outras espertezas do lobby)?


Vamos repetir: estamos diante de um ESCÂNDALO ÉTICO.


A autoridade sanitária brasileira, aquela que emitiu a nota tardia sobre o perigo LETAL da vacina que Thais Possati tomou, é considerada pelos vassalos do lobby como um entrave. Ameaças vieram de todos os lados – inclusive do Congresso e do STF – arbitrando prazos exíguos para a Anvisa liberar vacinas, sob pena da decretação de “autorização tácita”, isto é, da revogação da autoridade sanitária. Isso é muito grave – e não foi papo de “esquerda” ou “direita”. Veio de todos os lados, inclusive de um líder do governo na Câmara, que disparou publicamente contra a agência em linguajar de campo de várzea – “estão pensando que a gente é trouxa” e coisas assim.


O nome desse vassalo do lobby não está sendo citado aqui só para não emporcalhar o texto – mas se for o caso poderemos citá-lo tranquilamente, assim como ao senador que elaborou o projeto mais absurdo de atropelo da autoridade sanitária (esse tem linguajar bem educado), o ministro do STF que tentou constranger a Anvisa de forma mais acintosa e por aí vai. De todo modo, são facilmente reconhecíveis – assim como são os nomes dos 72 senadores que perpetraram esse atentado à sua saúde abrindo caminho legal para que te obriguem, na prática, a inocular no seu corpo uma substância cujas ações e consequências completas só serão conhecidas daqui a vários anos.



Mesmo sendo considerada um entrave pelos abutres da Covid S.A. a Anvisa sentiu a pressão e tomou decisões no mínimo controversas. As vacinas aprovadas em caráter emergencial no Brasil foram liberadas com estudos faltantes, como consta do laudo de liberação – onde se lê que para grupos de idosos os estudos não foram suficientes para comprovar a eficácia, nem mesmo a segurança dessas vacinas. Considerando-se que idosos são o grupo populacional mais vulnerável à Covid-19, constata-se a liberação emergencial de vacinas impróprias para a maioria dos que estão em situação de emergência. Paradoxal? Pois saiba que isso sequer foi objeto de contestação. Saíram vacinando e fim de papo.


Mas o papo não acabou – embora o lobby queira que ele acabe, perseguindo os que querem discutir o assunto fora do cassino. E a continuação desse papo leva a mais uma pergunta bem simples: quantas pessoas você conhece que atravessaram bem um ano de pandemia e adoeceram ou faleceram depois de se vacinar? Todos conhecemos muitas. O que furou na suposta proteção imunizante? Qual a probabilidade infecciosa dos vírus supostamente inativados? Qual o inventário das reações adversas? A propensão à geração de coágulos e trombose afetou quantos vacinados e com que gravidade? Essas estatísticas estão sendo apresentadas a você?


Claro que não. Elas nem existem. Só poderiam ser feitas com o rigor necessário dentro de grupos controlados no processo de desenvolvimento das vacinas pelos laboratórios, conforme ocorreu com TODOS os imunizantes produzidos até hoje. Mas dessa vez a ciência ganhou uma licença poética – e vacina virou questão de fé. “Levo fé na Sputnik”, “não levo fé na Sputnik”, etc. Contando ninguém acredita.


A aplicação em massa de vacinas incipientes no transcorrer de uma pandemia pode favorecer o surgimento de variantes mais infecciosas? O efeito do “escape imunológico”, conforme alerta de virologistas experientes, pode estar acontecendo? Não sabemos. O que sabemos é que a vacinação em massa coincidiu com o surgimento de variantes mais infecciosas. Onde está a refutação científica da hipótese de que isso estaria sendo provocado pela própria vacinação?


Você não viu refutação científica alguma. Esse negócio de ciência já era. O que você vê são manchetes com “especialistas” dizendo que está tudo bem, porque “vacinas aumentam a imunidade”. Dizer que vacinas aumentam imunidade é tão cientificamente certeiro como dizer que senadores defendem o povo.

Vamos ver agora os deputados. E depois o presidente da República. Quem assinar embaixo desse “Certificado de Imunização” que não certifica nada e amarra o cidadão numa coleira tão lucrativa quanto hedionda, está emitindo o seu próprio atestado: ou é um irresponsável, ou é um vendido. Pelo menos você fica sabendo quem é quem nessa guerra dissimulada, cheia de chupa-sangues dizendo querer o seu bem.


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sexta-feira, 11 de junho de 2021

A REAÇÃO DO VESPEIRO

                                  Percival Puggina  

Meus leitores, habituados a dedicar alguns minutos de seu tempo a estas ponderações, sabem que ideologias totalitárias e revolucionárias não se coadunam com o cristianismo cultural e, menos ainda, com o cristianismo em sua essência religiosa. Alguns filósofos do século XIX viram a fé religiosa como um lenitivo às amarguras da existência, enquanto outros, revolucionários, levaram essa ideia para o lado oposto. Passaram a ensinar que “a religião é o ópio do povo” e que a revolução exigia a derrubada de todo poder, fosse religioso, coroado, eleito ou financeiro.


A partir daí, a filosofia da destruição, lançou as bases de uma empreitada que se foi consolidando e já na segunda metade do século XX, esse trabalho alcançava êxitos infiltrando-se nos setores sociais (órgãos de imprensa, sindicatos, Igrejas, educação, cultura). De modo simultâneo com o desastre político e econômico dos totalitarismos, multiplicavam os sucessos da estratégia montada para derrubar os pilares da civilização ocidental. Seu objetivo permanente: reduzir a importância da família e do cristianismo na transmissão dos valores através das gerações. Mas vão além: da culinária ao clima, nada lhe escapa. Seus agentes são missionários de uma religião laica.


O desmanche do império soviético acabou sendo bom para os comunistas. Sumiu das vistas o mau exemplo que proporcionava e o Ocidente sentiu-se livre de suas até então piores ameaças. Até no extremo oriente, os países que ocidentalizaram suas economias e instituições, prosperaram, enquanto a mentalidade revolucionária ressurgia como pandemia, numa segunda onda, atacando as bases da civilização ocidental.


Aqueles que pressentiram o problema, entre os quais peço licença para me incluir, reconheceram a importância da vitória do exótico Trump em 2016 e viram com tristeza a roda do poder virar para a esquerda nas eleições de 2020. É nos EUA que mais fortemente se trava o combate pela preservação dos valores do Ocidente.


Em 2018, o Brasil assistiu o produto de um despertar. Veio tarde, mas não tarde demais. Nos dois ou três anos anteriores, a sociedade brasileira acordou para o despenhadeiro moral, social, político e econômico a que estava sendo conduzida. Entendeu o jogo de cena em que foi levada a optar entre dois partidos de esquerda, PT e PSDB. Um quarto de século entregue ao absoluto desleixo político de conservadores e liberais!


Nunca, na história de nossa república, um governante suscitou tão orquestrado clamor interno e externo como Bolsonaro. Se é verdade que a alguns desses clamores ele mesmo dá causa, também é verdade que as reações não guardam proporção com os fatos. O que todos vemos tem como único motivo ser, o Brasil, o grande baluarte em que um candidato com pauta não “progressista”, não revolucionária, fez 57 milhões de votos e derrotou a esquerda. Isso não é aceitável.


Eis o motivo pelo qual nosso país e seu governo estão sob ataque desse barulhento vespeiro que se sente ameaçado em suas posições. Ouça-o e verá que nada lhe é mais execrável, ninguém merece mais ser ferroado, do que o inimigo que tinham por destruído. Seja quem for, fosse quem fosse, sentado naquela cadeira que a esquerda tinha por propriedade sua, estaria sujeito aos ataques do mesmo vespeiro.


Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.


Em Nárnia há Estado de Direito, talvez, mas no Brasil?

Rodrigo Constantino   11/06/2021 10:38   


Às vezes fico com a nítida sensação de que estamos todos falando de dois países distintos, apesar do mesmo nome. Quando leio certas reportagens ou editoriais nos jornais brasileiros, fico na dúvida se estão se referindo ao Brasil que conheço e acompanho de perto. Pois se for o mesmo país, há algo muito esquisito na forma como cada um observa, filtra e apreende os fatos.

Vejamos o editorial do Estadão de hoje. Uma peça contra Bolsonaro, claro. Mais uma. Até aí, tudo bem. O jornal tem feito escancarada oposição ao atual governo. Mas daí a fazer alertas sobre um suposto risco de "desobediência civil" sem uma só contextualização sobre os arbítrios do Poder Judiciário vai uma longa distância. Diz o editorial:

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, disse que “vai chegar uma hora” em que as decisões judiciais não serão cumpridas pelo Executivo. [...] A declaração do deputado Ricardo Barros, como a do próprio Bolsonaro antes dele, constitui ameaça explícita de desobediência civil. É um padrão bolsonarista. Esse desafio à ordem constitucional, de clara natureza golpista, é parte do processo de deterioração da democracia deflagrado por Bolsonaro desde sua posse. Ao avisarem que não pretendem acatar ordens judiciais, a não ser as que considerem “fundamentadas”, os bolsonaristas expõem com clareza sua estratégia de desmoralizar as instituições da República para submetê-las a seus propósitos liberticidas.


O editorial parece escrito em Nárnia, na Suíça, em outro país qualquer que não o Brasil, onde o Poder Judiciário tem sido o primeiro a desmoralizar as instituições da República ao promover um ativismo abjeto e rasgar a Constituição com enorme frequência. Comparem com a análise precisa do experiente jornalista J.R. Guzzo, em coluna na Gazeta do Povo, que abre colocando logo os pingos nos is:


O Supremo Tribunal Federal, quando se deixa de lado os não-me-toques usados para “proteger as instituições”, e se fala em português claro, funciona cada vez mais abertamente como o principal protetor do crime no Brasil — e tem cada vez menos interesse em disfarçar o que está fazendo. O ministro Edson Fachin proibiu os voos de helicóptero da polícia sobre as favelas do Rio de Janeiro; o único direito que ficou garantido, no caso, foi o dos criminosos, que agora estão protegidos de ações policiais capazes de revelar suas posições no território que ocupam.


O ministro Marco Aurélio soltou um dos maiores traficantes de droga do país; o homem fugiu no ato, e nunca mais foi encontrado. O ministro Gilmar Mendes não pode ver um ladrão do erário sem sacar do bolso um alvará de soltura. Agora é a vez da ministra Rosa Weber, que deu ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), um dos políticos brasileiros mais enrolados com suspeitas de corrupção no uso de verbas públicas no combate à Covid-19, o privilégio de não ser interrogado nesse picadeiro de circo que “investiga” a pandemia no Brasil.


Qualquer pessoa minimamente séria e atenta já percebeu que é a atual composição do nosso STF que mais ameaça nossos pilares republicanos, sempre frágeis. Vale o arbítrio, o voluntarismo, o casuísmo. Mas quem só pensa em derrubar Bolsonaro passa pano até para essa suprema ameaça, enquanto tenta levar a sério uma CPI circense com a relatoria de Renan Calheiros. Para atingir Bolsonaro, vale tudo, pelo visto. Nossa imprensa em geral é cúmplice desse establishment podre.


É como lembrou Leandro Ruschel: Enquanto a extrema-imprensa denuncia o 'golpe' que Bolsonaro estaria preparando, os presidentes dos maiores partidos brasileiros se reuniam em conferência com membros do Partido Comunista Chinês sobre 'governança', aprendendo um 'novo modelo de democracia'". Ruschel acrescentou: "Se em público eles já fazem conferência desse tipo, imagina o que não está rolando nos bastidores".


Eis o que está cristalino para a parte do povo que enxerga com mais clareza os fatos, por não sofrer de patologia antibolsonarista ou de abstinência de roubalheira petista: o "sistema" quer expelir Bolsonaro custe o que custar. E por isso criam uma narrativa de ameaça fascista fantasma vindo do atual governo, enquanto resgatam monstros do pântano como Renan Calheiros e mesmo Lula.


Guzzo conclui: "É óbvio que o STF está agindo e vai agir como aliado vital dessa gente. Faz todo o sentido que seja assim. Sua missão, seu objetivo e seus interesses são os mesmos — governar o país sem a necessidade de ganhar eleições . Vão fazer qualquer coisa para continuar assim".

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Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

A frase racista de Alberto Fernández e as identidades nacionais na América

Filipe Figueiredo   10/06/2021               


Os Estados americanos sempre tiveram uma contradição no seio de suas formações, que foi por séculos ignorada ou varrida para debaixo do tapete. Como esses novos Estados deveriam lidar com as identidades dos povos nativos do continente, que aqui estavam antes dos europeus? Ignorar? Assimilar? Se associar? Exterminar? O último mês rendeu três episódios internacionais que permitem trazer essa reflexão, olhar alguns problemas e até mesmo pensar em paralelos com o Brasil.


Primeiro, em meados de maio, tivemos as eleições para a constituinte chilena. Politicamente, abordamos o pleito na coluna O início do fim do Chile de Pinochet. Refrescando a memória, a constituinte chilena reservou 17 dos 155 assentos para os povos originários, sendo sete para os mapuche, dois para os aimará e um para cada um de outros oito povos. A representatividade e autonomia indígena eram pleitos antigos no Chile, e a bandeira mapuche era presença constante nos protestos dos últimos anos.


De certo modo, isso também dialoga com o título daquela coluna, do “fim do Chile de Pinochet”. No Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, que preserva o histórico de abusos e violências cometidas no país andino, está estampada uma famosa frase do ex-ditador: “Hoje já não existem mapuches, pois somos todos chilenos”. Esse raciocínio exemplifica algo muito presente na formação dos Estados nacionais americanos e seu próprio senso de nacionalidade e de pertencimento.


Chile, Brasil, Argentina e México são todos Estados relativamente recentes, com cerca de duzentos anos de idade. Quando de sua criação eram compostos, basicamente, de uma elite branca descendente da administração metropolitana, de uma pequena classe média urbana, habitualmente mestiça, e massas de trabalhadores pobres, sejam indígenas livres ou africanos escravizados e seus descendentes. Diferenças culturais e linguísticas não eram incomuns dentro de um mesmo país.


Esses novos países também eram, via de regra, pouco populosos, apresentando oportunidades para imigração e investimento. Havia também o racismo, que incentivava a imigração de brancos europeus “superiores” para “embranquecer” a população, “diluir” o legado indígena e africano, “selvagens”. No Brasil, talvez a ilustração mais conhecida desse pensamento seja a pintura A Redenção de Cam, do artista espanhol Modesto Brocos, da virada do século XIX para o XX.


Identidades nacionais

Claro que tudo isso é um resumo extremamente objetivo e grosseiro de um processo histórico que dura duzentos anos. O fato é que os países americanos vão construir suas identidades nacionais precisando lidar com a mistura de diferentes culturas e de diferentes povos. Isso acarreta em duas coisas. Primeiro, o estabelecimento da doutrina legal do jus soli, direito do solo. Ou seja, você é um nacional daquele país por ter nascido nele ou por tê-lo adotado para viver.


Essa doutrina vale para os EUA, para o Brasil, para a Argentina e para quase todos os países americanos. “Venham a mim as massas exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade. Eu os guio com minha tocha.”. É isso que está gravado no memorial da Estátua da Liberdade e é isso que essa doutrina legal busca expressar: a aceitação de imigrantes e de colonos, que serão cidadãos e terão filhos com todos os direitos.


O leitor provavelmente já ouviu falar que o passaporte brasileiro é um dos mais cobiçados do mercado clandestino. O motivo é que não existe “cara de brasileiro”, então qualquer pessoa pode se passar por um nacional do Brasil sem levantar suspeitas. Daiane dos Santos, Hugo Hoyama, Kaká, Robert Scheidt, Tony Kanaan, Isaquias Queiroz, todos eles são esportistas brasileiros de destaque, que o leitor consegue visualizar o rosto facilmente. E todos são diferentes, com origens distintas. E todos brasileiros.



Ou seja, os países americanos são caldeirões culturais e étnicos. Alguns mais do que outros, mas ainda assim. Chega-se na outra consequência. Como transformar esses grupos distintos em uma nação, baseando-se apenas no solo? Seria impossível ter um Estado coeso, ainda mais nos moldes do século XIX, se cada grupo falasse seu próprio idioma e tivesse seus próprios símbolos. São adotadas políticas de homogeneização da população, de criação de nacionalidades. No que é uma lição importantíssima.


Inversão da origem do Estado

Nas Américas, o Estado cria a Nação. O mesmo ocorre na maior parte da África e da Ásia, invertendo o processo europeu que criou o Estado-nacional moderno. A nação alemã foi agrupada num Estado unificado. Na América do Norte, os Estados Unidos foram criados antes de uma identidade nacional, pouco a pouco formada, com a criação de seus símbolos, de seus ritos, o estabelecimento de seu panteão de mártires e a invenção de suas tradições. O mesmo ocorre em todos os outros países americanos.


No Brasil, inclusive, esse processo ocorre duas vezes. Uma após a independência, durante o século XIX, e outra após a república, com uma reinvenção do Brasil, algo que é magistralmente analisado na obra Formação das Almas. No âmbito da população e da demografia, no Brasil a criação da nacionalidade passa pelo Mito das Três Raças, construído por Francisco Adolfo de Varnhagen. O Brasil seria resultado da mistura e da cooperação de africanos negros, de indígenas e de europeus brancos.


Cada uma dessas raças, em sua visão, teria suas virtudes e vícios. O leitor deve-se lembrar da frase do então candidato a vice-presidente Hamilton Mourão, sobre brancos quererem privilégios, indígenas serem insolentes e negros malandros. É a reprodução, em 2018, das teses de Varnhagen, lá da década de 1850. Esse mito fundador foi tão enraizado e tão forte que, por pouco, a bandeira brasileira republicana não foi tricolor, branco, preto e vermelho. Um dos desenhos então cogitados é o que hoje serve de bandeira estadual de São Paulo.


Esse processo de homogeneização também passa pelo atropelo de tradições e heranças culturais dos povos integrantes dos novos Estados, em ao menos algum grau. No Brasil getulista, por exemplo, idiomas que não o português foram proibidos. Era comum que famílias de imigrantes italianos, alemães ou japoneses usassem o idioma materno, por exemplo. O ensino com idioma oficial é uma ferramenta de criação de nacionalidade. O serviço militar universal também foi muito utilizado para isso no século XIX.



Temos então uma série de novos Estados nacionais que são, via de regra, multinacionais, recebendo fluxos constantes de imigrantes. Esses novos Estados vão adotar políticas para homogeneizar sua população. “Serem todos chilenos”, na expressão de Pinochet. Parece tudo muito fácil, tudo muito simples, mas existem diversos buracos nessa trama. Primeiro, ao contrário do que a imagem de nações de imigrantes pode transparecer, existiam dois grupos populacionais na América que não se encaixavam nesse critério.


Problemas

Os indígenas, que aqui já estavam, e os africanos, que não imigraram, foram trazidos à força. Ao mesmo tempo que suas identidades ancestrais eram apagadas, eles não eram inseridos nas novas identidades nacionais. Um homem iorubá de nome Kofo Fajuyi era reduzido ao status de propriedade, um homem negro, lhe tiravam o nome e davam outro estrangeiro, como João, mais o sobrenome da família que era dona de sua vida. Um exemplo fictício, mas que se repetiu milhões de vezes.


Outro buraco na trama é o fato de que os novos Estados repetiram as identidades dos colonizadores. Adotaram um idioma ibérico ou o inglês, uma religião cristã e a visão de que eram países também europeus e brancos. Em alguns casos, não foram “minorias” que ficaram excluídas, mas a maioria das pessoas. Quando da independência brasileira ou da independência mexicana, os brancos falantes de idiomas ibéricos eram, numericamente, minorias em seus países, não representavam toda a população.


O que leva ao próximo problema, o racismo escancarado. O indígena era um selvagem que, quando muito, deveria ser tutelado. Certeza absoluta de que o leitor conhece ao menos um caso de alguém que teve uma antepassada indígena “pega no laço” ou outro eufemismo para literalmente raptada de sua comunidade. O negro era visto como inferior e serviria apenas para trabalhos manuais. As nações de imigrantes o são desde que os tais imigrantes sejam brancos europeus.


De preferência, europeus que não fossem do Mediterrâneo. Mesmo italianos e espanhóis eram “europeus de segunda classe”. Finalmente, não existe botão de reset na História. As independências não “zeraram” as relações que já existiam com indígenas, habitualmente violentas. O atual Chile era uma capitania-geral na América espanhola por ser uma zona militar, dados os conflitos com os mapuche, e a Argentina empreendeu a genocida “conquista do deserto” contra seus indígenas.



Nos EUA, então, nem se precisa falar muito, já que o leitor certamente sabe que a violência entre fazendeiros brancos e nativos é parte essencial de todo um gênero cultural, o faroeste, incluindo também políticas genocidas. O general Philip Sheridan cunhou a famosa frase que “indígena bom é indígena morto”. Ao contrário do que ele desejaria, entretanto, os indígenas resistiram e não foram exterminados. Também resistiram as populações negras e seus descendentes por todo o continente americano.


Democracia e formação nacional

Novamente, pede-se compreensão pelo resumo grosseiro de duzentos anos de História, mas chega-se ao século XXI, quando genocídios, ao menos em teoria, não são mais aceitos. Quando os Estados americanos se pretendem democráticos e inclusivos. E quando os buracos nessa trama das identidades nacionais americanas ficam cada vez mais escancarados. Citamos o caso do Chile e de sua constituinte, em que os indígenas terão voz para seus interesses e serão representados na nova lei fundamental.


No final de maio, no Canadá, foi descoberta uma vala comum com os restos mortais de 215 crianças indígenas, na antiga escola residencial para indígenas Kamloops, na Columbia Britânica. O anúncio foi feito por lideranças indígenas e o primeiro-ministro Justin Trudeau declarou ser uma "dolorosa lembrança" de um "capítulo vergonhoso da história de nosso país". O tal capítulo foi a política de assimilação forçada da população indígena, que incluiu o internato compulsório de crianças em escolas como essa, que fechou em 1978.


Entre 1863 a 1998, mais de 150 mil crianças indígenas foram tiradas de suas famílias e internadas em escolas desse tipo. O leitor viu direito, 1998, praticamente ontem. As crianças não podiam usar seu idioma materno, praticar sua cultura, eram vítimas de maus tratos e até dez mil morreram sob custódia do Estado. Muitas enterradas dessa maneira, em valas comuns, sem identidade, sem família. Os restos mortais datam de entre 1919 e 1964, meio século de submissão a uma nova identidade nacional.


O resultado é a por vezes chamada de Geração Perdida: canadenses de origem indígena que não conseguiram se adaptar à sociedade “canadense” enquanto perderam os laços com suas comunidades originais. Proporcionalmente, representam mais casos de suicídio, de desemprego e de alcoolismo. Já na Argentina, o presidente Alberto Fernández, ao se declarar um europeísta, justificou com “os mexicanos vieram dos indígenas; os brasileiros, da selva; os argentinos, chegamos nos barcos, e eram barcos que vinham da Europa”.



Ele queria citar o escritor mexicano Octavio Paz, Nobel de literatura em 1990, que escreveu “os mexicanos são descendentes de astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”. Para piorar, errou e citou uma banda argentina que faz paródia dessa frase. Confrontado com a barbaridade racista, o pedido de desculpas só piorou, com o mandatário argentino mandando o tosco "aos que se ofenderam". Algo muito comum dentre brasileiros, inclusive, um “pedido de desculpas” que imputa o problema na pessoa atingida.


A frase de Fernández não é simplista e preconceituosa apenas com mexicanos e com brasileiros, ela é também preconceituosa com boa parte dos argentinos. É reflexo do mito nacional da fundação argentina, que é um país europeu na América, formado por ibéricos e italianos, enquanto chilenos e paraguaios são indígenas e os brasileiros são “macaquitos”, referência racista ao grande número de negros e miscigenados na sociedade brasileira. Um mito fundamental deve ser olhado com viés da História, mas, ainda assim, é mito.


Perguntas sem resposta fácil

Um dos principais cabos eleitorais de Fernández foi Diego Maradona, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos e o maior da Argentina. Diego era filho de uma italiana com um guarani. Suas feições indígenas são óbvias, mais ainda em suas fotos de infância e juventude, antes de procedimentos estéticos. O argentino mais conhecido do mundo é um indígena. Seu genro Sergio Agüero é outro atleta de renome e ascendência indígena. Ainda assim, Fernández resumiu sua população aos que “chegaram nos barcos”.


Dos quarenta milhões de argentinos, cerca de 15% são miscigenados, indígenas ou negros. Contada toda a população, metade possui ancestrais indígenas no mínimo até o terceiro grau, os bisavós. No Chile, os mapuche representam 9% de toda a população, outros 4% são indígenas, cerca de 5% são do Oriente Médio e um terço são de mestiços. O Canadá, um dos países mais diversos do mundo, possui 5% de indígenas em sua população total. No México, citado por Fernández, metade da população é indígena ou mestiça.


A pressão por representantes indígenas na constituinte no Chile, o trauma da descoberta das ossadas no Canadá e a declaração de Fernández terminam por ser, em curto período de tempo, um lembrete do fato de que os países americanos precisam adaptar suas identidades nacionais e sua representatividade política para incorporar populações que foram historicamente exploradas e negligenciadas nesse mesmo processo. Democracia não pode ser uma “ditadura da maioria”, é para que todos tenham representatividade.



E essa é uma discussão que também está presente no Brasil. Observar nossos vizinhos também serve para refletirmos sobre nós mesmos. As visões de um Chile ou uma Argentina europeus, brancos e católicos, homogêneos, são ficções criadas no século XIX. Além de obsoletas, não são verdadeiras. Essa é uma crise de identidade que prende e puxa os países americanos para trás, especialmente os países latino-americanos. E, infelizmente, não há resposta fácil.


Na verdade, o leitor provavelmente encerra a leitura desse texto com mais dúvidas do que respostas. O Canadá, por exemplo, tem tomado medidas nas últimas décadas para compensar e indenizar comunidades indígenas, além de ferramentas de representatividade e diálogo político. O que pode ser feito, o que deveria ser feito, são questões de debate. O que pode-se colocar como consenso é que é inaceitável que, no século XXI, milhões de pessoas sejam tratadas como párias dentro de seus próprios países.


Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, professor de política internacional, roteirista do canal Nerdologia e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


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Habeas corpus do STF a governador investigado é um crime contra o país

J.R. Guzzo      10/06/2021   


O Supremo Tribunal Federal, quando se deixa de lado os não-me-toques usados para “proteger as instituições”, e se fala em português claro, funciona cada vez mais abertamente como o principal protetor do crime no Brasil — e tem cada vez menos interesse em disfarçar o que está fazendo. O ministro Edson Fachin proibiu os voos de helicóptero da polícia sobre as favelas do Rio de Janeiro; o único direito que ficou garantido, no caso, foi o dos criminosos, que agora estão protegidos de ações policiais capazes de revelar suas posições no território que ocupam.


O ministro Marco Aurélio soltou um dos maiores traficantes de droga do país; o homem fugiu no ato, e nunca mais foi encontrado. O ministro Gilmar Mendes não pode ver um ladrão do erário sem sacar do bolso um alvará de soltura. Agora é a vez da ministra Rosa Weber, que deu ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), um dos políticos brasileiros mais enrolados com suspeitas de corrupção no uso de verbas públicas no combate à Covid-19, o privilégio de não ser interrogado nesse picadeiro de circo que “investiga” a pandemia no Brasil.


A ministra Weber deu um argumento espantoso para a sua decisão: o governador, segundo ela, não pode sofrer “constrangimentos” na CPI da Covid. Por que não? Só porque está metido na operação “Sangria” da Polícia Federal? Só porque precisa esconder as responsabilidades diretas do governo do Amazonas no sinistro colapso do fornecimento de oxigênio em Manaus, no começo do ano — que a “Resistência”, desde então, tenta desesperadamente jogar em cima do governo federal?


Todos os inimigos do presidente da CPI, do seu relator e da bancada da esquerda que controla os chamados “trabalhos” têm sido insultados em público, das formas mais grosseiras que se possa imaginar, pelos inquisidores. Ninguém, no STF ou em qualquer outra entidade de oposição ao governo, se lembrou até agora de mexer uma palha em favor dos seus direitos. Por acaso eles não estão sendo constrangidos da maneira mais agressiva, cínica e desleal em seus interrogatórios? Por que o governador do Amazonas não pode ser constrangido, mas a dra. Mayra Pinheiro pode?


Há desculpas vagas de que ouvir o governador na CPI poderia ferir a “independência de poderes”. Como assim, se o próprio STF não faz outra coisa senão violar diretamente os direitos dos outros dois poderes? Os ministros conseguiram prender um deputado federal em pleno exercício do seu mandato. A cada instante dão “três dias”, ou “cinco dias”, para o presidente da República e os seus ministros fazerem isso e aquilo. Atendem a qualquer exigência que os partidos de esquerda lhes apresentam, por mais fútil que seja, para atacar o governo. “Interferência?” Que conversa e essa?


Alega-se, também, que o governador do Amazonas — o estado brasileiro onde o Covidão roubou mais que em qualquer outro — está sendo investigado pela polícia, e se fosse ouvido na CPI poderia incriminar a si mesmo. É chicana jurídica de baixa qualidade. Um administrador minimamente honesto não teria problema nenhum em responder a qualquer pergunta, na CPI ou onde for. Se não fez nada de errado, por que está se escondendo? Quanto à possibilidade de “incriminação”, estamos diante de uma piada vulgar. Não é exatamente esse o propósito declarado dos donos da CPI — incriminar os adversários?


Desde o seu primeiro dia, essa CPI tem sido um espetáculo inédito, mesmo para os padrões de safadeza da vida política brasileira, em matéria de hipocrisia, de desrespeito ao público e de desonestidade em estado bruto. Como definir esta aglomeração, quando o presidente da CPI é um político desse mesmíssimo Amazonas, envolvido nas piores denúncias de roubalheira na área da saúde? Sua própria mulher foi presa, pelo mesmo motivo; seus três irmãos também foram presos, também por ladroagem e também na saúde. Dizer mais o quê?


É óbvio que o STF está agindo e vai agir como aliado vital dessa gente. Faz todo o sentido que seja assim. Sua missão, seu objetivo e seus interesses são os mesmos — governar o país sem a necessidade de ganhar eleições . Vão fazer qualquer coisa para continuar assim.


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quarta-feira, 9 de junho de 2021

A hipótese da origem laboratorial do coronavírus e o colapso da imprensa “profissional”


             Flavio Gordon
     09/06/2021 


“Quem deseja saber por que tanta gente se mostra tão hostil para com as falas de autoridades de saúde pública e jornalistas de ciência deveria extrair a conclusão apropriada dessa história. Ao alertar o público sobre os perigos da desinformação, é recomendável que você mesmo não o desinforme.” (Bret Stephens, “Media Groupthink and the Lab-Leak Theory”, The New York Times, 31 de maio de 2021)


Ao longo de 2020, e até há poucas semanas, qualquer manifestação sobre uma possível origem laboratorial do Sars-CoV-2 era fulminada na grande imprensa com a pecha de “teoria da conspiração”. Embora não pudessem ter certeza alguma sobre o que diziam, jornalistas cujas formação intelectual e cultura geral são abaixo da média não hesitaram em fabricar matérias arrogantes e, com base na opinião de um ou dois “especialistas” selecionados a dedo, decretar a origem natural do novo coronavírus. A razão? Muito simples: a hipótese alternativa fora aventada por adversários políticos da militância midiática, notadamente Donald Trump e Jair Bolsonaro. A verdade não importava. A missão do coletivo das redações era clara: estigmatizar como radical, extremista e louco quem quer que sugerisse uma origem não natural do vírus. Vejamos alguns exemplos de autoproclamadas reportagens dedicadas ao cumprimento dessa missão.


Na Folha de S.Paulo, em 18 de março de 2020, a repórter Ana Carolina Amaral publicou a matéria “Coronavírus tem origem natural e não foi feito em laboratório, mostra estudo”, em cujo subtítulo se lia: “Teorias da conspiração falavam em manipulação do vírus pela China por vantagens econômicas”. O “estudo” referido na manchete, publicado na revista Nature Medicine no dia anterior, já foi abordado aqui na coluna. Tratava-se, na verdade, de uma carta redigida por um coletivo de virologistas liderados por Kristian G. Andersen, do Scripps Research Institute, e cujos erros factuais e conclusões não fundamentadas foram extensamente demonstrados pelo jornalista de ciência Nicholas Wade. Vale notar que é esse mesmo Andersen – um dos dois “especialistas” sobre cujas opiniões a imprensa construiu sua convicção quanto à origem do vírus – quem, contrariamente à sua opinião posterior, aparece num dos e-mails divulgados de Anthony Fauci dizendo, em janeiro de 2020, que o genoma do vírus apresentava sinais de manipulação.


A missão do coletivo das redações era clara: estigmatizar como radical, extremista e louco quem quer que sugerisse uma origem não natural do vírus


Em 22 de março de 2020, a revista Galileu, do grupo Globo, incluiu a hipótese de origem laboratorial numa lista das “5 teorias da conspiração mais bizarras sobre o novo coronavírus”. De modo a refutá-la, os autores da matéria faziam referência ao mesmo “estudo” da Nature Medicine.


Em 17 de abril de 2020, o El País Brasil publicou matéria intitulada “O coronavírus saiu de um laboratório? A ciência responde às teorias da conspiração”, cujo subtítulo ligava a dita teoria da conspiração ao nome do então presidente americano Donald Trump. A “ciência”, no caso, era também o “estudo” comandado por Kristian Andersen. A matéria trazia, ainda, a opinião de um personagem conhecido dos leitores desta coluna: Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma ONG dedicada à pesquisa sobre métodos de prevenção a doenças infecciosas.



A origem laboratorial do coronavírus: uma hipótese tanto mais robusta quanto mais proibida

Daszak foi o organizador e redator de uma carta publicada na The Lancet em fevereiro de 2020, e assinada por mais 26 cientistas, na qual a hipótese de origem laboratorial era tratada como teoria da conspiração. Junto com o tal “estudo” da Nature Medicine, o documento tornou-se a principal fonte a pautar de maneira hegemônica a imprensa mundial sobre o assunto. O que essa imprensa não informou ao público foi o potencial conflito de interesse envolvido, uma vez que o principal destinatário dos fundos captados pela EcoHealth Alliance – via Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid), agência dirigida por Anthony Fauci – era justamente o Instituto de Virologia de Wuhan, no qual se realizam pesquisas com “ganho de função” em coronavírus. Se o Sars-CoV-2 de fato escapou do laboratório por ele financiado, Daszak seria considerado culpado.



Em 21 de abril de 2020, o Estadão estampou na manchete a afirmação inequívoca: “OMS desmente teoria da conspiração de que o coronavírus saiu de laboratório”. No texto da matéria, lia-se: “A Organização Mundial da Saúde (OMS) negou nesta terça-feira, 21, uma das informações falsas mais amplamente divulgadas nos últimos dias sobre a pandemia do novo coronavírus, esclarecendo que o patógeno é de origem animal e não vem de nenhum laboratório”. A reportagem foi reproduzida por outros portais, como, por exemplo, o Terra.


Também em abril de 2020, o jornal Extra publicou matéria caçoando de um terço dos americanos, para os quais, segundo pesquisas, o coronavírus fora criado em laboratório. “O avanço da Covid-19 nos Estados Unidos faz crescer não só o medo entre a população, mas também as teorias da conspiração. Um terço dos americanos acredita que o coronavírus é uma criação de laboratório” – diziam, com um misto de desprezo e condescendência, os autores da reportagem. E quase podíamos ouvir as gargalhadas na redação.


Em julho de 2020, o jornalista Pedro Prata publicou no Estadão uma matéria ensinando como identificar e rebater uma teoria da conspiração. Segundo o texto, as “acusações à China de ter criado a Covid-19 em laboratório” não passavam de boato, uma teoria da conspiração já verificada e refutada pela agência de “checagem de fatos” do jornal, Estadão Verifica. O autor elencava certos padrões supostamente recorrentes das “teorias da conspiração” e incitava o leitor a “nunca mais acreditar em uma”.


Ao citar Shi Zhang-li como autoridade científica imparcial, o jornalismo omitia que era do interesse dela que a hipótese de origem laboratorial continuasse sendo ignorada pela opinião pública mundial


Já em fevereiro deste ano, o jornal O Globo reproduziu reportagem da Reuters intitulada “Equipe da OMS visita laboratório de Wuhan que deu origem a teorias da conspiração sobre vírus criado artificialmente”, com o seguinte subtítulo: “pesquisadores se encontraram com uma das primeiras virologistas a identificar vírus que causa a Covid-19; hipótese de que pandemia começou com vazamento no centro de pesquisa é rejeitada por cientistas”. No corpo da matéria, havia a informação de que a tal primeira virologista a identificar o Sars-CoV-2 era Shi Zhang-li, a “Mulher Morcego”, líder das pesquisas com coronavírus de morcegos no Instituto de Virologia de Wuhan (IVW), e também conhecida dos leitores desta coluna. O jornal apresentava Shi simplesmente como “uma renomada pesquisadora de vírus que há muito se concentra em coronavírus de morcegos”.



Graças a essa descrição eufemística, os leitores do jornal não ficavam sabendo que a principal atividade da “renomada pesquisadora” era justamente realizar experimentos em “ganho de função”, que consistem na manipulação laboratorial de coronavírus de morcegos a fim de torná-los aptos a infectar células humanas. Portanto, ao citá-la como autoridade científica imparcial, o jornal omitia que, por estar diretamente implicada no caso, na condição de possível responsável por abrir a caixa de pandora da Covid-19, era de interesse de Shi Zhang-li que a hipótese de origem laboratorial continuasse sendo ignorada pela opinião pública mundial.


Pior ainda: para chancelar a opinião da virologista chinesa descartando a origem laboratorial do vírus, a reportagem citava ninguém menos que o onipresente Peter Daszak, sujeito cuja ONG, como já vimos, financiava os perigosos experimentos comandados pela “Mulher Morcego” no IVW. “Reunião extremamente importante hoje com a equipe do IVW, incluindo a dra. Shi Zhengli. Discussão aberta e franca. Perguntas-chave feitas e respondidas” – foram as palavras de Daszak reproduzidas na matéria, que revelavam um claro intuito de encerrar logo o assunto. Ou seja, àquela altura, o jornal O Globo tomava ainda como verdade científica inquestionável (“cientistas mostram”, “a ciência prova” etc.) a opinião de dois personagens cujos conflitos de interesse eram evidentes, já que, se a hipótese de o Sars-CoV-2 ter escapado de um laboratório começasse a ser seriamente considerada, ambos estariam diretamente implicados.



Mas assim é, segundo a imprensa, o mundo encantado da “ciência, ciência, ciência”. Um mundo deveras tão maravilhoso que até a revista de fofocas Capricho nele resolveu se aventurar: “Coronavírus não foi criado em laboratório e cientistas mostram mais provas” é a manchete de uma reportagem da blogueira Isabella Otto, que trazia o seguinte subtítulo: “Apesar de alguns ainda acreditarem na teoria da conspiração, estudo comprova que vírus em humanos está ligado ao consumo inapropriado de animais selvagens”. No corpo da matéria, lia-se ainda esta sentença definitiva, redigida em português rudimentar, e que hoje soa como um esquete de stand-up comedy: “Para os negacionistas que ainda acreditam que o coronavírus foi criado em laboratório pela China, na tentativa de uma dominação mundial, uma nova evidência com relação ao vírus chega para acabar de vez com essa teoria da conspiração”.


Notem que, em todas essa supostas “reportagens”, expressões como “teoria da conspiração” e “informações falsas” nunca aparecem entre aspas, como citação de opiniões de terceiros. Tampouco são graduadas pelo já tradicional suposto (“supostas teorias da conspiração”, “informações supostamente falsas”, “supostos boatos” etc.). Em vez disso, os militantes das redações, de maneira precipitada e desonesta, para não dizer tacanha, trataram essa opinião parcial (e, ora já sabemos, suspeita) como verdade absoluta, consensual e consagrada – como se fora “a voz da ciência”. Mas a verdade não é filha da ciência, e muito menos de uma imprensa madrasta. A verdade, como diz o provérbio latino, é filha do tempo.


E o fato é que o tempo passou e cumpriu o seu papel. Hoje, com o Congresso americano investigando seriamente a hipótese de origem laboratorial, com o novo presidente americano – queridinho (e não mais inimigo) dos jornalistas – cobrando investigações sobre ela, com relatórios americanos de inteligência dando conta do adoecimento de pesquisadores do IVW em novembro de 2019, com vários cientistas se posicionando a favor de sua robustez em revistas científicas de destaque, com o próprio presidente da sino-afetiva OMS admitindo sua plausibilidade, com as Big Techs revendo sua política de censura sobre o tema, e até com a grande imprensa estrangeira mudando sua linha editorial e ensaiando um mea culpa, a grande imprensa brasileira foi forçada a mudar de atitude. Mas, para a surpresa de ninguém, o fez com a desonestidade que tem sido a sua marca registrada ao longo dos últimos anos, sem reconhecer os erros e sem se desculpar com aqueles a quem estigmatizou de “teóricos da conspiração”.


E o pior: agindo como se sempre tivesse tratado normalmente do assunto. Reproduzindo o noticiário internacional, nossos jornalistas hoje falam da outrora chamada “teoria da conspiração” (só agora recorrendo às aspas) na terceira pessoa, com um distanciamento de quem constatasse a simples presença de um fenômeno natural, e não como parte diretamente envolvida na fabricação desse estigma, como colaboradores ativos numa vasta campanha de ocultação e censura da informação. Sem assumir a culpa pela má conduta, redobram a carga, dessa vez para apagar as pistas da desinformação anterior.


Peguemos como exemplo a mudança de tom na redação do Estadão. Em abril de 2020, como vimos acima, o jornal paulista tratava inequivocamente a hipótese de origem laboratorial como “teoria da conspiração” e “informação falsa”. Pouco mais de um ano depois, o mesmo jornal escreve: “Cientistas em todo o mundo estão revisitando um mistério central da pandemia de Covid-19: onde, quando e como o vírus que causa a doença se originou? Há duas principais teorias: uma diz que o vírus saltou de animais, possivelmente morcegos, para humanos; a segunda defende que ele escapou acidentalmente um laboratório de virologia de Wuhan”.


Curiosamente, a hipótese de origem laboratorial já não é tratada como teoria da conspiração, mas como teoria e ponto, tão legítima quanto a hipótese alternativa de origem natural. “Há duas principais teorias” – dizem hoje os redatores. Mas, se é assim, por que diabos, então, o jornal passou o ano passado inteiro chamando quem afirmava justamente isso de “teóricos da conspiração”? Cadê a admissão de que essas pessoas estavam certas e o Estadão, errado? E o pedido de desculpas por conta de seu negacionismo? Teremos um mea culpa em forma de editorial?


Essas são perguntas retóricas, evidentemente. Creio que, no ponto em que estamos, ninguém mais espera um comportamento intelectualmente honesto e profissionalmente ético da maioria dos grandes jornais e revistas brasileiros. Ninguém espera, por exemplo, que Pedro Prata, jornalista do Estadão autor do já mencionado guia antiteorias da conspiração, resolva agora publicar um guia para prevenir os leitores contra a manipulação midiática, notadamente aquela que censurou informações sobre a possível origem laboratorial da Covid-19. De resto, um tal guia seria desnecessário a esta altura. Para que os leitores aprendam a identificar e confrontar a manipulação midiática, basta olhar para a atuação da imprensa no caso em tela, um exemplo paradigmático de antijornalismo, que marca um colapso midiático quiçá definitivo.


Mas nem tudo são más notícias (ou notícias falsas). Do fato de que, tendo mudado de metiê, a imprensa dita “profissional” não o pratique mais não se depreende que o jornalismo investigativo esteja morto e enterrado. Ao contrário, o próprio debacle intelectual e moral da velha mídia fez com que essa modalidade de jornalismo ressurgisse sobre novas bases, na internet, de uma maneira mais autônoma e descentralizada.


No próximo artigo, veremos um claro sinal desse ressurgimento, no modo como um grupo de jornalistas investigativos e pesquisadores amadores autodenominado Drastic (Decentralized Radical Autonomous Search Team Investigating Covid-19) conseguiu romper a espiral de silêncio midiática, driblar a censura das Big Techs e, por meio de um mutirão virtual para a coleta de dados e evidências, forçar o ingresso da hipótese de origem laboratorial do Sars-CoV-2 no debate público mundial. De início restritas a intermináveis threads no Twitter, suas descobertas tornaram-se cada vez mais consistentes e difundidas, despertando a atenção de cientistas, jornalistas e autoridades. Trata-se verdadeiramente de uma história de cinema, que os leitores da Gazeta merecem conhecer em detalhes.



Flavio Gordon

Flávio Gordon é doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ) e autor do best-seller A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil (Record, 2017). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


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sábado, 5 de junho de 2021

A copa e o capo

 

     Guilherme Fiuza  05/06/2021


Renan Calheiros disse que a Copa América é o campeonato da morte. Alerta importante. Como já notou qualquer um que acompanha o noticiário nacional, hoje a principal referência científica no país é Renan Calheiros. Os brasileiros estavam perdidos em meio à pandemia até aparecer o oráculo das Alagoas para dar-lhes o norte (e o sul, o leste e o oeste). O que ele por ventura não saiba (o que é raríssimo) aquela médica-cantora que fez um sensacional dueto com ele na CPI explica em uma frase. Isso é o bom da ciência moderna: não tem muita conversa, é tudo pá-pum.


No que viu o farol iluminista de Renan Calheiros apontado para as trevas da Copa América, Tite já se posicionou. Como se sabe, o técnico da seleção brasileira é simpatizante de Lula, que por sua vez é unha e carne com Renan – ou seja, tudo dentro da ciência. O técnico foi logo dizendo – na véspera do jogo do Brasil nas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo – que havia um ruído e os jogadores estavam na dúvida se jogariam o outro torneio. Como se vê, existem Américas e Américas.


Os reis da empatia (alguns pronunciam empatite) logo se eriçaram e se levantaram contra o campeonato da morte. O país tem jogos internacionais de três competições futebolísticas, todas sem público e com rigoroso protocolo sanitário para atletas e delegações, conforme previsto para a Copa América, mas se o Renan Calheiros alertou não dá para titubear. Fora Copa América.


Tem também o campeonato de ônibus lotados, vagões apinhados, estações aglomeradas e todo o torneio diário de muvuca nos transportes públicos promovidos por governadores e prefeitos de todo o país, mas disso o pessoal da empatite ainda não falou. Como a médica-cantora também não disse nada, depreende-se que está tudo bem. Ufa. Não é fácil seguir a ciência ao pé da letra.


Sempre tem os mais desconfiados que ficam lendo e relendo a Bula de Calheiros para si mesmos, envenenados por aquela velha mania de querer uma segunda opinião. Sem problemas. É só perguntar ao Omar Aziz. Ele é cercado por gente que entende tudo de saúde, segundo a Polícia Federal. Ainda não está satisfeito? Quer uma terceira opinião?


Não se aflija. Pergunte ao Randolfe. Mas se ainda assim você continuar perguntando de onde vem a autoridade desse trio de ouro em matéria de medicina, não restarão dúvidas: você é um ignorante que não lê jornal nem vê televisão. Está tudo lá, e nunca uma agência de checagem desmentiu o bando – ops, a junta médica.


E bota junta nisso. Eles quase juntaram a doutora Nise Iamagushi, faltou pouco para a delicada oncologista levar um safanão do grande Omar Aziz, incomodado justamente com tanta delicadeza. Ele foi muito claro: não estava suportando a voz suave da médica de 62 anos. Está certo, o companheiro Omar. Suavidade irrita mesmo. E ela, de forma acintosa, continuou falando suavemente. Deu sorte que o Omar e o Renan não mandaram algemar. Em defesa da vida e da ética eles são capazes de tudo.


A complexidade da ciência é assim mesmo. Às vezes você chega a ter a sensação de estar num campo de várzea assistindo a um clássico do crime, daqueles em que a qualquer momento o zagueiro pode mandar chumbo no atacante, mas são só as ilusões do empirismo. Não se faz omelete sem quebrar os ovos e não se faz ciência sem quebrar uns ossos. E não se esqueça: perigosa é a Copa América.

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terça-feira, 1 de junho de 2021

NA IMENSA SALA DE AULA CHAMADA BRASIL

 NA IMENSA SALA DE AULA CHAMADA BRASIL

 Percival Puggina 


Sempre me vi como um aprendiz, bom ouvinte, atento às páginas do cotidiano, da história e dos livros. Eis porque não consigo entender a pouca atenção dada às imensas oportunidades de aprendizado e experiência que a sala de aula dos fatos proporciona em nosso país. E note-se: fatos de muito boa pedagogia.


Lição nº 1 – Depois da ordem divina que pôs o Paraíso Terrestre em lockdown, o Senado brasileiro tornou-se a melhor alternativa disponível. Como regra geral, é o prêmio que a política partidária reserva a seus caciques (ou estes para si mesmos). É ali que comem a maçã, conversam com a serpente, preservam a impunidade, articulam o próprio futuro e determinam o tamanho da conta que mandarão para nós. Muda Senado!


Lição nº 2 – A CPI da Covid-19 é aula magna apresentada por eminentes doutores na arte da mistificação e do sofisma. Pensada pela serpente para organizar a seu modo e gosto o ambiente político de 2022, tem deixado à mostra o bote armado, os dentes e o chocalho no rabo. Esse Senado onde as boas exceções não contam 20 votos, esse Senado dos caciques, suportado pelos eleitores sem um justo brado de revolta, prova nossa negligência para com a política e o bem do país. Só uma instituição majoritariamente desqualificada extrairia de seus quadros tal deformidade para fazer o que faz. Muda Senado!


Lição nº 3 – Era preciso estar hibernando no início deste século para não perceber o que inevitavelmente iria resultar de um STF quase inteiramente indicado pelo PT. Um colegiado escolhido pelo partido, soprado por José Dirceu, poderia ser melhor ou, mesmo, diferente? A outrora respeitável Suprema Corte brasileira tornou-se um poder contra a nação e fez da Carta de 1989 seu objeto multiuso, seu canivete suíço. Mais do que todos, sabem-no os membros da Corte e enaltecem a si mesmos declarando-se “contramajoritários”. Mas saibam: essa é apenas uma expressão de suposta cultura jurídica para fazerem o que bem entendem, chutando a democracia e o resultado das urnas... Muda STF!


Lição nº 4 - Cento e trinta e dois anos de crises, instabilidades, frustrações não foram suficientes para nos mostrar que esse modelo institucional é incorrigível. De um modo sistemático, transforma a governabilidade em mercadoria, agrega oportunidades e valor à corrupção, produz hipertrofia e aparelhamento do Estado e, a cada quatro anos, renova para pior a representação parlamentar. Acorda Brasil!


Lição nº 5 – O presidente da República não é um príncipe perfeito. Às limitações institucionais, somam-se as próprias. Mas tem méritos, políticos e de gestão. Graças a ele, a seus esforços pela liberdade, resistimos à depressão para onde, de modo doentio, insistem em nos levar os grandes meios de comunicação. Ele não é o conservador nem o liberal de manual, mas defende valores estimados por uns e outros. E é o único que pode, no ano que vem, vencer o adversário que quer voltar para prosseguir a obra sinistra interrompida em 2018.


Deus abençoe e fortaleça os conservadores e liberais brasileiros!


Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

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