quarta-feira, 18 de novembro de 2009

INSEGURANÇA POR LIDERANÇA OMISSA E SOCIEDADE SEM FIBRA


INSEGURANÇA POR LIDERANÇA OMISSA E SOCIEDADE SEM FIBRA
General da Reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva


Foi comandante e é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército


A segurança pública deixou de ser um problema nacional. Problemas são desafios que podem ser vencidos com recursos, estratégias e vontade política compatíveis com situações de normalidade ou anormalidade que não ameacem o Estado e a Nação. Hoje, o que ontem era apenas um problema transformou-se em ameaça visível na falência do Estado e de suas instituições em áreas do território e amplos setores da vida nacional. A neutralização de ameaças requer mobilização de recursos extraordinários, novas e corajosas estratégias, firme propósito da Nação de suportar sacrifícios e uma valorosa liderança.


O cenário desolador da segurança pública tem outras causas, mas muito a ver com a omissão e o populismo de sucessivos governos da União e dos estados nas últimas décadas, que abdicaram da autoridade e energia pelas quais deveriam primar como delegados da Nação, e transformaram tolerância em leniência ao adotarem conceitos distorcidos de direitos, deveres, justiça social, liberdades individuais e direitos humanos, alinhando-se ao modismo do politicamente correto – fachada da covardia moral. Mas não foi só isso! A crise de valores, que enfraquece a sociedade e desmoraliza a liderança do País, também favoreceu a expansão horizontal e vertical da criminalidade, hoje instalada em altos escalões da República, órgãos de segurança e amplos segmentos da sociedade por meio da corrupção, do amedrontamento e da impunidade.


Quando a violência explode em centros urbanos, o debate tende a valorizar o combate ao braço armado da criminalidade, imagem visível da ameaça. Manifesta-se, então, o anseio pelo emprego das Forças Armadas (FA) na segurança pública, por desconhecimento de que não basta o reforço ao aparato repressivo para neutralizar a criminalidade. A força da bandidagem aparece nas ações das quadrilhas, mas seu centro de gravidade está em um nível acima do ocupado pelas gangues, de onde vem o grosso dos recursos financeiros para manter seu poder de fogo. Nesse nível superior ocorrem os crimes do colarinho branco, a lavagem de dinheiro e a corrupção e estão organizações poderosas e pessoas influentes, bem relacionadas e detentoras de posições de relevo, que a liderança nacional não combate por omissão ou conivência. Há, ainda, um nível inferior onde está a fonte dos recursos humanos incorporados às quadrilhas por pressão ou influência da marginalidade, ao viverem em áreas por elas dominadas. Na realidade, são vítimas do poder da criminalidade, da omissão e do abandono do Estado.


O combate ao nível superior exige vontade política e ações de inteligência e repressão conduzidas pelo Ministério da Fazenda, Polícia Federal, GSI, Banco Central e ministérios públicos. No nível inferior, são necessárias medidas preventivas e de apoio social por órgãos e agências de governo ou particulares, buscando a inclusão social e o afastamento das famílias do poder e influência da bandidagem. O enfrentamento do braço armado requer operações de inteligência e repressão pelos órgãos de segurança pública, que saneados, despolitizados e modernizados dispensariam o emprego das FA.


É imprescindível uma estratégia de âmbito nacional, rigorosa e imune a pressões ideológicas, utópicas e demagógicas, a ser conduzida por uma secretaria ligada ao presidente da República, chefiada por um juiz federal do mais alto nível e sem vinculação partidária. Estratégia apoiada numa lei específica de combate ao crime organizado, que assegure amparo jurídico especial às investigações e às operações e eficácia e rapidez à aplicação da justiça. A lei teria vigência determinada, aplicação fiscalizada por instância superior e os delitos nela enquadrados teriam processos jurídicos distintos dos de outros crimes. A secretaria centralizaria as ações, quando necessário, tendo um general-de-exército do Ministério da Defesa agregado ao seu mais alto escalão decisório. Este último, contando com uma assessoria jurídica, coordenaria o emprego das FA com os comandos militares de diferentes áreas, os quais enquadrariam todos os órgãos estaduais e federais envolvidos, constituindo pequenos grupos de operações e inteligência mistos. Operações com tropas seriam eventuais e temporárias quando a situação extrapolasse a capacidade dos órgãos estaduais.


O emprego das FA nesse conflito é uma grave decisão, que uma vez tomada não admite insucesso, devendo-se ter consciência da violência dos confrontos. Sem ações simultâneas nos três níveis mencionados e a lei especial anteriormente abordada, bem como um choque de valores para reverter a decadência moral da sociedade, o emprego das FA será uma medida inócua, que comprometerá sua credibilidade, debilitará decisivamente o Estado e levará ao colapso a paz e a coesão social.


A ameaça é real, evolui perigosamente e sua neutralização exige medidas excepcionais, pois o desafio é reverter um conflito interno em que o Estado vai sendo derrotado em diversas áreas do território nacional. Infelizmente, haverá efeitos colaterais para a população, porém a continuação de medidas paliativas, de estratégias equivocadas, da apatia da sociedade e da omissão da liderança nacional poderá resultar na perda de relevância, autoridade e protagonismo do Estado e, perigosamente, na descrença em seu modelo democrático de direito.


Lamentavelmente, ao avaliarmos a conduta da liderança nacional em questões de ordem moral e ética, como nos escândalos em altos escalões da República, podemos concluir que ela é incapaz de conduzir estratégias que exijam coragem e independência ideológica para assumir responsabilidades, credibilidade para mobilizar a Nação e patriotismo para colocar os interesses brasileiros acima dos partidários e pessoais.


Recursos existem, mas faltam estratégias eficazes, vontade nacional e liderança de valor, condições necessárias para vencer a ameaça.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Duas imagens que diferenciam o Brasil dos EUA

A matéria foi enviada pela amiga Neves.
Aproveito para fazer um breve comentário sobre nossa idiossincrasia latino-americana e, em particular, brasileira.


Duas imagens que diferenciam o Brasil dos EUA

Duas imagens recentes mostram como o Brasil e os Estados Unidos reverenciam o poder de formas diferentes. Ou como o poder gosta de se apresentar para a população.
A primeira, dos EUA, foi publicada pelos jornais em um domingo (11.out.2009). Mostra o presidente norte-americano, Barack Obama, reunido com sua equipe. É de autoria de Pete Souza, fotografo da Casa Branca, e pode ser vista parcialmente abaixo:








A outra imagem é de 16.out.2009, no sertão de Pernambuco. Mostra um tapete vermelho sendo estendido para a chegada do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. De autoria de Evelson de Freitas, a imagem está reproduzida parcialmente abaixo:




Qual é a diferença entre as duas fotos?

Na reunião do presidente dos EUA, várias pessoas Obama inclusive - usam canetas esferográficas ordinárias. À mesa, garrafinhas de plástico com água. Algumas pessoas têm à sua frente aqueles indefectíveis copos de papelão tampados. Há assessores com latinhas de refrigerantes, sem copo. Em resumo, nada daqueles garçons com paletós brancos servindo cafezinho e água em louça personalizada como ocorre em toda a Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Na segunda foto, a imagem é autoexplicativa. A cena estapafúrdia parece ter saído de um livro de realismo fantástico escrito por Gabriel García Márquez. Um tapete vermelho para o presidente naquele ambiente.
Em resumo, a forma como o poder é tratado e se apresenta é um traço marcante do caráter e do estado de espírito de um país. 
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Eu vejo de duas formas este fato.
Primeiro a formação social americana deriva de colono, sozinho no meio do nada sendo responsável pelo desenvolvimento daquele país, onde ele era obrigado a ter uma forte noção do público, da coisa pública. Ou ele participava de reuniões do tipo "condomínio" nas aldeias e vilarejos e ajudava a deliberar, via votação, a destinação dos recursos vindos da Inglaterra ou não recebia os seus recursos e financiamentos dificultando-o de sobreviver. Assim, ele é o ícone do povo americano e o trato de coisa pública e a noção do coletivo é muito forte naquela sociedade.

Eu assisti algumas reuniões com autoridades em Washington e eles se portam desta forma que se apresenta na foto.




Segundo, o nosso herói era aquele que tinha ligações políticas com a Coroa Portuguesa e seus prepostos. Os eleitos, os "pêxes", os escolhidos ungidos pelos políticos representantes da coroa. Este era quem o cidadão brasileiro, em seu nascedouro, almejava ser. Assim, o individualismo prevalecia e prevalece no pensamento do cidadão. Da mesma forma, ao chegar ao poder quer ser tratado como autoridade. Não só o presidente, mas qualquer um de nós. O livro A cabeça do Brasileiro deixa isto muito bem claro, bem como os trabalhos do antropólogo Roberto DaMatta, que eu sugiro a leitura.
Com este tipo de pensamento, comum a muitos de nós, dificilmente chegaremos a ser a quinta economia mundial.




domingo, 15 de novembro de 2009

O hábito faz o leitor




Bem, já usei e ainda tenho o e-reader da Sony e, de fato, ocorre o que esta pesquisadora diz.
Como gosto de fazer anotações, discutir com o texto e sublinhar passagens e partes importantes para refletir, fica difícil fazê-lo em um e-reader.
Da mesma forma fica também difícil manter a página, consultar a referência bibliográfica ou notas de fim de livro ou gráficos e tabelas que estejam em páginas diferentes.
O que vi nos EUA era que a maioria das pessoas liam romances ou coisas leves.


O hábito faz o leitor

A americana Maryanne Wolf é uma das maiores especialistas na área da neurociência que estuda os efeitos da leitura no cérebro, tema sobre o qual já escreveu mais de uma dezena de livros. Hoje, ela se dedica a entender, cientificamente, como as pessoas assimilam conhecimento por meio de novas tecnologias, como o e-book. De Boston, onde comanda um centro de pesquisas na Universidade Tufts, Maryanne falou à repórter Renata Betti.
Suas pesquisas indicam que ler um livro digital não é o mesmo que no papel. Por quê? 
A observação sistemática mostra que, 
com o e-book, as pessoas tendem a acelerar o ritmo de leitura e a absorver menos conteúdo. Isso porque a tela remete à ideia de que é preciso vencer etapas a cada instante, antes que a bateria termine ou que se perca a conexão. Ainda faltam, no entanto, evidências baseadas na neurociência, como as que já existem sobre a internet.
O que já se sabe sobre a leitura na rede? 
Ela é mais superficial, segundo revelam as imagens dos neurônios quando alguém está diante do computador. As fotos mostram, com nitidez, que o circuito formado entre as áreas do cérebro envolvidas na leitura não chega, nesse caso, àquela região em que ela seria processada de maneira mais analítica.
Por que isso acontece? 
A internet provê um excesso de estímulos que acabam atrapalhando. Enquanto você lê Shakespeare, não param de aparecer na tela pop-ups e e-mails. É naturalmente difícil manter a concentração e fazer uma leitura de padrão mais elevado, que abra espaço para um alto grau de processamento de ideias. A habilidade para ler deve ser treinada.
Como, exatamente? 
Simples: lendo todo dia. 
Não existe no cérebro nada como uma estrutura previamente concebida para a leitura – é preciso construí-la e aprimorá-la. Funciona como no esporte: quanto mais se pratica, melhor é o resultado.
Como a neurociência explica a formação de tal estrutura no cérebro?
A repetição da leitura faz o cérebro desenvolver um circuito que passa a conectar, em questão de milésimos de segundo, três áreas distintas: a da visão, a da linguagem e uma que se encarrega de dar significado às palavras. Esse mesmo roteiro pode levar até 100 vezes mais tempo, caso a pessoa não tenha o hábito de ler. Seu cérebro fica tomado com a tarefa básica de decodificar o texto – e não consegue ir muito além disso.
Como alcançar um avançado estágio de leitura por meio das novas tecnologias? 
É preciso enfatizar à atual geração multitarefas que leitura demanda altíssima atenção e não é conciliável com nenhuma outra atividade. Feita a ponderação, novas tecnologias, como o e-book, são mais do que bem-vindas. Elas têm ajudado, afinal, a despertar o interesse pelos livros num momento em que isso nunca foi tão difícil.

Um erro e treze mortos



Os amigos que acompanham o que escrevo recordam-se que tenho alertado, há mais de dois anos, acerca da dificuldade e perigo que a sociedade americana se auto-impõe ao querer encarar, de forma humanística plena dos mesmos direitos, membros de uma outra sociedade que, por doutrina histórica, não reconhece direito de minorias, mulheres e crianças.
O afã de se mostrar ao mundo como politicamente corretos custará, ainda, muitas vidas aos americanos, inclusive, como neste caso, em casa.
Dado ao ímpeto e velocidade com as quais o fenômeno de imigração cresce nos EUA, em se mantendo tais posturas para se abordar o problema, eles correrão o risco de perderem sua identidade original e se desfacelarem em regiões dentro do próprio CONUS (Continental US).
Insisto aos amigos que gostam do tema Mudanças, a não deixarem de considerar em seus estudos e palestras, a questão da imig ração.
Bem, a reportagem da revista Veja, em si, é auto-elucidativa.
Vale a pena ler e acompanhar este tema.
http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/exercito-abrigava-terrorista-islamico-512380.shtml

Um erro e treze mortos
Paralisado pela correção política, o Exército americano ignorou sinais de que abrigava um terrorista islâmico e, depois da matança, ainda vacila em reconhecer o óbvio
Em um artigo publicado depois da II Guerra Mundial, no qual falava da esquizofrenia das sociedades democráticas, o inglês George Orwell escreveu que "para enxergar o que está diante do nariz é preciso um esforço constante". Na semana passada, na ressaca da matança provocada pelo major Nidal Malik Hasan na maior base militar dos Estados Unidos, o debate girava em torno de uma dúvida: o militar disparou a esmo e matou treze pessoas porque era lunático ou porque era um terrorista islâmico? As investigações não acharam indício de que o major estivesse a serviço de uma organização terrorista. Por isso, formou-se um certo consenso de que a tragédia só pode ter sido obra de um lunático, um homem psicologicamente esmagado pela pressão da iminente transferência para o Afeganistão, onde teria de lutar contra irmãos de sua própria fé - o islamismo. Está diante do nariz, mas a moléstia do politicamente correto parece impedir os americanos de enxergar as evidências clamorosas de que foi obra de um terrorista islâmico.
O major era abertamente contra a guerra no Iraque e no Afeganistão. Há um ano, munido de um PowerPoint, fez uma apresentação aos colegas sobre os conflitos cujo título era "Por que a guerra contra o terrorismo é uma guerra contra o Islã". Em junho, não escondeu a alegria quando um muçulmano atirou contra dois soldados num centro militar no Arkansas. Dizia que sua lealdade à sharia, o rígido conjunto de leis islâmicas, precedia sua lealdade à Constituição americana. Pior: manteve contato por e-mail com Anwar al-Awlaki, líder espiritual extremista cuja mesquita em San Diego, na Califórnia, era frequentada por dois terroristas do 11 de Setembro. Depois da matança em Fort Hood, no Texas, Anwar al-Awlaki, que hoje mora no Iêmen, disse em seu blog que Hasan era um "herói". Com essa biografia, Hasan deveria ter sido expulso do Exército, mas aconteceu o contrário: ele pediu para deixar a farda, e o Exército, tendo financiado sua formação acadêmica, não aceitou que partisse. Um erro que custou treze vidas.Primogênito de um casal de palestinos que emigrou para os EUA no começo dos anos 60, Hasan nasceu em Arlington, na Virgínia, formou-se em bioquímica e, contra a vontade dos pais, entrou para o Exército. Como oficial, fez medicina e especializou-se em psiquiatria. Era muçulmano, mas virou um devoto fervoroso depois da morte do pai, em 1998, e da mãe, em 2001. Frequentava a mesquita, aconselhava-se com o líder espiri-tual, lia o Corão, rezava cinco vezes ao dia e, aos 39 anos, era solteiro porque não encontrara mulher suficientemente pia para casar-se. Não é proibido ser militar e muçulmano ao mesmo tempo. Entre os 550.000 membros da ativa do Exército americano, 3.500 se dizem muçulmanos. Mas Hasan não era só um muçulmano. Era um muçulmano cuja crença estava contaminada pela paranoia de que os infiéis - ou seja, todos os outros - são contra o Islã.
Na tarde de 5 de novembro, Hasan entrou no prédio de exames médicos na base de Fort Hood. Sentou-se a uma mesa a sós, abaixou a cabeça por alguns segundos, levantou-se e descarregou a pistola enquanto gritava "Allahu akbar" - "Deus é grande", em árabe. Matou doze militares e um civil, entre 19 e 62 anos de idade, e feriu 29. Alvejado por quatro tiros, Hasan entrou em coma e recobrou a consciência no hospital dois dias depois. Será julgado num tribunal militar e está sujeito à pena de morte. O manual da correção política é a única explicação para que o Exército tenha ignorado sinais tão eloquentes da inadequação de Hasan ao serviço militar. É também a única explicação para que ainda se discuta o que motivou Hasan. Em ambos os casos, impera o temor de parecer preconceituoso contra muçulmanos. Daí saiu o salvo-conduto ao terrorista. Na terça-feira, no funeral, o presidente Barack Obama homenageou os mortos e afirmou: "Não precisamos olhar para o passado em busca de grandeza porque ela está diante de nossos olhos". Agora, só falta ver o que está diante do nariz.

sábado, 14 de novembro de 2009

Parabéns para nós, estamos com 120 anos de República

Amigos, é um excelente tema para o cidadão passar a refletir e se preocupar.
Vivemos, de fato, em um ambiente de República Federativa, onde os Estados, como entes de um conjunto de regras federais têm um certo grau de autonomia bem como de interdependência?
O nosso modelo de gestão da coisa pública condiz com uma República Federativa?
Se condiz, por que, então carecemos de uma reforma, a título de exemplo, tributária para que possamos ser mais eficientes no nosso desenvolvimento?
Se, da mesma forma, tal modelo é adequado, por que carecemos, de forma urgente, de uma reforma política que parece nunca vir?
Estamos adequados, estamos satisfeitos, você se sente plenamente representado?
Será que 120 anos, com tantos meios de comunicação disponíveis ao brasileiro ele vive democracia plena e participativa, de acordo com o que o modelo de República requer e demanda? Ou ainda nos portamos como democracia somente no ato do voto e terceirizamos a quem votamos, como os nossos contumazes procuradores, a solução de todo e qualquer problema social e econômico que nos aflige?
Enfim, é uma boa oportunidade de se buscar informações para se discutir.

INCIVILIDADE E RAIVA

O texto abaixo tem uma discreta referência a um problema recorrente na França. País precussor do humanismo onde os cidadãos de países que lhes são território ou colônia ultra-mar detêm direitos semelhante aos que nascem no continente, enfrenta antigas e sérias dificuldades de inclusão econômica e social dos imigrantes.
Houve um fato peculiar durante a copa de 1998 quando, próximo à partida final o presidente francês Jacques Chirac declarou que a taça não sairia da França.
Uma sutil, contudo, eficaz maneira de apaziguar os latentes e exaltados ânimos dos imigrantes que, via de regra, causavam incêndios e tumultos nas periferias de grandes cidades.
Para quem se lembra do jogo, Zinadine Zidane, capitão do time francês mas nascido na Argélia, era o símbolo máximo do imigrante que tinha dado certo. Coincidência ou não ele marcou dois gols decisivos, sendo que um deles, para quem se lembra, ele subiu, sozinho, no meio da zaga brasileira e marcou o segundo gol de cabeça quase sem sair do chão.
Enfim, esta ilação é apenas para se divagar um pouco, contudo, o assunto em pauta é um fato portador de futuro. 
Aos amigos que gostam do tema de mudanças sociais e empresariais, sugiro passarem a se antenar com relação a imigração e envelhecimento da força de trabalho. Será um tema palpitante nos próximos anos.


Não se contava com os vândalos
http://veja.abril.com.br/111109/nao-contava-vandalos-p-112.shtml


O sistema de bicicletas públicas de Paris, inaugurado há dois anos como um exemplo para as cidades do futuro, sofre com depredações e roubos constantes.
Renata Moraes
Samuel Bollendorf/The New York Times


INCIVILIDADE E RAIVA
Bicicletas de aluguel destruídas em Paris: alvo da revolta dos habitantes dos subúrbios pobres


Quando as populações de várias cidades europeias aderiram com entusiasmo ao sistema de aluguel de bicicletas públicas, em meados dos anos 90, vislumbrou-se uma possibilidade real de abrandar o caos urbano causado pelo trânsito. A implantação do sistema em Paris, em 2007, tornou-se símbolo de seu sucesso. O Vélib (de vélo, bicicleta, e liberté, liberdade) colocou em circulação 20 600 bicicletas distribuídas por 1 450 pontos da capital francesa. Por apenas 1 euro, pode-se alugar uma delas e deixá-la em outro ponto da cidade num prazo de até 24 horas. De imediato houve redução do trânsito e uma melhora da qualidade do ar. Dois anos depois, o programa enfrenta um problema que põe em risco sua continuidade: 80% das bicicletas já foram depredadas ou roubadas. Em outras cidades, como Barcelona e Copenhague, a porcentagem de depredação e roubo não chega a 10% da frota das bicicletas de aluguel. O prejuízo não é pequeno. Cada bicicleta do Vélib, fabricada especialmente para o sistema e com estrutura reforçada, custa 3 500 dólares.


Exemplares da frota roubada do Vélib já foram encontrados à venda no mercado negro do Leste Europeu e do norte da África. Outros foram abandonados em estradas, muitas vezes depois de ter as rodas retiradas. "Um índice de vandalismo no sistema de aluguel de bicicletas superior a 10% da frota só se explica pela ocorrência de problemas sociais", disse a VEJA o consultor americano Paul DiMaio, especialista em políticas públicas de transporte. Para os franceses, a destruição e o roubo das bicicletas têm como protagonista a mesma parcela da população que, em 2005, promoveu uma onda de incêndios em carros, prédios, escolas e repartições públicas. São moradores dos subúrbios pobres, muitos deles imigrantes com dificuldades de adaptação, que se sentem marginalizados pela sociedade. As bicicletas que integram o Vélib se converteram em alvo de seu ressentimento. Como a maior parte dos 400 quilômetros de ciclovias disponíveis em Paris está na região central e glamourosa da cidade, as bicicletas são associadas ao estilo de vida que eles chamam de "burguês boêmio". "Chegou o momento de usar o transporte alternativo também como forma de inclusão social, ou o sistema pode ficar inviável", disse a VEJA o sociólogo francês Bruno Marzloff, especialista em mobilidade urbana. Enquanto isso não acontece, a empresa concessionária do Vélib conserta 1 500 bicicletas por dia.

Véus islâmicos em debate: França proíbe vestimenta para funcionários públicos

Este tipo de notícia pode se chamar de fato portador de futuro, ou seja, um evento "perdido" que passe despercebido na mídia mas que carrega, em si, um denso significado.


Vemos que a França foi um dos primeiros países a intensificar os direitos humanos desde o início do século passado, tanto o é que era alvo constante das potências com tendências mais totalitárias. A liberdade de falar, ir e vir do francês sempre foi sagrado.


Agora vemos, na mesma sociedade que teve suicídios em uma empresa privatizada, uma forte pressão social para se resolver um problema de intensidade futura: a imigração.


As pessoas de origem muçulmana, capitaneada por origem turca mas com representação da maioria dos países do Oriente Médio e norte da África, serão os que preencherão as lacunas das atividades do perfil economicamente ativo francês de menor capacitação e de salários. Em função do envelhecimento da população e da facilidade das leis francesas para imigração comparadas as dos demais países.
Vale a pena acompanhar este tipo de evento.


Véus islâmicos em debate: França proíbe vestimenta para funcionários públicos


Antonio Jiménez Barca 
Em Paris (França)


O caso da advogada Zoubida Barik Edidi seria impensável na França, país onde impera o culto à laicidade mais estrito, considerado um dos pilares da República Francesa. Desse modo, é proibido por lei que os advogados ou juízes usem no tribunal signos religiosos visíveis. Também estão proibidos nas escolas (tanto para alunos como para professores) ou nas administrações públicas. O professor universitário Mohammed Moussaoui, que é imame e presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano, lembra também que alguns empresários podem "proibir que uma mulher use o véu na hora de atender em uma loja privada". "É algo comum que acontece aqui", critica. "O Conselho de Estado ditou há tempo que o proprietário de uma loja tem o direito de fazê-lo", acrescenta Moussaoui.


A lei a que ele se refere foi aprovada em março de 2004. Então, o governo de Jacques Chirac deu luz verde ao texto denominado "Em defesa da laicidade", que proibia o uso de símbolos externos religiosos nas escolas e centros públicos, considerada a mais restritiva da Europa nesse aspecto. Nascia de uma pergunta simples: o que fazer com as meninas muçulmanas que vão à escola de lenço na cabeça? Em um país que em 1905 já votou uma lei que separava a Igreja do Estado, que possui como bandeira inquestionável a laicidade, a controvérsia estava garantida. E isso que o número de afetadas era ínfimo: o Ministério da Educação calculou que entre os 12 milhões de alunos matriculados havia cerca de 1.200 garotas que iam à aula com hijab.


Mas nem então nem agora se falava tanto de porcentagens como de Estado laico (por parte dos defensores da proibição) e de liberdade (por parte de todos). Meses antes, 20 assessores do presidente haviam lhe recomendado um texto dirigido a erradicar "vestimentas e símbolos que manifestem uma pertinência religiosa ou política". Assim, véus islâmicos, solidéus judeus e "grandes cruzes" ficaram proscritos no ensino e nos centros públicos. A lei estipulava que os 5 milhões de funcionários públicos de então e demais agentes públicos deveriam observar um "respeito estrito do princípio de neutralidade" do Estado em matéria religiosa.


Nos hospitais, também se proibia recusar o pessoal de saúde. Desta maneira, extirpava-se a tendência de as mulheres muçulmanas exigirem médicas e enfermeiras de sua religião. Desde então o princípio se encontra assumido na França. Nas reuniões de pais de alunos em escolas primárias é sempre lembrada. Inclusive tende-se a ir além: atualmente, a Assembléia Legislativa francesa discute se deve ou não ser proibido o uso do niqab e da burca (vestimentas que cobrem integralmente o rosto da mulher ou que deixam à mostra somente os olhos).


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

Natureza pode absorver mais CO2 do que se imaginava

O intuito de se colocar esta reportagem é para se permitir, no futuro, uma consulta mais fácil, principalmente após os resultados de Copenhague, como também o de facilitar alguma eventual pesquisa.



Natureza pode absorver mais CO2 do que se imaginava

Der Spiegel
Christoph Seidler
  • O dióxido de carbono é o principal perpetrador da mudança climática e a maioria dos esforços para desacelerar o aquecimento global envolve a prevenção da produção de CO2 e auxiliar a absorção de CO2. Mas um novo estudo sugere que quanto mais CO2 produzirmos, mais a natureza absorve. Será que realmente precisamos de todas aquelas florestas tropicais?
Muitos cientistas agora se voltam para a tecnologia de captura e armazenamento de carbono como forma de afastar os piores efeitos da mudança climática. Com sua ajuda, o CO2 pode ser capturado antes de chegar à atmosfera -na usina elétrica a carvão, por exemplo. Os gases podem ser armazenados em depósitos de gás natural esgotados ou em rochas subterrâneas porosas. Eles podem ficar retidos por milhares de anos nas profundezas da Terra, poupando a atmosfera.

Apesar dessa tecnologia engenhosa ser um assunto popular para discussão, o fato da natureza já ter dominado essa mesma tarefa é frequentemente esquecido: as plantas, o solo e os oceanos -os chamados "ralos de carbono"- são todos excelentes absorvedores de gases do efeito estufa. "Quase 60% de nossas emissões são armazenadas nos oceanos ou no solo", disse Susan Trumbore, do Instituto Max Planck para Biogeoquímica em Jena, Alemanha, para a "Spiegel Online".

Muitos há muito pensam que esses ralos naturais de carbono em algum momento parariam de absorver o CO2 porque, entre outros motivos, águas mais quentes do oceano são incapazes de absorver tanto CO2 quanto as águas mais frias. Além disso, o derretimento do gelo permanente do Ártico ameaça liberar os gases do efeito estufa aprisionados lá. Numerosos estudos entre 1996 e 2006 indicaram que a eficiência dos ralos de carbono foi reduzida em todo o mundo. Mas agora, um estudo recém-publicado indica que o ecossistema pode absorver mais dos pecados da humanidade contra o clima do que se imaginava anteriormente.

Em um estudo publicado na revista "Geophysical Research Letters", Wolfgang Knorr, um cientista alemão da Universidade de Bristol, escreve que os percentuais de emissões de CO2 causadas pelo homem que chegam à atmosfera mais ou menos permaneceram constantes nos últimos 150 anos. Mesmo com a quantidade total de CO2 bombeada na atmosfera aumentando dramaticamente, a quantia aprisionada na atmosfera permanece em constantes 40%.

Quanto mais CO2 o homem produz, mais a natureza absorve
Em outras palavras, quanto maior o CO2 emitido pela atividade humana, mais, em termos absolutos, o mundo natural pode absorver. "É incrível como um sistema tão complexo pode fazer algo tão simples", disse Knorr à "Spiegel Online". De fato, sem esse mecanismo, disse Knorr, os efeitos do aquecimento global seriam muito mais aparentes do que são hoje. "O oceano e a atmosfera ajudam a prevenir a mudança climática de piorar", disse Wolfgang Lucht, do Instituto para Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK), para a "Spiegel Online". Ele elogia a nova análise por sua metodologia rigorosa e por estudar um período mais longo do que estudos semelhantes fizeram anteriormente.

Para chegar a suas conclusões, Knorr recolheu dados de duas estações que medem o CO2 na atmosfera, uma no Havaí e uma na Antártida. Ele então comparou essas medições aos dados da análise de dois núcleos de gelo que vieram do gelo antártico. Ele comparou esses números à quantidade de emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis, a manufatura de cimento e a destruição das florestas tropícais -e notou que, desde os anos 1850, as proporções permaneceram constantes.

Knorr não duvida que a quantidade total de CO2 na atmosfera aumentou substancialmente nos últimos 150 anos. Todavia, seus resultados foram surpreendentes e poderiam ingressar nas discussões no encontro de cúpula global sobre o clima no início de dezembro, em Copenhague. "Há várias pistas que sugerem que as estimativas de emissões, causadas pelo desmatamento das florestas tropicais, são altas demais", explicou o pesquisador. Lucht, o cientista do PIK, concorda, dizendo que nós simplesmente não sabemos quanta floresta foi destruída e quanto CO2 foi lançado na atmosfera em consequência do desmatamento.

Nós realmente precisamos de todas aquelas florestas?
Essa lacuna no conhecimento científico é vital. Os países em desenvolvimento há muito argumentam que a proteção das florestas deveria ser considerada uma medida de proteção climática -e exigem que o mundo industrializado os compense generosamente por seus problemas. Mas a falta de informação sólida sobre isso faz com que os países ricos odeiem entregar o dinheiro.

Ainda assim, Knorr é rápido em soar um alerta. "A capacidade das florestas tropicais de absorver CO2 é o menor de seus benefícios", ele diz, mencionando a rica biodiversidade encontrada nessas áreas. As florestas precisam ser protegidas, ele insiste, mesmo se o valor delas como ralos de carbono for menor do que antes estimado.

Para o próprio Knorr, sua pesquisa não muda nada no que se refere aos riscos apresentados pela mudança climática. "Até o momento, nada mudou, mas isso não significa que não mudará no futuro", ele diz. Trumbore, o cientista de Jena, concorda, dizendo: "A quantidade de CO2 na atmosfera está aumentando mais rapidamente do que nunca, porque estamos usando mais e mais combustíveis fósseis".

E Lucht do PIK também concorda que o estudo de Knorr muda pouco. "Ao longo do tempo, ficará óbvio que os ralos de carbono se tornarão menos eficientes. Em 2040, pelo menos, os dados ficarão mais claros. Mas àquela altura", ele alerta, "será tarde demais para fazer algo".


Tradução: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O Brasil real e Copenhague - Kátia Abreu


O artigo abaixo é muito elucidativo. De fato, a decisão unilateral do Min. Minc não ouve, como praxe na atual gestão do Executivo federal, todas as partes envolvidas.
De forma muito simplista tenho algumas dúvidas.
Se reclamamos de violência pensamos, e os acadêmicos de esquerda muito nos falaram disso, em desigualdade e exclusão.
Se pensarmos em inclusão social temos que pensar em empregos, geração de empregos, moradia, ir e vir de bens e de produtos, o que redundará em uma progressão na escala social, onde o próprio governo comemora a evolução da classe E para a D e C.
Dessa forma, se evoluíram terão direito a se alimentarem mais e melhor. Mais lavoura e pecuária. Mais desmatamento para se plantar, claro. Colocando-se, ainda, na equação as reservas ambientais e terras para os índios. De acordo com a ONU, para cada libra de carne de vaca ou de boi são necessários meio hectare de plantação. Imaginem alimentar as pessoas em inclusão social.
Se pensarmos em inclusão via geração de emprego, para aproveitarmos a enorme demanda da China, temos que considerar que 1,2 bilhões de pessoas, nos próximos dez anos, demandarão mais carne e cereais.  A Índia gira em torno de 600 milhões de pessoas. Exportaremos ou nos preocuparemos com desmatamentos?
Vamos, assim, ficar somente em nossos problemas domésticos. Temos uma demanda reprimida de 8 milhões de residências, o que permite que cerca de 24 milhões de brasileiros passem a ter um teto. O governo prometeu e nós temos esta esperança. Mas espere. Vamos pensar.
O cimento, a pedra, a brita, a areia, o prego, a madeira, o alumínio, todos formando uma casa vêm do chão, em baixo das árvores, portanto, desmatamento. Faremos as casas de quê então? Oito milhões de material reciclável? Fala sério!!!
E as ruas, de asfalto (petróleo) e brita, ou pavimento (brita, pedra e aderente (petróleo)? E os postes para iluminação (pedra e cimento) ou torres (alumínio) com fios de cobre e revestimento de composto de borracha e de resina (petróleo).
Quantos milhares de hectares estamos falando?
Bem-estar, inclusão social, desenvolvimento ou compromisso com metas ambientais?
Será que está faltando sensatez?
Enfim, é bom refletir e pensar na hora em que se sentir medo de sair nas ruas.
É um raciocínio bem simplista, mas se houvesse mais transparência neste assunto melhor seria. 


O Brasil real e Copenhague

Kátia Abreu




Alguém disse certa vez, com muita propriedade, que a guerra é um assunto sério demais para ficar a cargo apenas dos militares. O que isso certamente significa: a guerra é um processo não só complexo, mas abrangente, gerando consequências que afetam a vida econômica, social e política das nações. Querer reduzi-la aos aspectos militares é uma perigosa simplificação.

Penso que o mesmo raciocínio se aplicaria hoje às tormentosas e polêmicas questões da defesa do meio ambiente. Também aqui me parece justo dizer que essas questões são sérias demais para serem deixadas a cargo apenas dos ambientalistas e suas organizações particulares ou governamentais.

Todos temos consciência de que o crescimento demográfico e o aumento generalizado da renda e do consumo das populações dos países pobres e dos emergentes, além dos hábitos de consumo extravagantes das classes afluentes em todo o mundo, estão a exercer pressão perigosa ou até crítica sobre os recursos naturais. Há também consciência de que é preciso abrandar essa pressão e reverter as tendências destrutivas das últimas décadas.

O Protocolo de Kyoto foi até agora pouco mais que um conjunto de generosas intenções e a nova Conferência de Copenhague parece prestes a ser vítima dos mesmos erros. A decisão de cortar ou reduzir emissões de carbono não é escolha trivial. Ao contrário, trata-se de dolorosa opção econômica que implica a substituição de energia abundante e barata por fontes alternativas muito mais caras e tecnologicamente ainda inseguras e incipientes.

É inegável que uma forma de funcionamento da economia está sendo posta em questão e o preço da mudança recairá sobre todos, ricos, pobres e miseráveis. Trata-se, ainda, em alguns dos arranjos aventados, da contenção da expansão da produção de alimentos, justamente no momento em que a maior parte da população do mundo começa a ter pela primeira vez, desde o aparecimento do homem sobre a Terra, a oportunidade de se alimentar mais, melhor e com mais prazer.

São questões que precisam do equilíbrio, da abrangência de perspectivas e da capacidade de compromisso que só a política e as instituições da democracia representativa podem fornecer. Acontece que no âmbito do governo, sem nenhuma participação do Congresso, ou de outras instâncias, o Ministério do Meio Ambiente anuncia a redução de 40% de nossas emissões de carbono, afastando-se das cautelosas posições de nossos pares emergentes, como China e Índia, e ganhando em audácia até dos países ricos mais ecologicamente corretos.

É na esteira dessa frivolidade, pois é frivolidade ignorar o que isso significa em termos do interesse nacional, que o ministro, com os olhos voltados para Copenhague e desviados de nossa terra e de nosso povo, quer resolver a seu modo a grave questão que ameaça a nossa agricultura: a recomposição de cobertura original em parte substancial das áreas hoje em exploração produtiva.

Trata-se de exigência legal que não tem similar em nenhum país relevante do mundo e poderá causar redução de 20% a 30% da produção no campo. Além de injusta, uma vez que onera apenas um segmento econômico, em nome de um benefício que é coletivo, a lei é irrealista por lançar na ilegalidade milhões de produtores de alimentos, tornando-os criminosos ambientais.

Não queremos, no entanto, desobedecer à lei. Queremos, pelos processos previstos na nossa ordem constitucional, mudar a lei. Propomos abertamente a mudança do Código Florestal para dispensar os produtores da obrigação de recompor as áreas que exploram, com a exceção das áreas de proteção permanente - geralmente margens de cursos d"água - e outras áreas sensíveis.

Há quem chame isso de anistia. E nos acusa e condena por isso. Não há mal em que se chame essa providência tão razoável de anistia, porquanto nela estão incluídos uma grande maioria que agiu ao amparo da lei e outros que agiram com a condescendência geral do Estado. A anistia, o esquecimento ou o perdão por atos contrários à lei positiva, é praticada pelas sociedades desde os tempos mais remotos. Recorre-se à anistia sempre que o perdão é mais útil ou conveniente do que a punição.

As anistias quase nunca são um erro. São privilégio de sociedades maduras, civilizadas e que têm consciência de seus verdadeiros interesses. Portanto, se uma nova lei legalizar as áreas de produção rural, o que se deve perguntar é se essa é a melhor solução do ponto de vista do interesse coletivo. Ou se, ao contrário, seria melhor punir produtores de alimentos que se encontram desenquadrados em face da norma em vigor, mas que, de resto, são cidadãos corretos, produtivos e cumpridores da lei. Bons brasileiros, em suma.

O que estamos propondo não é um perdão puro e simples ou uma licença para desmatar. O que propomos é a consolidação das áreas de produção há longo tempo exploradas e incorporadas ao capital produtivo da Nação e, ao mesmo tempo, a reafirmação das normas de conservação e proteção florestal que vigorarão plenamente daqui para a frente, com o apoio de todos os agentes interessados. Isso é conservação com os olhos voltados para o futuro. O contrário disso é voltar o relógio da História e tentar recriar um ambiente natural que já não existe. O Brasil real não é uma paisagem cenográfica.

Usar o pretexto de Copenhague para evitar uma solução correta e razoável para esse contencioso é mais do que um erro. É uma triste demonstração de complexo de inferioridade, próprio de culturas colonizadas. Temos de resolver nossos conflitos com base em nossos interesses e nossas condições próprias, não para fazer boa figura em Copenhague. Acordos internacionais, infelizmente, por mais vistosos que sejam, não resolvem problemas. Políticas internas adequadas e que gozem do necessário consenso em cada país é que podem fazê-lo.

"Não estamos livres de blecautes", diz Dilma Rousseff

De fato não estaremos, aliás os ingredientes do apagão de 1999 no Rio de Janeiro estão se assemelhando.
Como naquela época, a facilidade de crédito e, como novidade este ano, a isenção de IPI da linha branca fizeram e farão com que uma enorme quantidade de eletrodomésticos de alto consumo de energia estejam nos lares do país.
Em contra-partida, o aumento da capacitação para se atender tal demanda não aconteceu, daí o apagão virá, quase como um resultado matemático.
Alia-se a isto o fato de que existem nas grandes e médias cidades uma enorme quantidade de "gatos" ou ligações clandestinas nas redes regulares, principalmente próximos às comunidades. Relembra-se, aqui, os incêndios que ocorrem, via de regra, nos verões, onde barracos em favelas ou comunidades firam cinzas.


"Não estamos livres de blecautes", diz Dilma Rousseff
UOL Notícias - Cotidiano - 12/11/2009
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/11/12/ult5772u6118.jhtm

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