quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O pensar e o repetir

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Ignez Martins Tollini - Correio Braziliense - 07/10/2010

Houve um tempo no qual os alunos eram obrigados a copiar, várias vezes em seus cadernos, frases relacionadas com assuntos ensinados em sala de aula. O professor agia assim para que o aluno memorizasse o conteúdo das frases. Tal método de repetição levava o aluno a gravar em sua mente ideias ou comportamentos considerados adequados. O mesmo acontecia com a memorização de poesias, prática também muito usada na época. Alunos que tinham dificuldade de repetir o que liam ou ouviam achavam essa prática um verdadeiro sofrimento.

Nessa mesma época, havia o desafio das composições. Então, quem sofria eram os alunos que não gostavam de organizar ideias, defender argumentos, criar algo que ainda não tinha sido dito por outros. Em suma, nos primórdios do século 20 o pensar e repetir eram comumente usados na educação escolar.

Fora da escola, o mundo ocidental avançava novas ideias em moldes bem distintos. De um lado, os vencedores da Segunda Guerra Mundial introduziam modernidades nunca imaginadas pelos velhos países europeus. Enquanto isso, a Alemanha, por exemplo, tentava se livrar do poderio nazista. Anos após a derrubada do muro de Berlim, em 1989, os alemães ainda guardam a memória do dogmatismo de uma ideologia que varreu a Europa e deixou a recordação do horror próprio de ditaduras sanguinárias.

Na parte oriental de Berlim, um edifício majestoso mostra como os jovens da Alemanha eram enganados pelo carisma maléfico de Hitler. Na entrada do prédio, a gravação dos gritos e a figura aterrorizante do Füher, em um de seus inflamados discursos, provocavam pavor. Assim, ele influenciava as multidões com sua voz estridente e seu olhar penetrante. Convencia os que o ouviam pela repetição contínua de frases de efeito. Poucos deviam perceber que ele era o próprio mal. O método da repetição foi usado para dominar a mente de jovens e levá-los à dolorosa experiência do nazismo.

Em outra experiência que o mundo passou, a repetição foi também arma de impor o pensamento único e evitar o pensamento individual. Aconteceu na Bielorrússia, a partir de 1917, com a revolução comunista de Lênin. Décadas depois, na cidade de Minsk, capital da Bielorrússia, o local de nascimento de Lênin, a doutrina do líder comunista ainda estava viva e contínua. Eram os anos anteriores à abertura do país para o mundo. As pessoas ainda viviam sob a pressão de excessivo autoritarismo. Estrangeiros não podiam sair sozinhos nas ruas e em todos os lugares os monótonos discursos de Lênin se repetiam infinitamente. Folhetos sobre a vida do líder comunista aguardavam os visitantes nos aeroportos. Visitas a locais de interesse eram acompanhadas por pessoal designado pelas autoridades locais.

Nas escolas, professores utilizavam grandes álbuns, presos em cavaletes, para mostrar e explicar cenas tidas como importantes para o aprendizado dos alunos. Enquanto viravam as folhas do grande álbum, os alunos permaneciam calados. Cenas da guerra da Bielorrússia com a Alemanha, algo considerado importante para ser lembrado pelos alunos, se repetiam. Nas portas dos banheiros das escolas, o retrato de Lênin estava presente. Os discursos desse antigo líder eram apresentados continuamente nos rádios, uma experiência máxima da técnica de repetição. Visitantes provenientes de países democráticos sentiam-se aliviados ao deixar o país e recuperar o direito de, pelo menos, respirarem como lhes conviessem. A supressão dos direitos individuais de pensar e expor seus pensamentos estavam em suas últimas décadas, embora todo o aparato governamental ainda não anunciasse essa novidade.

As duas experiências, da direita e da esquerda, fracassaram. A Europa livrou-se desses dois extremos. Por sua vez, os alunos de hoje já não são obrigados a repetir frases em seus cadernos. Contudo, ainda existem resquícios dos males da repetição e da falsa divisão do pensar da direita e do pensar da esquerda, esses esqueletos do passado. Educadores e políticos que ainda se apegam a esses símbolos do atraso, ao quererem doutrinar política e ideologicamente alunos em sala de aula, deveriam ser convidados a visitar os escombros de um tempo que felizmente ficou sepultado no passado. Os que hoje tentam ressuscitar o mal de ontem, com palavras sedutoras dirigidas aos jovens, deveriam ser tratados como cadernos de repetição de frases colocados nos museus da educação.

Ignez Martins Tollini
Mestre em educação brasileira pela UnB, Master of Sciences in Education (Universidade de Purdue, Indiana, Estados Unidos), Ph.D. in Education (Universidade de Londres, Reino Unido)

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