segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Combate ao crime exige mais medidas

VALOR ECONÔMICO

A ocupação do Complexo do Alemão, tomado ontem pela Polícia Militar do Rio de Janeiro com apoio das Forças Armadas, após oito dias de embates com membros do Comando Vermelho, ainda não representa o controle do crime organizado na cidade.

Para especialistas, é necessária uma segunda etapa de combate, contra outras facções e milícias, que exigirá novas estratégias, além da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares, sugere a adoção no Brasil de mecanismos semelhantes aos utilizados pelo governo de Álvaro Uribe (2002-2010) na Colômbia para a desmobilização de grupos criminosos. Juristas defendem o cumprimento da legislação existente para evitar a articulação de criminosos presos com comparsas que estão em liberdade.

Ocupação não garante controle sobre facções

César Felício De Belo Horizonte

A ocupação do Complexo do Alemão, conjunto de favelas tomado na manhã de ontem, praticamente sem resistência, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro com apoio das Forças Armadas, ainda não representa o controle sobre o crime organizado na cidade.

Por uma questão tática - diminuir a possibilidade de uma articulação das facções criminosas entre si e com os milicianos - os ataques foram direcionados a áreas controladas apenas pelo Comando Vermelho. Para o sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares, a segunda etapa do combate, contra outras facções e milícias, exigirá estratégias que ultrapassem a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Dillon Soares sugere a adoção no Brasil de mecanismos semelhantes aos utilizados pelo governo de Álvaro Uribe (2002-2010) na Colômbia para a desmobilização de grupos criminosos. Naquele país, o governo ofereceu o perdão para crimes cometidos e até uma bolsa equivalente a US$ 180 para garantir a reinserção dos criminosos no convívio social.

Em três anos, Uribe conseguiu que 13 mil pessoas entregassem as armas, majoritariamente integrantes de grupos paramilitares, que cobravam proteção para perseguir narcotraficantes e militantes de movimentos sociais. Mas, na sexta-feira passada, a Justiça colombiana tornou sem efeito os benefícios concedidos aos desmobilizados.

No caso do Rio, Dillon Soares enxerga mais possibilidades de se tentar um acordo do gênero com os integrantes das milícias, que expulsaram facções criminosas de favelas e passaram a extorquir moradores. Para o sociólogo, a vinculação dos milicianos com o aparelho institucional do Estado pode fazer com que seus integrantes tenham percepção de que não teriam como enfrentar uma ofensiva das forças de segurança.

Aos 76 anos, e com um currículo no sistema Lattes de 49 páginas, Dillon Soares é carioca do bairro das Laranjeiras e pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Há 35 anos seu objeto de estudo é a criminalidade urbana. Desde janeiro de 2007, o sociólogo integra a organização não governamental "Rio de Paz", que, na sexta-feira, fez um apelo para que o poder público fizesse uma proposta formal de rendição aos criminosos, que estavam cercados no Complexo do Alemão. A "Rio de Paz" foi formada logo após a interceptação de um ônibus interestadual por criminosos, que atearam fogo ao veículo e mataram sete passageiros.

A seguir, a entrevista feita com o sociólogo Glaucio Ary Dillon Soares, no fim da tarde de sexta-feira, por telefone:

Valor: -No início da atual onda de violência no Rio, no dia 21, houve avaliações de que os episódios estavam sendo superdimensionados pela mídia e os indícios de que se tratava de um movimento organizado eram frágeis. Qual o balanço que o sr. faz dos conflitos até agora?

Gláucio Ary Dillon Soares : Entre 2000 e 2009, houve mais de 800 ônibus danificados no Rio de Janeiro, com as ocorrências sempre ligadas a prisões, remoções e mortes de traficantes. O que chama a atenção agora é a dispersão geográfica dos eventos em uma concentração menor de tempo , o que indica, sim, coordenação. Mas trata-se da coordenação de grupos fragilmente organizados. É um erro pensar nas facções como empresas com linhas hierárquicas organizadas. Elas se conectam fragilmente. Vem uma ordem e cada um age do jeito que pode. O traço que as une é que parece haver uma preocupação, por parte dos bandidos, em destruir patrimônio, mas evitar perdas de vidas.

Valor: Em 2005, com um ônibus urbano, e em 2006, com um ônibus interestadual, houve intenção deliberada de matar os passageiros quando os veículos foram incendiados. Morreram 12 pessoas.

Dillon Soares : Foram ações pontuais, que tiveram como consequência a execução sumária de seus autores, por parte das facções criminosas. A mídia não superdimensiona ao retratar as ações como uma ofensiva organizada, o exagero está ao se avaliar a força destas facções.

Valor: É equivocado aproximar o caso carioca do existente no México ou na Itália?

Dillon Soares : Basta observar a grande diferença da intensidade da violência nas ações e a extensão temporal dos episódios. É um exagero comparar as facções daqui com os cartéis do México e com a Máfia e a Camorra na Itália.

Valor: O sr. não considera a hipótese de que a entrada das Forças Armadas em cena e a disposição das autoridades governamentais em não aceitar acordos tácitos leve a uma perenização do conflito nesse nível de intensidade?

Dillon Soares : O ponto decisivo será o resultado da operação que se desenrola no Complexo do Alemão [a entrevista ocorreu no momento em que as forças de segurança começavam a cercar a área ]. A invasão da quinta-feira na Vila Cruzeiro mostrou que as facções criminosas sentiram o golpe e estão inferiorizadas em poder de fogo. A aposta maior é que o conflito arrefeça, com alto índice de prisões e baixas entre os criminosos.

Valor: O retrospecto do uso de força bélica em conflitos urbanos é muito ruim, inclusive internacionalmente...

Dillon Soares : É péssimo, desde que não se tenha uma determinação "churchilliana" do governo para resolver a situação. Na Somália, durante o governo Clinton, os EUA foram humilhados por milícias, com a derrubada de um helicóptero Black Hawk, mas não havia determinação em se vencer aquela situação. A determinação é o grande diferencial que existe no governo de agora.

Valor: Há indícios de que o Comando Vermelho e os Amigos dos Amigos, as mais importantes facções, estão atuando em conjunto na onda de ataques. Isso não elevou o conflito a outro nível de gravidade?

Dillon Soares : Sou extremamente cético em relação a essa aproximação. Precisaria de evidências irrefutáveis. Por um motivo básico: as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) reduziram os índices de criminalidade nas favelas que ocuparam, exatamente por bloquearem as invasões de um bando na área do outro. Por irônico que seja, as UPPs salvaram vidas de bandidos também. O que importa ressaltar é que essas facções literalmente se matavam até muito pouco tempo atrás. E as UPPs até o momento entraram na área de uma das facções, não as atingiram de modo uniforme. Elas foram instaladas na área de apenas uma das principais facções [O entrevistado evita citar o nome das facções. As áreas onde as UPPs foram instaladas até este ano são conhecidas pela atuação do Comando Vermelho]. As outras facções e as milícias foram deixadas para um segundo momento, talvez.

Valor: O combate às milícias não tende a ser muito mais duro, dado que elas têm um enraizamento no aparelho institucional do Estado que o narcotráfico jamais teve?

Dillon Soares : Quando o foco for a milícia, teremos uma situação de grande ocorrência de dupla militância. Haverá a necessidade de separar a milícia da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Não será fácil. Mas o poder de fogo deles, feita a separação, é menor do que o das atuais facções criminosas.

Valor: O conflito atual não coloca em xeque a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) como eixo central da estratégia de segurança do governo do Rio?

Dillon Soares : As UPPs fazem a ocupação com certo grau social de áreas antes controladas pelo tráfico. Elas claramente se inspiram nas iniciativas adotadas na Colômbia, sobretudo em Medellín, cidade com muitas semelhanças com o Rio. Mas há outra vertente da estratégia colombiana que seria importante refletir sobre sua adoção aqui. É o que chamo de uma proposta de rendição: os soldados do tráfico, os integrantes das facções, se integrariam na sociedade, com o esquecimento dos crimes passados, em troca do abandono das armas. Na Colômbia, funcionou relativamente bem. O grande obstáculo é que, no Brasil, a segurança pública é jurisdição estadual, que não tem poder sobre a legislação penal.

Valor: Se a organização das facções criminosas é frágil, quem seriam os eventuais interlocutores de um acordo de rendição?

Dillon Soares : Encontrar os comandantes é fácil, porque a maioria deles já está presa. Mas acredito na eficácia de uma interlocução por meio de intermediários, sobretudo das igrejas. Não só a Igreja Católica, mas muitas evangélicas.

Valor: Do ponto de vista da opinião pública, este acordo não teria dificuldades de ser concretizado?

Dillon Soares : O cenário da opinião pública tornou-se muito adverso para as facções criminosas. Eles aproximaram, com esses ataques, a polícia da população, que se viu definitivamente na condição de vítima. É previsível supor que certos temas voltarão com força ao debate, como o fim da maioridade penal aos 18 anos. Ela só existe em seis países. É cada vez mais difícil sustentá-la como uma medida civilizatória. A linha dura contra a bandidagem vai ganhar muito terreno. O grupo " foucaultiano" de intelectuais que desconfia das instituições, e que se alinhou com o que se convenciona chamar de "política de direitos humanos", sai disso tudo muito enfraquecido. Temos um grande problema para decidir pela frente, que é o que fazer com o usuário de drogas. As opções estão ganhando uma definição nítida: ou libera-se , ou criminaliza-se o usuário. Mas o fumador de crack das ruas e os que fumam maconha nas redações, nas universidades, nas repartições públicas precisam receber o mesmo tratamento. É uma questão que terá que ser enfrentada.
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Depoimento judicial de crianças: um debate necessário

Esther Arantes
Correio Braziliense - 27/11/2010
 Doutora pela Boston University (EUA), professora da UERJ e PUC-Rio e membro colaboradora da Comissão de Direitos Humanos do CRP-RJ

Humberto Verona
Presidente do Conselho Federal de Psicologia


Embora a preocupação internacional com os direitos da criança tenha se iniciado no final do século 19, apenas no século 20 foram aprovadas a Declaração de Genebra (1924 e 1948) e a Declaração dos Direitos da Criança (1959), afirmando tais direitos como sendo os de proteção.

Adotada por unanimidade pela Assembleia Geral da ONU, em 1989, a Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) acrescentou os direitos de liberdade e participação aos antigos direitos de proteção. Ao ratificá-la, cada Estado signatário assumia o compromisso de construir uma ordem legal interna para sua efetivação.

No Brasil, os debates sobre a CDC ficaram obscurecidos. A ausência de discussão nos faz falta, tanto pelo caráter vinculante da CDC, que tem força de lei e obriga o Brasil a cumprir, como porque muitos projetos dirigidos às crianças e aos adolescentes têm origem em programas internacionais, muitos dos quais acriticamente transportados para nossa realidade. 

Entre as propostas existentes, algumas têm gerado discordância entre as diversas categorias profissionais, como o substitutivo ao Projeto de Lei da Câmara nº 4.126, de 2004, tramitando no Senado sob a designação de PLC nº 35, de 2007, que busca permitir que crianças sejam inquiridas judicialmente como vítimas e/ou testemunhas de crimes, principalmente de natureza sexual. Justifica-se tal proposta pela necessidade de não se deixar impunes os autores de abusos contra crianças e adolescentes, alegando-se que, em muitos casos, a única prova do crime é o depoimento da vítima. 

Afirma-se, equivocadamente, a nosso ver, que tal procedimento não é, senão, o cumprimento do Art. 12 da CDC sobre o direito da criança de ser ouvida judicialmente, a despeito de qualquer idade. No entanto, alegando a imaturidade da criança e sua condição peculiar de desenvolvimento, busca-se designar profissionais de outras áreas para fazer sua inquirição judicial — procedimento dito “especial” ou “depoimento sem dano” (DSD) —, a despeito do que pensam os conselhos profissionais dessas áreas. No caso do Conselho Federal de Psicologia, o posicionamento é claro: falar para elaborar uma situação traumática é muito diferente de falar para depor à Justiça, sendo função do psicólogo ouvir a criança e não inquiri-la. 

Existe uma diferença da escuta, afirmada como direito no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na CDC, do procedimento judicial de inquirição em audiência. Uma escuta respeita o tempo e as necessidades de pontuação, de luto e de significação do sujeito. A inquirição parte da ficção de que o sujeito seria capaz de responder linearmente todas as indagações.

Na metodologia de inquirição especial, transfere-se a outros profissionais, entre os quais o psicólogo, a responsabilidade, indelegável, de obter da criança e do adolescente os significantes necessários à condenação de alguém. Cabe pontuar que nem sempre é necessária essa oitiva e não é possível uma atuação ética desses profissionais incumbidos de semelhante tarefa, por vezes até obrigados a fazê-los, assim como nada garante que não se produza dano. 

Antes de transformar o DSD em lei, devemos, primeiro, decidir se o direito da criança de se expressar e de ser ouvida está ameaçado pela obrigatoriedade da inquirição. Entendemos que sim. Existem alternativas, que precisam ser debatidas à luz da proteção integral, respeitando a dignidade da criança e o seu desejo de querer ou não se expressar para a produção de provas, cientificamente respaldadas, que não envolvem a inquirição e a revitimização das crianças. Resta saber se os paradigmas existentes hoje no sistema judiciário comportam a ampliação desse debate. 

A resolução do CFP nº 010/2010 institui a regulamentação da escuta psicológica de crianças e adolescentes envolvidos em situação de violência e não limita a criação e discussão de estratégias que possam responsabilizar os agressores. Ela delimita um campo técnico e ético compatível com a formação do psicólogo que o coloca na posição de alguém que escuta e protege, respeitando a dignidade da criança e do adolescente.

Vale ressaltar que a proposta do DSD nem sequer foi objeto de deliberação do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Por todas essas razões, defendemos a suspensão da prática, que já vem sendo precipitadamente instalada em alguns estados, até que se discuta a matéria no Conanda e esteja garantida a ampla discussão pela sociedade, antes de se votar o PL no Congresso Nacional. Pois, inúmeros questionamentos vêm sendo feitos a esse procedimento como violador dos direitos humanos de crianças e adolescentes.
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Recado eleitoral

 Sergio Fausto
O ESTADO DE S. PAULO

O mapa eleitoral resultante das eleições de outubro mostra um País politicamente plural, onde as oposições encontram apoio não apenas para exercer o seu papel agora, mas também para aspirar a ser governo, no nível federal, amanhã. Nada que indique a "mexicanização" da cena política brasileira, alusão ao domínio de um só partido, como aconteceu no México por sete décadas, sob o comando do PRI.

Se as "condições objetivas" estão dadas, é preciso, por assim dizer, criar as "condições subjetivas". E para tanto importa repensar (e mudar) a maneira como as oposições fizeram política nos últimos oito anos.

Com oito governadores eleitos, dois deles nos principais Estados da Federação, o PSDB reafirmou-se como o polo de poder alternativo no País, apesar da redução de sua bancada no Congresso, ainda assim expressiva.

Na geografia política brasileira, quando analisada, município a município, conforme a votação de Serra e Dilma, identifica-se um "território tucano" contínuo desde o leste do Rio Grande ao sul do Pará, numa "mancha azul" que coincide, no geral, com as áreas de maior dinamismo econômico. Há também "ilhas azuis" em Roraima e no Acre, por razões políticas locais. A rigor, somente o Nordeste se mostrou terreno inexpugnável, com exceção de algumas poucas capitais.

Um rápido exame do perfil sociológico desse território e desse eleitorado provavelmente revelará uma população heterogênea, mas no geral conectada às atividades mais ligadas ao setor privado e menos dependentes do Estado. No plano das mentalidades, indicará uma preocupação maior que a média com a impessoalidade no trato da coisa pública e com a separação entre o Estado e as organizações partidárias e corporativas. A propósito, foi antes o "affair Erenice" do que a vexatória controvérsia em torno do aborto o fator que quase fez a "mancha azul" se espalhar ainda mais, pondo em risco a vitória da candidata oficial.

Além de políticas públicas - e isso caberá a seus governadores -, o PSDB precisa construir uma narrativa que, voltada principalmente para esse eleitorado, possa servir de inspiração ao conjunto do País, mesmo aos que hoje, por insuficiência de renda, são dependentes de programas assistenciais. A mobilidade social ascendente observada nos últimos anos criou novas expectativas num amplo contingente da população. Trata-se de um eleitorado exigente, que não tem dono e cobrará políticas públicas inovadoras que possam ajudá-lo a realizar as próprias expectativas. Narrativa e políticas precisam andar de mãos dadas.

Nas três últimas disputas pela Presidência, os candidatos do PSDB renegaram o passado do partido e dispensaram-se de construir uma narrativa que configurasse um "eu coletivo". Preferiram campanhas calcadas em seus atributos pessoais e na noção de "eficiência", refletindo e ao mesmo tempo aprofundado a crise de identidade do partido.

Nada contra a eficiência, ela é indispensável, mas politicamente de pouco vale se não for articulada com valores e com uma visão que, referindo-se à organização da sociedade e do governo, diga respeito à vida das pessoas, e se distinga dos demais valores e visões em disputa.

Nem de longe defendo a ideia de que a configuração desse "eu coletivo" se dê conforme a lógica do "nós" contra "eles", da confrontação "amigo-inimigo", como o presidente Lula tantas vezes insistiu em fazer. Não há, porém, como fazer política sem afirmar uma identidade e marcar a diferença. E o PSDB não soube fazê-lo nos últimos oito anos.

Desnecessário insistir na importância de retomar os fios da história, que tem nos governos de FHC a sua referência maior, mas não exclusiva. Importa fazê-lo pensando no futuro. Cabe defender as privatizações - no setor de telecomunicações, por exemplo -, para mostrar que sem elas o Brasil continuaria a ser "o país dos orelhões" e a grande maioria da população permaneceria sem acesso a serviços de telefonia e internet, que hoje são condição para educar-se, empregar-se, empreender e desenvolver-se individual e coletivamente.

Nosso maior desafio como país é aproveitar a janela de oportunidade demográfica dos próximos 20 anos - quando maior será a população em idade ativa em relação a crianças e idosos - para consolidarmos as bases de uma sociedade mais justa e mais próspera. Para isso não basta continuar a fazer o que fizemos nos últimos 16 anos. É preciso fazer mais e melhor. Até porque, no mundo, enfrentaremos competição crescente, sobretudo em manufaturas, e não só da China. E normas cada vez mais rígidas - ambientais, sanitárias, etc. - na produção de commodities.

Em 2030 teremos de empregar 150 milhões de pessoas. Conseguiremos criar, em quantidade e qualidade, os empregos necessários para absorver essa força de trabalho e gerar maior renda para melhor distribuí-la, com o arranjo de políticas cristalizado no governo Lula, respaldado por um protagonismo cada vez maior do Estado? Ou mudanças serão indispensáveis, para conter a tendência expansionista do gasto público e da intervenção discricionária do governo na economia, em favor de poucos grandes grupos e, por vezes, de um crescimento a qualquer custo, sem maior preocupação com a sustentabilidade socioambiental?

Não sou um "idiota da objetividade", como disse Nelson Rodrigues a respeito de quem acredita que a descrição correta da realidade exige o banimento da subjetividade e das emoções. Sei que a forma importa tanto quanto o conteúdo. E reconheço que, numa sociedade em que a comunicação passa fundamentalmente pela mídia eletrônica, a política requer quem conheça especificamente essa linguagem. Mas a forma sem conteúdo é vazia. Um partido sem identidade própria e visão diferenciada para o futuro do País é apenas uma legenda, abrigo de ambições pessoais.

O eleitor deu um recado claro, que as lideranças precisam escutar: quer que o PSDB seja mais, bem mais, do que tem sido.

Diretor Executivo do IFHC, é membro do GACINT-USP.
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Obra da Transnordestina entra nos eixos

Uma importante reportagem falando sobre um investimento em infra-estrutura que propiciará desenvolvimento para as regiões que hoje são as maiores clientes dos programas de assistência.
Circulação de pessoas, bens e produtos leva ao desenvolvimento.
A reportagem ilustra uma série de problemas que ficam longe dos holofotes midiáticos mas que impedem ou atrasam o desenvolvimento dos cronogramas estabelecidos.
Vale ler e acompanhar pois há muitos detalhes que ajudam e entender a complexidade de um empreendimento deste porte.


Obra da Transnordestina entra nos eixos
 Murillo Camarotto
Valor Econômico


 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai passar longe do desejo de inaugurar a ferrovia Transnordestina antes de sair de cena. O início das obras, em 2006, alimentou o sonho presidencial de que tudo estivesse pronto antes das eleições deste ano, porém os inúmeros contratempos no megaprojeto, orçado em R$ 5,4 bilhões, postergaram em muito a data da inauguração. Lula terá que se contentar em ver sua sucessora cortar a fita da Transnordestina, ferrovia de 1.728 quilômetros que ligará os portos de Suape (PE) e Pecém (CE) ao município de Eliseu Martins (PI).

Após muitas idas e vindas, o projeto alcançou no mês passado o seu pico de atividade, medida em número de trabalhadores e de máquinas em operação. Atualmente, trabalham na obra mais de 11,3 mil pessoas e 1,6 mil máquinas. "Vamos manter esses patamares durante todo o ano de 2011, começando a reduzir gradativamente a partir de 2012", explicou o engenheiro da Odebrecht Paulo Falcão, diretor do contrato entre a construtora e a Transnordestina Logística (TLSA), dona da obra e controlada pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Os 20 lotes já licitados somam 1.280 quilômetros de trilhos. Desses, 19 estão a cargo da Odebrecht, que só entrou na empreitada em novembro de 2009. A construtora tem 14 lotes em obras e trabalha para entregar tudo até outubro de 2012. Esse prazo não contempla, porém, o trecho de 450 quilômetros entre Aurora e Pecém (CE), ainda não licitado e cujo trajeto está sendo questionado pelo Ibama e pelo Patrimônio Histórico. Com isso, a perspectiva é de que toda a ferrovia só esteja concluída no primeiro semestre de 2013.

Nos 14 lotes onde a Odebrecht está trabalhando, o que se vê são as chamadas obras de infraestrutura - construção de bueiros, pontes e viadutos por onde passarão os trens, bem como toda a parte de escavações e aterramentos necessária. Somente após essa etapa é que entra em cena a superestrutura, que é a instalação de dormentes, trilhos e da brita, as porções de pedras que acompanham o trajeto.

A assinatura dos contratos referentes aos lotes ainda não licitados deve ocorrer no próximo dia 10 de dezembro, possivelmente no mesmo dia em que será inaugurado o primeiro trecho da Transnordestina, ligando o município de Salgueiro (PE) a Missão Velha (CE), em um percurso de 100 quilômetros. Tocado pela construtora EIT e pela própria TLSA, o trecho está em fase final de colocação de dormentes e trilhos e deverá ser concluído ainda com Lula no Planalto.

Para garantir a satisfação do presidente, o alagoano Severino José da Silva, de 56 anos, trabalhava duro na semana passada, debaixo de sol impiedoso. No comando de uma carregadeira, ele acomodava no chão de terra seca os dormentes de 350 quilos, em um trecho da ferrovia próximo a Missão Velha. Apesar dos 35 anos de experiência como operador de máquinas pesadas, Severino não demonstra entusiasmo quando questionado sobre o fato de seu ofício ser um dos mais requisitados no país. "Ainda não veio nada", disse ele, com ar pensativo, sobre a valorização de seu salário, hoje em R$ 1,3 mil mensais.

Paulo Falcão relata que a Odebrecht sofreu bastante para reunir os profissionais qualificados para a obra da Transnordestina. Ao lado de armadores e carpinteiros, operadores de máquinas pesadas figuraram entre os mais raros. "O período mais crítico no que se refere à mão de obra se deu entre janeiro e maio. Tive que trazer muita gente de fora, principalmente das capitais do Nordeste. Agora posso dizer que a questão está resolvida", afirmou o executivo.

Com mais de 11,3 mil trabalhadores, a Transnordestina é a segunda maior obra tocada pela Odebrecht no país, atrás apenas da hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), onde trabalham mais de 12 mil pessoas. Das 1,66 mil máquinas em operação na ferrovia, 25% são da construtora. O restante é alugado de outras empresas, que, em muitos casos, trouxeram equipamentos da China.

A distribuição do custo total do projeto, hoje em R$ 5,4 bilhões, tem nos equipamentos o maior peso: 50%. Na sequência aparece a mão de obra, com 25%, seguida por insumos e gastos gerais, ambos com 12,5%. De acordo com o presidente da TLSA, Tufi Dahen Filho, as obras caminham bem próximas do limite dos custos. Ele acredita, porém, que até a sua conclusão deve haver mais um reajuste, como ocorreu em 2008.

Na ocasião, ainda se trabalhava com um orçamento feito em 2004, que previa investimento total de R$ 4,5 bilhões. A alta de 20% foi justificada pelos maiores custos com mão de obra, cimento, aço e combustível. "O custo por quilômetro está hoje em R$ 2,9 milhões, valor que segue o critério do último orçamento. Mas temos receio de que as novas contratações, especialmente de material, fiquem acima desse valor", explicou o executivo.

Em paralelo à tendência de custos crescentes, Odebrecht e TLSA trabalham na busca de soluções de engenharia que possibilitem redução nos gastos. Isso é possível, já que o contrato entre as duas empresas foi firmado na modalidade de aliança, que prevê a divisão igualitária dos ganhos resultantes da diminuição de custos. Segundo Falcão, o maior potencial de redução está no gerenciamento adequado das atividades de escavações e aterramentos.

A engenharia financeira do projeto prevê que R$ 2,67 bilhões venham de empréstimos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e R$ 823 milhões do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor). A CSN colocará R$ 1,35 bilhão, sendo R$ 681 milhões do próprio caixa e R$ 675 milhões via um empréstimo do BNDES. O banco injetará outros R$ 225 milhões por meio de empréstimo à TLSA, mesma operação que será feita pelo Banco do Nordeste, com mais R$ 180 milhões. O governo federal irá aportar R$ 164 milhões por meio da Valec, estatal que atua em projetos ferroviários.

Segundo Tufi, as obras receberam até agora R$ 1,4 bilhão em investimentos, sendo metade deste valor bancado pela CSN, via caixa próprio ou empréstimos. O executivo reclama que o Finor já devia ter liberado R$ 350 milhões, mas que até o dia 10 de novembro tinha depositado apenas R$ 116 milhões. "Não pode haver esse descasamento das fontes de financiamento com o ritmo da obra. O Finor é o que tem apresentado maior burocracia e maior dificuldade. Com o atraso, a CSN tem que colocar mais recursos do que estava previsto", alegou o presidente da TLSA.

O Ministério da Integração Nacional informou que já havia autorizado o pagamento de R$ 154 milhões e negou a existência de atraso nos repasses.

Outro gargalo ainda enfretado pela Transnordestina são as desapropriações de terras, a cargo dos governos estaduais. Elas tiveram grande parcela de responsabilidade pelos inúmeros atrasos no cronograma da obra. Segundo a TLSA, 70,6% do trajeto por onde passará a ferrovia já está desapropriado e pronto para receber os trilhos. Porém, Paulo Falcão revela a existência de "desapropriações na teoria e na prática".

Ele explica que, em muitos casos, os donos das áreas já legalmente desapropriadas recusam-se a liberar o local, impedindo o avanço da obra. "Sabemos que em alguns locais há problemas com o pagamento pós-desapropriação. Com isso, os proprietários não saem mesmo", relata Ana Carolina Faria, gerente da Odebrecht e uma das 16 engenheiras que trabalham no projeto.

Ela lista uma série de outros problemas que vêm obstruindo o andamento dos trabalhos. Além das pendências de licenciamento ambiental, há problemas em vários trechos onde a ferrovia cruza com rede elétrica, adutoras, cemitérios, igrejas, assentamentos, comunidades quilombola e indígena e até com as obras da transposição do rio São Francisco. "Tenho interferência de algum tipo em todos os lotes", informa.

A ideia do projeto é tornar a Nova Transnordestina numa ferrovia de classe mundial em velocidade e volume de carga. Quando estiver pronta, poderá transportar 30 milhões de toneladas por ano, com velocidade de até 80 km/hora, tendo como principais cargas minério de ferro, gipsita e grãos, além de cimento, combustíveis e fertilizante.
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Liberou?

DANUZA LEÃO
FOLHA DE SÃO PAULO 

"Em condições específicas", disse o papa; e existe condição mais específica do que o desejo? E o amor?

TUDO PODE SER interpretado, veja-se o caso da escolha da nova equipe econômica. Segundo os que entendem de tudo, se para o Banco Central for A, significa que os juros vão subir, se for B, que a gastança vai continuar -ou o contrário. Se Palocci aparece mais -ou não aparece-, a interpretação vem logo: ele vai para a Casa Civil, ou não vai mais.
Como o ser humano adora interpretar, imagine o prato cheio que foi a declaração do papa, dizendo que em condições específicas -por exemplo, um profissional do sexo que seja soropositivo- o uso de preservativo é permitido. Ora, se para tudo na vida existem várias interpretações, imagina nesse assunto.
Para começar, foi uma surpresa saber que a Igreja Católica aceita que exista a prostituição. Se, para ela, o sexo é só para procriar, como admitir profissionais -homens e mulheres- do sexo?
Não vamos esquecer que houve uma pequena confusão na tradução das declarações do papa; teria ele dito "garotos de programa" ou "prostitutas"? Então a Santa Madre Igreja admite também a existência de "garotos de programa"? Moderna, não?
Agora, às interpretações. E se não for um/uma profissional do sexo, mas um empresário/a, contaminado, que saia para namorar. Nessas condições, a Igreja aceita? Mas devem existir casos em que a pessoa tem uma suspeita, mas não a certeza de ter o vírus; se for um/a profissional, pode usar camisinha. Se não for, não pode -claro, já que é pecado transar. Difícil, essa Igreja.
Li ontem que, no mundo, 15 pessoas são infectadas por dia pelo HIV. Fiquei pensando: se o IBGE fizesse perguntas sobre a vida sexual de todos os habitantes do mundo, seria possível saber quantas relações sexuais acontecem a cada 24 horas.
Sendo a população em torno de 6 bilhões, vamos fazer uma continha rápida. Digamos que 1/3 sejam crianças, 1/3 idosos; sobram 2 bilhões de adultos. Supondo que, desses 2 bilhões, 100 mil sejam sexualmente ativos -portanto, 50 mil casais -, e que esses casais transem uma vez por mês.
Seriam quase 2.000 transas diárias, o que nem é tanto assim, mas não acredito que todas tenham a intenção de procriar. E não acredito, mas não acredito mesmo, que por mais religiosas que sejam as pessoas, na hora do desejo elas se contenham, lembrando que é pecado. Lamento, mas não dá.
"Em condições específicas", disse o papa; e existe condição mais específica do que o desejo? E o amor? São as duas condições mais específicas que existem, e é triste ver como a Igreja ainda encara o sexo: ou é para ter um filho, ou para evitar a morte. Para ser mais alegre e mais feliz, nem pensar.
Então, a pedofilia dos padres deveria mandá-los não para o inferno, mas para mil infernos, se isso fosse possível. Porque além do crime da pedofilia, eles estão abusando do poder que têm, levando risco de infecção para o garoto e ferrando com a cabeça dele para o resto da vida.
Acho que Bento 16, com aquela cara de antigo, está sendo o papa mais moderno que a Igreja jamais teve. Ele não precisa liberar geral. Mas se liberar o sexo entre as pessoas que se amam, merece ter uma longa vida para ver a volta do rebanho à Igreja.
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Acabou a euforia sucessória e a crise mundial se impõe

Uma análise madura do primeiro presidente do BNDES do Gov Lula. Ele vem ressaltando os problemas que enfrentaremos a partir do ano que vem, de forma ponderada e madura.

O que gosto no que ele escreve é a postura acadêmica para embasar suas opiniões e tornar sua exposição clara.

Ele ressalta o nível de comprometimento de nossa economia com os programas sociais e as obras de infra-estrutura, notadamente aquelas que atenderão aos eventos mundiais em 2014 e 2016.

Vale a pena ler.

 Carlos Lessa
 VALOR ECONÔMICO

Os debates sucessórios não mencionaram sequer a crise mundial. Antes da posse da nova presidente, a crise mundial se impõe na mídia brasileira. A virulenta manifestação de crise mundial em 2008, a partir da implosão da bolha financeiro-imobiliária nos EUA se propagou urbi et orbi e está solidamente instalada.

Economia é história, no sentido de transformação. A dimensão monetário-financeira da crise mundial é fruto do padrão-dólar instalado em 1971, quando foi decidido, por aquela nação, o cancelamento da cláusula ouro. Um dólar, baseado em confiança, passou a valer... um dólar! Objeto de desejo universal pois, ao dominar as transações de comércio internacional, passou a ser o item principal das reservas externas de toda e qualquer moeda nacional. Isso é mais importante para a geopolítica americana do que a bomba atômica. Representa a hegemonia de uma nação que emite (e é solicitada a emitir) dívida disputada por todas as outras nações. O Produto Interno Bruto (PIB) americano é um quarto do mundial, porém sua dívida desejada é lastro mundial. As emissões sucessivas de títulos do Tesouro americano confirmaram a inexistência de um ativo monetário de risco.

Quando explodiu a bolha, em 2008, quebraram bancos e houve a desvalorização substancial do patrimônio das famílias americanas, endividadas com lastro hipotecário de suas residências e imóveis de negócios. Apesar do imenso socorro do Federal Reserve (o Fed, banco central americano), os bancos americanos sobreviventes têm nos seus ativos mais de US$ 1 trilhão em papéis duvidosos.

Isso produziu duas mudanças de comportamento: as famílias americanas querem poupar e restringir o consumo, e os bancos não querem emprestar às famílias e aos pequenos e médios negócios. Dada a prevalência do dólar no monumental movimento cambial internacional, os bancos americanos estão se deslocando para ganhos em operações cambiais. A conduta poupadora das famílias americanas é o fundamento de uma crise de demanda mundial. Na zona do euro, os baixos juros, inspirados na Alemanha, levaram os bancos europeus a facilitar o crédito em euros em todas as dimensões.

Porém, a dívida soberana denominada em euros das nações europeias enfrenta também dois problemas: o Banco Central Europeu (BCE) não é o Fed e não absorve esses papéis. Com a crise de demanda, as economias europeias foram afetadas e os elos nacionais mais fracos começam a quebrar (Grécia, Irlanda, Portugal e outros), o que reduz a confiabilidade nos bancos europeus. Toda a zona do euro está em crise.

A economia japonesa está soldada à chinesa (mais de 50% do comércio exterior japonês é com a China). A China está monetariamente soldada aos EUA - tem a maior parcela de títulos do Tesouro americano. As filiais americanas atuantes na China (mais de 3 mil) completam o elo do G-2.

Os US$ 600 bilhões do presidente Obama, bem intencionado em reativar a economia, irão alimentar um processo monetário internacional doente e cada vez mais consciente dos riscos dos ativos em dólar, porém sem saber o que colocar no lugar.

A crise de demanda mundial irá atingir o Brasil. Nós não fazemos o controle dos investimentos estrangeiros no Brasil. Foi nossa política atrair capital cigano com a oferta de juros elevados; acumulamos grandes reservas de dólares e não fizemos investimento público na escala necessária para elevar a pífia taxa de 18% de investimento em relação ao PIB. Estimulamos o rentismo empresarial e um endividamento familiar maciço.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem o mérito de repor em discussão a questão do investimento em infraestrutura como chave para a sustentação da economia. Porém é quantitativamente insuficiente e tem tido uma implantação administrativamente difícil e financeiramente curta. No momento, informa a imprensa, os restos a pagar superam em muito os investimentos do PAC em 2010. Somente 22% do autorizado a ser dispendido em projetos em 2010 foram gastos. Dos R$ 32 bilhões autorizados para o corrente ano, dos restos a pagar de 2009 (R$ 26 bilhões), foram pagos 11,6%. Entretanto, ainda faltam ser pagos cerca de R$ 14 bilhões de gastos do PAC em 2009.

É fácil compreender porque a presidente eleita já sinalizou a reinstalação da CPMF. Além do mais, é visível que a inflação tem crescido, apesar da política paralisante de juros altos: entre 1995 e 2008, a inflação no Brasil superou a média mundial.

O retorno dos grandes bancos sobre o patrimônio líquido está na faixa de 25% ao ano. Esse desempenho bancário não é pró-crescimento de emprego e renda, o que condena, a longo prazo, a política de endividamento familiar. Uma elevação robusta do salário mínimo real ajudaria a sobrevida da bolha brasileira, porém o atual governo vê com preocupação fiscal a elevação salarial implícita no debate sucessório.

O Brasil tem que adotar controles de entrada de capital estrangeiro especulativo. E tem que estimular o investimento privado por uma ampliação significativa do investimento em infraestrutura. É necessário colocar um freio em um endividamento familiar perigoso, que deveria ficar circunscrito à compra da casa própria e de matérias para a construção em mutirão.

A nova presidente tem que ter coragem de alterar a receita dos anos Lula. Façamos votos para que as emanações da crise mundial não tornem a vida da nova presidente e a dos brasileiros um inferno.


Carlos Francisco Theodoro Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES.

A era da tremenda incerteza

Li os dois principais livros do autor anos atrás, Built to Last e Good to Great são livros que permitem a visão macro-organizacionais da mesma forma que deixa claro como se interage e vence a ambiência imediata, regional e internacional para se conquistar e manter-se em um mercado.

A entrevista deixa claro como a visão de um pesquisador, anglo-saxão, tem dificuldade de entender a idiossincrasia do empresário e da realidade brasileira.

Vale conferir tudo o que este autor vier a publicar.


A era da tremenda incerteza
Jim Collins
Veja

O mais rigoroso analista econômico americano diz que as turbulências vão continuar e que os empresários brasileiros são os mais preparados para sair vitoriosos da crise

Se você só puder ouvir um único guru de negócios, ouça Jim Collins.
Essa é a opinião unânime dos maiores empresários do mundo que lhe pagam 60.000 dó1ares por uma palestra de 45 minutos. De cada vinte convites que recebe para falar, Collins recusa dezenove. Seu escritório fica em Boulder, no estado americano do Colorado, longe dos centros financeiros e industriais, nas franjas das Montanhas Rochosas, que ele escala desde a adolescência.

Os empresários que querem seus conselhos viajam até Boulder. Collins já publicou quatro livros sobre sucesso e fracasso de empresas, e vendeu 6,5 milhões de exemplares. O mais recente, “Como as Gigantes Caem”, saiu no Brasil pela Campus-Elsevier. Disciplinado, minucioso, não dá palpites nem faz futurismo. Suas opiniões são baseadas em extensas pesquisas de campo que ele próprio planeja e executa. Collins leva até oito anos para escrever um livro. O próximo mostra como os grandes líderes empresariais estão enfrentando os tempos atuais "de tremenda, tremenda, tremenda incerteza".

O capitalismo é sempre sinônimo de risco. O que há de peculiar nos atuais tempos de instabilidade?

Existem várias forças que contribuem para a instabilidade. O mundo está mais complexo e mais interdependente. As empresas não são as únicas forças globalizantes. Estamos nos globalizando em vários aspectos, nos bons e nos ruins, na cultura e na doença, por exemplo. Temos ainda a marcha contínua da mudança tecnológica na medicina, na eletrônica, na bioengenharia, na computação, criando coisas que nem imaginamos. Não há nada que sugira que esse processo vá parar. Por fim, no tempo da Guerra Fria, vivíamos em um mundo perigoso, com a ameaça nuclear, mas estável. Agora as turbulências são de múltiplas origens.

A maré baixa para todas as empresas igualmente?

Umas vão subir, outras vão descer. No mundo dos negócios, o ambiente é favorável para quem desenvolveu determinadas capacidades que vi muito bem representadas por empresários no Brasil, país que visitarei duas vezes, em 1995 e 1998.

Fiquei impressionado com a naturalidade e o relativo conforto com que eles lidam com a incerteza. Tratando-a não como exceção, mas como um dado da vida. Obviamente os brasileiros preferem trabalhar em um ambiente estável e de alguma previsibilidade, mas o que chamou minha atenção foi a resiliência deles, como se nunca entrassem em pânico. Diante do imprevisto, respiram fundo e tentam dar a melhor resposta possível. Os empresários americanos, em geral reagem de forma deferente. Na atual recessão, vejo com frequência empresas americanas paralisadas diante de situações que exigem reação rápida e respostas dramáticas. A incerteza é estressante, mas não pode ser paralisante.

Com base na impressão que trouxe das minhas visitas ao Brasil, acho que o poder de resistência e reação que os empresários brasileiros desenvolveram ao sobreviver a hiperinflação será um valioso ativo nestes tempos de tremenda, tremenda, tremenda incerteza em que estamos vivendo.


Brasil, Rússia, Índia e China, os Brics, em quais deles estão as melhores oportunidades?

Na Índia e no Brasil. Em parte, porque os dois países, cada um a seu modo, historicamente têm sido caóticos e incertos para os negócios, o que posiciona bem os seus empresários para os tempos que virão. Não é só isso. Os empresários dos dois países demonstram ter imensa energia, suas empresas valorizam a diversidade e nota-se neles um incrível desejo de aprender e adotar novas ideias. Os brasileiros são ainda melhores do que os chineses na arte de assimilar as ideias, os métodos e os processos mais eficientes de fora e adaptá-los às condições brasileiras.

Os indianos também aprendem rapidamente e tem um aparelhamento intelectual de padrão internacional.

Mas há outro aspecto relevante que faz Índia e Brasil sobressaírem no cenário mundial, a criatividade. Quando se junta a habilidade de lidar com a incerteza, a chama criativa, a probabilidade de sucesso aumenta muito.

 A paralisia diante do risco não explica o inigualável sucesso empresarial dos Estados Unidos, correto?

Correto. Os americanos têm qualidades extraordinárias, a mais notável delas, o arraigado espírito empreendedor. Quando eu lecionava empreendedorismo e pequenos negócios na Universidade Stanford, na Califórnia, sentia que falava coisas que caíam bem na alma dos alunos. Uma explicação para isso é que somos um país de imigrantes, de gente que deixou sua terra natal para começar do nada do outro lado do Atlântico. Minha família veio da Irlanda. A motivação de mudar de país, sem saber exatamente o que se vai encontrar e sem ter nada para recomeçar, é essencialmente empreendedora. Os imigrantes não vinham para começar uma nova empresa, mas para recomeçar toda uma vida.

O Brasil também é um país de imigrantes e, no entanto, não tem esse espírito empreendedor.

Nos Estados Unidos, a imigração somou-se a um outro fator: a facilidade com que se abre um negócio. Isso não é de hoje. Não é preciso pedir permissão a ninguém para abrir uma empresa. Ninguém poderá impedir você de acordar amanhã de manhã e resolver pegar metade de uma peça de sua casa e começar uma empresa. Em Stanford, lembro-me que Jim Gentes, fundador da Giro Sport Design, que me convidou para visitar sua empresa. Peguei o endereço e fui. Era a casa dele. No quarto ficava o estoque.
Na garagem, havia uma pequena linha de montagem. Ele estava fabricando novos capacetes para ciclistas, e muitas lojas de bicicleta já estavam vendendo o produto. Hoje, metade do mundo usa os capacetes criados por Gentes. É poderosíssima a ideia de que ninguém pode me impedir de abrir uma empresa na minha garagem.

Se o Brasil quisesse reproduzir esse espírito empreendedor, o que deveria fazer?

Em primeiro lugar, é preciso eliminar todo obstáculo para quem quiser começar uma empresa amanhã de manhã. Não pode haver papelada, burocracia, licença, coisas que atrapalham. Claro que, mesmo nos Estados Unidos, um pequeno empresário, se tiver empregados, terá de pagar imposto sobre a folha de pagamento, entre outras obrigações, mas não terá de pedir permissão a ninguém para começar. A segunda providência é criar mecanismos que sistematizem o processo de empreendedorismo: escolas de administração, capital de risco, investidores, fundos de pesquisa. O empreendedorismo não é uma questão de personalidade. É um processo sistemático e replicável, que pode ser ensinado a qualquer pessoa que tenha disciplina. Não é coisa exclusiva de visionários ou malucos aventureiros. Empreendedorismo se ensina. Em terceiro lugar, é necessário valorizar elementos de uma cultura em que a falência honesta seja respeitada. Nos Estados Unidos, se você agir corretamente, com ética e decência, mas sua empresa falir, tudo bem. Você não será criticado. Será elogiado por ter tentado caminhar com as próprias pernas. Celebrar a falência honesta é fundamental. Só não sei como se instiga isso numa sociedade.

Num país como o Brasil, com carga tributária alta, mão de obra desqualificada e leis trabalhistas restritivas, o que é mais importante para um empresário: a autoconfiança ou a humildade?

As duas são fundamentais, mas eu começaria com a autoconfiança, que não deve ser confundida com a do Super-Homem. Falo da autoconfiança como sinônimo da fé inabalável de que as coisas vão dar certo, e não do sujeito que se julga capaz de superar qualquer obstáculo.

A melhor ilustração é o que chama de Paradoxo de Stockdale, batizado em função do oficial americano Jim Stockdale, que passou anos num campo de prisioneiros na Guerra do Vietnã. Stockdale teve profunda influência na minha vida e no meu modo de pensar. O Paradoxo de Stockdale ensina que, de um lado, é preciso encarar os fatos, as dificuldades, sem rodeios. Por outro, é preciso ter fé absoluta, férrea, de que os obstáculos serão superados.

É o tipo de fé que Winston Churchill tinha em 1940, quando o mundo estava desabando ao seu redor e a Inglaterra estava só. Para quem perguntasse se a Inglaterra tinha chance de sobreviver, Churchill dizia que a pergunta estava errada, porque a Inglaterra não estava tentando sobreviver. Estava tentando prevalecer. A autoconfiança é essa combinação de reconhecer a dureza da realidade e conjugá-la com uma fé de Churchill. É uma visão mais nuançada, não a ideia grosseira do 1íder autocentrado e todo-poderoso.

Como identificar um líder?

O líder canaliza tudo para a causa, a empresa, o país. Para salvar a Xerox, Anne Mulcahy demitiu e fechou divisões que ela mesma criara. São decisões duríssimas. Como diz Darwin Smith, artífice do crescimento da Kimberly -Clark, se você tem câncer no braço, tenha coragem de cortar o braço fora.

Qual o seu conselho para quem quiser abrir uma empresa na garagem amanha de manhã?

Não confunda sua empresa com seu produto. A maioria dos seus produtos não vai decolar, mas isso não deve selar o destino de sua empresa. Logo depois da II Guerra Mundial, em 1946, a Sony começou a funcionar nas ruínas de um prédio bombardeado em Tóquio, e seu primeiro produto foi uma panela elétrica para fazer arroz. Não deu certo, mas a empresa seguiu em frente. Os oito primeiros produtos lançados por David Packard, o fundador da Hewlett-Packard, também não funcionaram. Os primeiros aviões da Boeing não foram bem-sucedidos e, por um tempo, os funcionários tiveram de trabalhar fazendo móveis, e não aviões. O primeiro filme de Walt Disney foi um fracasso. Seu produto pode fracassar, mas nem por isso sua empresa será um fracasso.

Quais são os maiores mitos sobre os empresários?

O primeiro mito é que são motivados principalmente pelo dinheiro. Gordon Moore e Robert Noyce, fundadores da Intel, não viviam calculando como maximizar o valor das ações. Viviam calculando como duplicar o número de componentes num chip semi- condutor e produzi-lo a um custo razoável, e assim revolucionaram o mundo. Os melhores líderes empresariais se movem quase do mesmo modo que os artistas. Eles querem criar, construir algo verdadeiramente excepcional, que tenha impacto no mundo. Steve Jobs, da Apple, é um exemplo. Fazer o iPad é como  pintar um quadro. É uma criação. O segundo mito é que os melhores empresários americanos são caubóis indisciplinados, franco-atiradores, que fazem apostas pesadas sem maiores reflexões, e que nossos melhores empreendedores são malucos criativos. Na verdade, eles são construtores, disciplinados e sistemáticos. Eles canalizam a motivação inovadora e criativa na construção de uma empresa, o que multiplica seu impacto.

Os malucos criativos não vão longe?

A criatividade serve para começar, mas, se o maluco criativo não tiver um lado de construtor, de organizador, ele ficará no meio do caminho. Sam Walton, fundador do Walmart, começou com uma loja de esquina. Após sete anos, abriu uma segunda loja. Depois, mais sete. Em 25 anos, tinha centenas de lojas. Era disciplinado e sistemático.

Sam Walton dizia que tinha a personalidade de um promotor de vendas e de um criador, mas a alma de um operador. A habilidade de operar, de construir, de organizar um sistema é que o levou tão longe. Não se fala muito disso porque é chato, requer disciplina, paciência, esforço, mas essa é a verdadeira história do sucesso americano.

Na sua opinião, qual a melhor empresa da história do capitalismo?

Procter & Gamble ou Johnson & Johnson. Ambas têm um histórico excepcional de crescimento, criação de uma cultura própria, de evolução, e tudo durante longo tempo. A Procter & Gamble foi fundada em 1837 e está hoje, mais de um século e meio depois, no auge. É formidável.

 As empresas longevas não são um contra-senso a luz do conceito da "destruição criativa"?

É inevitável que, com o tempo, a maioria das empresas acabe falindo, mas não é necessário que isso aconteça. Pelo menos num período de 100 a 200 anos. Depois disso, não sei dizer. Nesse período, uma empresa deve infligir a destruição criativa sobre si mesma, renovando-se. E evitar que a destruição criativa seja infligida sobre ela. Mas, de um jeito ou de outro, o capitalismo avança.
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Reforma política, por onde começar

GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE SÃO PAULO

O mantra volta a ser entoado: a "mãe de todas as reformas" será a bola da vez no jogo político de 2011, que terá no meio do campo o goleador Lula, com prestígio e tempo disponível de um ex-presidente da República para conseguir o gol que tanto se persegue. Dá para apostar na promessa? Em se tratando de reforma política, a distância entre discurso e prática equivale à que separa o Polo Norte do Polo Sul. Entre as razões para a descrença, aliás, as mesmas que justificam a tênue viabilidade de ampla reforma tributária, apontam-se as perdas dos atores envolvidos nos lances. A reforma não é feita porque ninguém quer perder. E por onde deve começar uma reforma política? Se for pela via do sistema de voto, a complicação comporta desde a definição de sua tipologia - distrital, puro ou misto - até o estatuto da cláusula de barreira, dique para sustar a avalanche de siglas. Alterar apenas o item que recebe maior consenso entre os atores, como o financiamento público de campanha, é um risco, eis que pode gerar polêmica e se transformar em bumerangue, ante a possibilidade de uma enxurrada de críticas sobre interesses específicos dos políticos.

Por que não começar a desembrulhar o pacote pela régua do equilíbrio entre os Poderes? Esta abordagem, apesar de não atrelada ao painel reformista, dele poderá fazer parte sob o entendimento de que parcela ponderável das mazelas no entorno da política se deve à interferência maléfica de um Poder sobre o outro, particularmente a invasão do Executivo sobre o terreno legislativo. Nesse caso, trata-se de administrar a índole avassaladora do presidencialismo, tornando-o menos voluntarista no plano das ações governamentais e ajustando-o ao molde concebido por Montesquieu na tripartição dos Poderes. A tese que se pretende esboçar é a de que a correção de rumos de nossa democracia representativa, antes de nova configuração dos organismos que a definem e a compõem - organização e funcionamento de partidos, escolha de candidatos, sistemas de voto, processo eleitoral, conduta dos agentes públicos em campanhas, etc. -, há de considerar um alinhamento no plano funcional dos Poderes. Se a relação entre eles tem rompido o fio constitucional da harmonia, independência e autonomia, por conta da apropriação de funções legislativas pelo Executivo, qualquer projeto de reforma política será capenga se não considerar tal fato.

De pronto, a pergunta emerge: o que e como fazer para amainar a fome pantagruélica do nosso presidencialismo? O primeiro passo foi dado pela interpretação sistêmica do presidente da Câmara, deputado Michel Temer, à questão das medidas provisórias. Nem todas trancam a pauta. Outra orientação: ajustar os buracos do cinturão econômico dos entes federativos, tornando-o mais compatível com suas demandas. O fator econômico ordena a disposição no tabuleiro da política. Quem tem mais cacife fala mais grosso e detém maior poder de barganha. Vamos ao dado fundamental: a União fica com 60% dos impostos arrecadados e apenas 16% vão para os municípios, enquanto os Estados embolsam 24%. A inferência é óbvia: se não houver repartição da fatia do bolo tributário, o Executivo continuará a encurtar e alongar (de acordo com suas conveniências) o cabresto dos "animais políticos" que procuram sua roça. A reforma fiscal apresenta-se como a primeira barreira para deter a força descomunal do presidencialismo. Se municípios e Estados forem menos dependentes do poder central, terão melhores condições de se livrar do grilhão do fisiologismo. Só assim o Poder Legislativo não seria tão refém do Executivo e este, por sua vez, atenuaria suas funções legislativas.

Tal modelagem, para ser viável, deverá estar à margem da reforma tributária, que exige maior complexidade. A redistribuição do bolo, atendendo a critérios de responsabilidade, encargos, justiça e equidade, contaria com ampla cobertura social e significativo apoio político. Neste ponto aparece mais uma resposta ao desafio de arrefecer o toque imperial da orquestra presidencialista: a organicidade social. Entidades multiplicam-se por todos os lados, a denotar a forte capacidade de organização da sociedade. A miríade de associações, sindicatos, federações e movimentos aponta para o desenvolvimento de novos polos de poder, na esteira da democracia participativa, em ciclo de expansão. Vale lembrar que o Projeto Ficha Limpa é típica manifestação do clamor coletivo. Pois bem, as 300 mil entidades organizadas no País deverão assumir papel de maior relevo nos horizontes do amanhã. Mais um sinal nessa direção é dado pelo índice que mostra a intenção dos cidadãos de participar do processo eleitoral mesmo se o voto fosse facultativo: 72% do eleitorado, segundo as pesquisas, compareceria às urnas. Há nessa disposição um reconhecimento das políticas públicas bem-sucedidas.

Nesse cenário, vislumbra-se o terceiro argumento para apostar no alinhamento entre os Poderes. Percebe-se uma corrente de racionalidade banhando vontades, inspirando atitudes, mobilizando grupos. A sociedade faz-se mais presente na cena política, bastando examinar os bancos de discussão nas redes sociais da internet ou as colunas de opinião de leitores de jornais e revistas. Deve-se registrar, ainda, o deslocamento para as laterais do mando do último dos nossos perfis carismáticos. Lula sai do centro do palco. Poderá até continuar afinando o tom da orquestra. Pesa sobre ele, porém, a lição de Heráclito de Éfeso: "Ninguém se pode banhar duas vezes nas mesmas águas do mesmo rio." O fluxo das águas tem o condão de mudar a história de cada pessoa. Sua nova vida, mesmo que ele detenha formidável poder pessoal, significará ajustes de foco na fisionomia institucional. Menor influência de um perfil carismático reduz riscos de desvios no percurso democrático.

Fica patente a ilação: um bom exercício para reformar a política começa com a redução da força do superpresidencialismo.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP, CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

A repartição

LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO 

Com quase 80 anos, Paul McCartney tem a cara lisa. Não sei como está a cara do Ringo, o outro Beatle vivo, mas supondo-se que ele também não aparente a idade, e comparando-se a cara dos dois com a dos Rolling Stones, pode-se especular que tenha havido um acordo entre as duas bandas. Em algum momento do final dos anos sessenta os Beatles e os Stones teriam se encontrado em segredo para dividir o mundo e decidir o destino de cada um. Caberia aos Beatles fazer as melhores melodias e sofisticar o rock com álbuns temáticos como o Sargent Pepper’s, aos Stones se manterem fiéis ao “backbeat” básico e serem a versão bandida dos Beatles. Também teriam escolhido o público que queriam e estabelecido qual seria a longevidade de parte a parte e o que caberia de tragédia e de glória a cada lado. Mas principalmente teriam feito a repartição das rugas. Os Stones ficariam com todas e em troca durariam mais. Os Beatles envelheceriam melhor ou, como no caso do John e do George, nem envelheceriam. De qualquer maneira, nunca teriam rugas. Em compensação durariam menos.
O dramaturgo inglês Tom Stoppard (que se parece um pouco com ele) contou que certa vez lhe disseram que Mick Jagger tinha aquelas rugas todas de tanto rir, ao que ele retrucou que nada poderia ser tão engraçado assim. Já as rugas do Keith Richards são claramente as marcas de uma vida vivida aos extremos. Richards provou de tudo, entre secos, molhados e com duas pernas. E sobreviveu para contar: sua autobiografia, chamada apenas Vida, acaba de sair. Num trecho reproduzido na resenha do livro recentemente publicada pela revista New Yorker ele conta que às vezes viajava nas drogas com o John Lennon mas que Lennon não conseguia acompanhá-lo. Depois de tomar e cheirar o que havia, muitas vezes durante dias, ele estava pronto para trabalhar enquanto o John invariavelmente acabava no banheiro, segundo ele, “abraçando a porcelana”.
Mas a quantidade de rugas na cara de Mick Jagger, Keith Richards e os outros Stones não se explica apenas pela passagem do tempo. Elas acumulam funções, são as rugas deles e as rugas que os Beatles não tiveram. Estava tudo combinado.
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Decisão tomada no passado

Grato Marina Almeida
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Devan Manharlal
Muitas vezes culpamo-nos por ter tomado uma decisão errada no passado.
Uma decisão é tomada na base de informação que temos a nossa disposição e sob influência de outros factores* que nos rodeiam naquele instante. Sendo assim, hoje podemos achar absurdo ou errada a decisão tomada no passado, mas não devemos esquecer que no momento em que foi tomada essa decisão os factores que influenciaram a mesma são diferentes dos fatores que temos hoje e que nos faz pensar o contrário. Assim, não devemo-nos culpar por uma decisão tomada no passado só porque hoje achamos que ela esta errada, E da mesma forma ao tomar uma decisão hoje, temos de admitir que esta decisão num momento diferente deste e com outros factores podia ser diferente. Mas claro neste momento e com os factores que temos a decisão certa é a que estamos a tomar.
Como escolher uma decisão perfeita? Esta pergunta se tivesse resposta todos estaríamos felizes na vida.
Como evitar que algum dia arrependemos da decisão tomada? É difícil controlar este sentimento, mas podemos evitar este tipo de pensamento de seguinte maneira:
Quando temos que tomar uma decisão quer dizer que temos duas ou mais opções e cada uma leva a caminhos diferentes. Ao escolher um caminho, tomamos uma decisão que naquele momento achamos certa e o que temos de fazer em diante é seguir o caminho escolhido e esquecer os outros caminhos possíveis. Na verdade o que faz nos arrepender da decisão tomada é: "se tivesse escolhido o outro caminho as coisas seriam diferentes".
Este pensamento surge num momento diferente do momento em que tomamos a decisão e claro os factores que influenciaram nestes dois momentos são diferentes e, hoje a informação disponível é mais rica que ontem, no mínimo hoje sabemos onde nos leva o caminho escolhido mas ontem quando tínhamos que tomar a decisão não sabíamos onde os dois caminhos iam dar nem os obstáculos que podíamos encontrar. Por isso não é correcto culpar-nos por uma decisão tomada no passado.
"Os fatores que podem influenciar uma decisão são vários, podendo ser possibilidade financeira, laços familiares, tempo e recursos disponíveis, pressão sobre o momento, ambiente em que se vive, responsabilidade pessoais, desejos, sonhos, ... cada um destes factores consegue influenciar directa ou indirectamente numa decisão."
Enviado por Devan Manharlal
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