quinta-feira, 30 de junho de 2011

A classe C na balança

Renata Betti
Veja 


Depois de aumentarem as medidas consumindo gorduras e doces à vontade, os brasileiros que ascenderam estreiam no mundo das dietas e invadem as academias



Os 30 milhões de brasileiros que ascenderam à classe C demonstram a nova posição social também na mudança do cardápio diário. Depois de um período inicial de euforia com uma inédita folga no orçamento e o consequente abuso de gorduras e doces, está-se chegando à fase em que a quantidade vai cedendo espaço à qualidade. A primeira fase do fenômeno foi medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que registrou ganho de peso excessivo especialmente entre as mulheres. Sete de cada dez estão acima do peso ideal, a maior proporção de mulheres obesas quando se compara essa característica física com o estrato de renda. Com a subida na escala social, vem o aumento de informação, justamente o que está dando início a uma melhora da qualidade na alimentação - inclusive com a adoção das dietas emagrecedoras.

Nos últimos três anos, multiplicou-se por sete o número de integrantes da classe C em luta contra a balança. É mais que o dobro do que se observa na média da população, segundo um levantamento do site Dieta e Saúde, o maior do gênero no país, com uma base de 11 milhões de cadastrados. Diz o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas: "O prato de comida reflete a consolidação da classe C no país".

A balança era um objeto estranho para a dona de casa Regiane Santana, de 25 anos, que mal chegava perto do aparelho. Mas recentemente, ao perceber que engordava, ela resolveu checar os números e viu-se com 15 quilos além do ideal. Não vacilou. Livrou-se das bolachas recheadas que traçava no café da manha, adotou o pão integral e deu uma chance as prateleiras de produtos light - dos quais sempre desconfiou. "Nem chegava perto porque tinha medo do preço e achava que eram menos nutritivos", diz ela, que não apenas passou a ler sobre o tema como engatou uma dieta sob supervisão médica. Trata-se de uma representante típica de um grupo cada vez mais seletivo no que diz respeito ao que vai à mesa.

A transformação se percebe claramente no supermercado. "É a classe C que empurra as vendas de produtos diet e light, hoje crescendo a um ritmo três vezes maior que o do setor alimentício como um todo", diz Carlos Eduardo Gouvêa, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos Dietéticos. O grupo adicionou ainda à lista de compras semanais iogurtes, leite desnatado e barras de cereais, segundo a consultoria A/C Nielsen. O mesmo estudo mostra que os brasileiros que constituem a nova classe média são, de longe, os que mais dão valor aos rótulos com promessas como "adição de vitaminas" e "mais nutrientes" - característica que tem a ver com o passado de privações vividas por parte da turma. A mudança de costumes à mesa, porém, é gradativa, como bem enfatiza o exemplo da indústria de refrigerantes. É verdade que as vendas de marcas populares conhecidas como tubaínas caíram de 30% para 20% enquanto o quinhão das líderes Coca-Cola e Pepsi subiu na mesma proporção. Só que os refrigerantes sem açúcar, tão comuns na geladeira da classe A, ainda sofrem certa resistência entre os emergentes - e seguem com os mesmos 10% do mercado de 1997.

É curioso notar que, se de um lado a ascensão social traz novos e bons hábitos, de outro ela contribui para sedimentar hábitos menos saudáveis. Um paradoxo que o endocrinologista Alexander Benchimol, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, esclarece: "Com trabalhos menos braçais, internet em casa e carro na garagem, essas pessoas estão se tornando mais sedentárias". Ocorreu com a administradora de empresas Katia Piza, de 28 anos, alçada de vendedora a analista comercial, função em que passa o dia todo debruçada sobre o computador. "Corri para uma academia", diz ela, que chegou a 92 quilos e, à base de dieta e exercícios, voltou aos 63 ideais. "Agora é hora de ganhar massa muscular", avisa. Como os emergentes de outros países, os brasileiros estão mais atentos à saúde e ao bem-estar de modo geral. A classe C já responde por 52% da clientela nas academias de ginástica em todo o país. No ano passado, subiu em 30% o número daqueles que tem um plano de saúde.

Existe um padrão de comportamento entre os emergentes que fazem dieta. A estreia no mundo das privações alimentares se dá, em geral, por conta própria e com fórmulas supostamente milagrosas, propagadas por amigos ou na internet. Em uma segunda etapa, na qual está parte do grupo, as pessoas começam a buscar ajuda especializada. "Já se vê gente da classe C muito bem informada em relação aos métodos para emagrecer", observa Daniel Wjuniski, um dos sócios do site Dieta e Saúde, em que tal grupo acaba de se tornar maioria entre os usuários (eles eram apenas 34% em 2009). Fazer dieta é também um símbolo de status que integrantes dessa nova classe C gostam de ostentar. "Foi uma emoção pisar pela primeira vez no consultório de um endocrinologista", conta a diretora de escola pública Verônyca Silva, de 48 anos. Ela perdeu no último ano 23 dos 28 quilos que almeja debitar da balança.
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