terça-feira, 14 de junho de 2011

A engenharia ainda precisa de oxigênio



ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO
FOLHA DE SÃO PAULO 


Em 2009, publicamos nesta Folha um artigo alertando que a falta de engenheiros no Brasil, principalmente de engenheiros qualificados, poderia representar um sério obstáculo às expectativas positivas de crescimento econômico.

A questão sensibilizou o segmento de engenharia das instituições de ensino superior, além de vários órgãos privados, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria), e governamentais, principalmente a Capes, que criou um grupo de trabalho para estudar estratégias de incentivo ao aumento dos diplomados em cursos de engenharia que oferecessem melhor formação a seus estudantes.

As expectativas positivas de crescimento econômico e a divulgação de informações sobre a falta de engenheiros qualificados no mercado de trabalho fez com que os dados apresentados no Censo da Educação Superior de 2009 já reflitam evolução nas tendências de crescimento da engenharia brasileira em relação ao Censo 2008.

Boa parte dessa melhora se deveu ao aumento de vagas oferecidas pelo setor público e pela redução da evasão, tanto nas instituições públicas quanto nas privadas.

A evasão anual nos cursos de engenharia caiu de 23,2% para 16,6% de 2008 para 2009. Se a tendência se mantiver nos anos vindouros, é possível que a crise futura seja menor que a prevista, embora seja preciso alertar que ainda há risco.

É previsível que o número de ingressantes nos cursos de engenharia não mantenha o crescimento observado nos últimos anos, porque a grande evasão no ensino básico fez com que o número de alunos que conclui o ensino médio não só tenha permanecido praticamente constante nos últimos anos como, em 2009, se igualasse às novas matrículas no ensino superior, cerca de 1,7 milhão.

A engenharia cresceu, portanto, porque outros cursos apresentaram queda no número de ingressantes, mas esse fenômeno atingirá certamente um limite no curto prazo. O aumento no número de formados nos próximos anos dependerá mais de programas de redução da evasão dos alunos já matriculados do que de aumento das matrículas iniciais.

Diversos setores do governo federal e da iniciativa privada vêm discutindo a necessidade de criar programas claros de incentivo ao aumento de matrículas e de formados na área.

Os incentivos se fazem necessários pelas características dos cursos de engenharia, de cinco anos de duração, com custos elevados e exigência de grande dedicação por parte dos alunos.

Iniciativas governamentais certamente estimulariam a iniciativa privada a seguir o mesmo caminho, potencializando os investimentos realizados. A sociedade aguarda agora que os programas sejam efetivados e que comecem a dar frutos na mesma velocidade das necessidades de um país que quer tanto avançar mais.

ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO, engenheiro, professor titular aposentado e ex-reitor da USP (1990-1993) e da Universidade de Mogi das Cruzes (1996-1999), foi diretor do CNPq e é presidente do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia e diretor do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia.
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