quinta-feira, 21 de julho de 2011

A arte das propinas elegantes


Élio Gaspari
O Globo


A China tem o que ensinar ao Brasil, seu maior falsário de obras de arte trabalhou em Mogi das Cruzes

NUMA ÉPOCA EM que a China é um modelo de progresso, as roubalheiras nacionais recomendam que se dê uma olhada na estética da corrupção no Império do Meio. Os larápios que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. É isso o que mostra Antony Ou, da universidade inglesa de Sheffield num artigo precioso, intitulado "A arte chinesa das propinas elegantes". É um passeio pela prática secular da distribuição de jabaculês usando obras de arte como moeda.
Até aí nada de novo, pois mesmo em Brasília veem-se casas bem decoradas com presentinhos. Com 4.000 anos de história e uma cultura na qual a autoria de uma obra é avaliada por critérios diferentes daqueles que vigoram no Ocidente, as "propinas elegantes" são crimes perfeitos.
Antony Ou expõe diversos cenários. No mais sofisticado, o empresário entrega a uma galeria uma peça falsa. O burocrata vai à loja e a compra pelo valor pedido. Como a obra era verdadeira, ele comprou por US$ 200 uma peça que vale US$ 20 mil e tem todos os papéis em ordem.
Uma das estrelas desse mercado de peças falsas-verdadeiras é o pintor Zhang Daqian (1899-1993), um dos maiores artistas chineses do século 20. Mestre da cópia, ele bateu de longe o holandês Hans van Meegeren, que falsificava Vermeers, e quebrou o paradoxo de Michelangelo. (Um busto romano falsificado por ele no Quinhentos é um Michelangelo ou uma falsificação?) Um Zhang falso do Seiscentos pode valer mais que uma obra verdadeira.
Tremendo personagem, Zhang passou boa parte da vida estudando e copiando desenhos seculares. Era um sujeito miúdo, com uma enorme barba de flocos brancos. Em 1948 ele fugiu da China e em 1953 instalou-se em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. Ali viveu até 1972. Apesar de expor pelo mundo afora, poucos registros deixou em Mogi, onde é praticamente desconhecido. Sabe-se que deu aulas de pintura. Uma de suas estudantes, Judy Shen, vendeu há poucos meses um desenho do mestre por US$ 312 mil na casa Sotheby"s. Ele gastou uma pequena fortuna construindo na sua propriedade um "Jardim das Oito Virtudes".
Cópias de desenhos do século 12 feitos por Zhang valem fortunas. Um de seus quadros (verdadeiro) foi vendido em maio por US$ 24,5 milhões. Em 2007, o Museu de Arte de Boston o honrou com uma exposição dignificante pelo título: "Zhang Daqian, pintor, colecionador, falsário". A instituição tinha em seu acervo três obras de Zhang, uma dele mesmo; outra, falsificada por ele, e a terceira, atribuída a ele, fraudada por outro artista.
Durante os 19 anos em que viveu em Mogi Zhang viajou com frequência e expôs na Ásia, nos Estados Unidos e na Europa. Em 1956, visitou Pablo Picasso, trocaram quadros e posaram para uma fotografia divulgada como marco do encontro da arte oriental com a ocidental. Em 1997, seu painel "A beira do rio" foi considerado a mais antiga paisagem monumental da história, verdadeira Mona Lisa da arte chinesa. Se fosse verdadeiro, teria sido pintado no primeiro século da era cristã. É provável que Zhang tenha vendido o painel em 1956, quando vivia em Mogi.

O artigo de Ou "The Chinese art of elegant bribery" está na rede. Ele menciona Zhang, mas não chega a Mogi.
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