sexta-feira, 5 de março de 2010

Tumultos em Paris: emprego é a solução

A mensagem anterior fala da crise de empregos gerada pela crise iniciada nos EUA ano passado e que teve seus reflexos também na Espanha.
Colhi de meus arquivos um excelente artigo de Jack Welch, ex-CEO da GE  que aprofunda mais o tema.


Tumultos em Paris: emprego é a solução
Jack e Suzy Welch
Estávamos em Paris no último final de semana durante os tumultos que assolaram a cidade. Poucos dias depois, ao embarcarmos em direção a Estocolmo, o quadro ainda era de inquietação. Na Suécia, um quinto da população é constituído por imigrantes, e cerca de 40% dos adultos mais jovens desse contingente está desempregado. Uma jornalista pediu-nos então que disséssemos alguma coisa sobre a discussão acalorada que a violência havia suscitado.

Ela queria saber o que as autoridades francesas deveriam fazer para estancar a hemorragia, e o que as autoridades de outras nações européias deveriam fazer para que eventos semelhantes não se repetissem em seus países.

Dissemos simplesmente que os governos europeus tinham de trabalhar em conjunto com as empresas privadas para criar empregos, mas não empregos fictícios no serviço público — e sim trabalho de verdade em novas empresas. Para isso, dissemos, seria preciso que houvesse impostos e leis trabalhistas que incentivassem e recompensassem o empreendedorismo, a disposição de assumir riscos e o investimento.

Jamais proporíamos qualquer coisa diferente disso. A reação da jornalista foi de perplexidade.
“Engano seu!”, disse ela. “Se quiser resolver esse problema, o governo terá de conceder aos desempregados mais dinheiro e mais benefícios. Por que vocês se opõem a essa solução?”

Porque não cremos de forma alguma que essa seja uma solução. O fato é que talvez jamais saibamos com certeza a causa dos tumultos na França, mas há uma coisa da qual ninguém duvida: quem crê na possibilidade de segurança financeira e ascensão social no futuro não põe fogo em carro. Raiva e frustração, isso é o que os tumultos significam. Eles são o grito dos desesperados.

As chances de que haja distúrbios na Europa serão bem menores no momento em que as classes menos privilegiadas tiverem esperança.

A esperança é decorrente de uma série de coisas — da liberdade e da dignidade em primeiro lugar. Contudo, ela decorre também, e em boa parte, de atividades dotadas de sentido e de oportunidade. Isto nos remete de volta à questão do trabalho — trabalho de verdade, é bom frisar novamente.

Não temos nada contra o trabalho em órgãos públicos. Tudo indica que deve ser uma coisa muito boa, já que um francês em cada cinco trabalha para o governo. Uma pesquisa recente mostrou que 76% dos franceses com idades entre 15 e 30 anos considera “atraente” a carreira no funcionalismo público.

A questão é que país algum pode-se dar ao luxo de ter uma economia estagnada e, ao mesmo tempo, alocar um número cada vez maior de pessoas no funcionalismo sob as asas de um sistema social generoso no trato da saúde pública e da educação, como é o caso da maior parte das nações européias mais desenvolvidas. Se todos trabalham em funções em que não há possibilidade alguma de ascensão, quem pagará os impostos de que a máquina necessita para continuar funcionando?

A verdade é que a Europa precisa desesperadamente gerar empregos no setor privado. Uma pesquisa recém-publicada no Wall Street Journal por Joel Kotkin, da America Foundation, trouxe dados surpreendentes. Nos últimos 35 anos, segundo Kotkin, a economia americana criou 57 milhões de novos empregos. A Europa — cujo produto interno bruto somado é aproximadamente igual ao dos EUA — criou apenas quatro milhões. Quatro milhões! O que será que está acontecendo?

A culpa é das leis e dos órgãos reguladores que tornam os investimentos caros, para dizer o mínimo. Em países como a França e a Alemanha, são poucos os incentivos fiscais e os investimentos de risco. As leis trabalhistas encarecem de tal modo as demissões que as empresas acabam evitando as contratações.

O que se percebe, portanto, é uma postura comum a toda a Europa, e que pode ser sintetizada na seguinte frase: extrema aversão ao risco.

Não faz muito tempo estivemos na Alemanha. Conversamos ali com muitos executivos e discutimos o cenário econômico do país. Todos concordaram que a situação dos balanços na Alemanha — e na Europa de modo geral — nunca foi melhor. E a despeito de algumas supostas dificuldades de natureza política, mesmo assim as empresas estão se “reestruturando” para que os negócios já existentes sejam mais competitivos.

Isso é bom — mas, na maioria dos casos, não tem impacto positivo algum sobre a criação de novos postos de trabalho. Quando quisemos saber por que as empresas com maior volume de dinheiro em caixa não investiam em novos empreendimentos e tampouco se envolviam objetivamente nas atividades de fusão e aquisição, percebemos nitidamente que uma sensação de imenso desconforto tomou conta da sala.

“Não venha com essa conversa, pelo amor de Deus. Investimos em empresas de internet em fins dos anos 90”, disse um executivo, “e os prejuízos foram enormes. Não precisamos desse tipo de encrenca outra vez. Basta de confusão”.

Com todo o respeito, dissemos, já está na hora de superar esse trauma. Fazer negócios é gerenciar riscos — e não fugir deles. O melhor da bolha de internet foi o que aprendemos com ela. Quem faz investimento de risco deve sempre esperar algum prejuízo. Eles são parte do processo.

Posteriormente, um gestor de fundos de pensão da Suécia defendeu a falta de investimentos por parte das empresas européias e ressaltou o crescimento das atividades de private equity na Europa. Sim, é verdade, isso é bom... mas está longe de ser suficiente.

As atividades de private equity seriam uma espécie de transfusão administrada a um paciente enfermo — em geral, uma divisão menos dinâmica dentro de uma grande empresa. A primeira parte da “cura” consiste, via de regra, em reduzir o quadro de pessoal. Não há dúvida de que a reestruturação traz enormes vantagens para a competitividade. Também traz benefícios significativos para o país que acolhe a empresa, já que uma organização saudável produz receitas fiscais. Falando francamente, porém, esse é o tipo de atividade que, quando gera emprego, raras vezes o faz em profusão, sem falar no tempo que exige para isso que aconteça.

A evolução do número de postos de trabalho na Europa deve ser de tal ordem que dê esperança às pessoas — isto é, deve acenar com oportunidades — e isso só acontecerá se surgirem novos negócios, a exemplo do que vemos nos Estados Unidos diariamente.

São várias as razões para isso.

Em primeiro lugar, o governo é um facilitador desse processo. As leis fiscais em vigor desde os anos 80, e reforçadas pelo presidente George Bush, incentivam a formação de capital. As leis trabalhistas permitem que haja uma força de trabalho flexível.

Em segundo lugar, a cultura americana é adepta do risco. Os empreendedores são heróis nacionais responsáveis pela criação de gigantescas máquinas de geração de empregos, como Bill Gates, Michael Dell, Steve Jobs e vários outros. No recente tour que fizemos para divulgação do livro Paixão por vencer, conversamos com cerca de 20 000 novos alunos de cursos de MBA em 35 escolas de todo o país. De acordo com uma estimativa nossa (sem pretensões científicas), cerca de 20% desses estudantes nos disseram que pretendem abrir seu próprio negócio.

Já no velho continente, é difícil topar com um empreendedor — sobretudo jovem e entusiasmado (trata-se de uma espécie mais fácil de encontrar no leste europeu, em países como a Eslováquia e a Hungria).

Por fim, os Estados Unidos contam com um mercado de capitais vibrante. Há investidores por toda parte dispostos a aplicar seu dinheiro em novas idéias e em empreendedores apaixonados por elas.

O ambiente econômico americano, embora não seja perfeito, contrasta vivamente com o que se vê hoje na Europa.

Há quem acredite que, por pior que sejam os distúrbios que assolam a França atualmente, eles desaparecerão por conta própria e não se reproduzirão em outras localidades. O argumento por trás dessa idéia é de que o crescimento cada vez mais lento da população européia acabará criando oportunidades de emprego para todos a longo prazo.

A realidade, porém, não é tão simples assim.

Haverá oportunidades de emprego na Europa no momento em que os governos e as empresas passarem a trabalhar em conjunto na criação de postos de trabalho — mas trabalho de verdade, uma atividade nova e repleta de desafios. As leis fiscais e trabalhistas terão de mudar, bem como as demais políticas governamentais. Será preciso também uma mudança de atitude, do tipo que privilegie a sujeição a riscos. As empresas terão de se aventurar e investir em novos empreendimentos. Os empreendedores terão de sair da toca e começar a construir o futuro.

É verdade que nem todas as apostas produzirão retornos positivos.

Aquelas, porém, que forem bem-sucedidas, farão também o sucesso da Europa.
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