quarta-feira, 15 de junho de 2011

Teoria (e prática) de motel


HUMBERTO WERNECK
 O Estado de S.Paulo

Já contei a história do Niltão, o camarada que, subitamente chocado com seu porte hipopotâmico, entrou num regime de emagrecimento tão radical que em pouco tempo desembarcou parte considerável da banha acumulada em sua rotunda pessoa. Nesse processo, a contragosto, acabou desembarcando também os 60 e poucos quilos da mulher, pois ela se mandou, inconformada talvez com o fato de ter agora muito menos marido do que tinha antes. Devolvido à solteirice, o Niltão se lançou com tudo ao que ele, em sua linguagem crua, chama de "mercado da carne humana". O que, entre outros efeitos, o levou a se tornar habitué de motéis e assemelhados, com tanta assiduidade que hoje se diz em condições elaborar uma Teoria Geral do Motel. Sou capaz de jurar que neste Dia dos Namorados ele está entregue de corpo e de alma - aquele mais do que esta - a pesquisas de campo em algum "transódromo".

A teoria ainda está na engorda, mas o Niltão já tem o que mostrar, e me fala de duas categorias bem delineadas. Uma é o "motel-para-casar". Aquele cujas suítes não têm cara de motel, ele explica. Nada de cama redonda nem de espelho no teto, e muito menos daquela caranguejola de tubos esmaltados onde pares mais animados se encaixam para peripécias sexuais quase circenses. Bonita, charmosa, aconchegante, numa suíte de motel-para-casar você se sente em casa - e é aí, alerta o Niltão, que reside o perigo: "Se você bobear e se deixar levar pelo clima, corre o risco de sair noivo".

Ele se deu conta disso faz uns meses, quando, excepcionalmente, esteve num motel desses, para os lados do Morumbi. Entre o primeiro e o segundo tempo, subiu, pelado, ao terraço da suíte dúplex, fabuloso mirante do qual, sem ser visto, pôde contemplar um belo naco da metrópole. Balangandãs ao vento e a cidade aos pés, o Niltão experimentou momentos de apoteose mental. "Eu cheguei lá!", pegou-se a pensar. Mais um pouco, conta, e estaria dizendo "sim" aos pés do altar.

Para não correr o risco, ainda mais depois que sua conta bancária também emagreceu, ele trata de escolher estabelecimentos menos exaltantes. Até mesmo aqueles que em sua teoria levam o nome provisório de "motéis de chuveiro elétrico". Mofo nas paredes, frigobar inoperante e sabonetinho já em andamento. O conjunto é anafrodisíaco, diz o Niltão, capaz às vezes de sacar palavras finas. Ainda bem que não vai ali com intuitos eróticos. Vai para dormir, acredite, e mais: dormir sozinho.

Explica-se: o Niltão tem pesadas madrugadas de trabalho, e, para aguentar o tranco, precisa às vezes dar uma parada, tirar uma soneca. Como mora longe, o jeito é recorrer aos motéis de chuveiro elétrico que pululam nas imediações. Ali encontra sossego - sossego que não teve naquela noite em que, em pandarecos, foi dar com os costados num motel chique das redondezas. O funcionário estranhou que tivesse chegado sozinho, e, talvez condoído, meia hora depois o acordou com um telefonema: amigo, a casa pode disponibilizar uma boneca inflável. Inflado ficou o Niltão, de ódio.

Quando o objetivo não é exatamente dormir, entre o motel-para-casar e o de chuveiro elétrico ele dá preferência a outro tipo de estabelecimento, que talvez venha a constituir uma subcategoria em seu estudo: o drive-in. Pena que a instituição esteja em decadência, lamenta o Niltão, saudoso dos tempos em que a Marginal do Tietê era "um colar de drive-ins". No auge da juventude e ainda esbelto, perdeu a conta dos filmes que não viu naqueles lúbricos estacionamentos, mais ocupado que estava com o que se passava ao vivo.

Chegou a frequentar um drive-in para pombinhos pedestres. Apeavam do ônibus, ele e alguma namorada, e entre carcaças de automóveis iam escolher a que mais lhes convinha para a urgência carnal. Em dia comum, a mesma sambada Brasília ou o idoso Chevette em que, felizes, já haviam sacolejado. Em dia especial, quando bolsos mais fornidos bancariam o romantismo cinematográfico de uma carruagem, seus corações momentaneamente perdulários balançavam entre dois luxos outrora movidos a numerosos cavalos: o Galaxie ou Dodge Dart? Cê que sabe, ronronava benhê, já aninhada no peito de mô.
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