sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Falha humana

Haverá um substancial impacto nos planejamentos organizacionais com a questão da má gestão do setor elétrico. Causa uma profunda perda de competitividade.
É um tema que requer acompanhamento e ação, em governança social, de cidadãos e empresas. 

Falha humana 

CRISTOVAM BUARQUE
GAZETA DO POVO


As autoridades governamentais, inclusive a presidente Dilma Rousseff, têm dito que os recentes cortes de luz decorrem de falhas humanas. Ela tem razão de que cortes sucessivos decorrem de falha humana dos responsáveis pela política no setor. Essa falha se agrava quando os responsáveis não apenas descuidam de suas obrigações, mas também tratam com ironia os alertas dos que tentam evitar o problema. A arrogância das autoridades as leva a relevar as críticas e os alertas. Talvez a maior falha de um governante, depois da corrupção, seja a falta de modéstia e de respeito pelo interesse público que o faz ignorar as críticas, preferindo a bajulação.

Ninguém pode ter certeza de que caminhamos para um apagão, mas isso não dá direito a um governante de ignorar os alertas que estão sendo dados há meses, com base em fatos concretos, a não ser que as autoridades prevejam estagnação do nosso PIB e, em consequência, da demanda por energia. Se o PIB crescer, há possibilidade de a capacidade instalada não atender à demanda ampliada. E essa parece ser a grande falha humana dos dirigentes. Viram que nos últimos anos a economia ia bem e deixaram de ver que ela carregava o risco de não continuar indo bem. Não viram que o aumento fabuloso e positivo no número de passageiros criou recente apagão nos aeroportos, nem perceberam que criou também apagão de mão de obra e de rodovias.

Não ver tudo isso é não perceber a complexidade da dinâmica do sistema econômico, na qual muitas das boas notícias no presente carregam riscos embutidos para o futuro. Da mesma forma que o positivo aumento do PIB tem carregado apagões de energia, de mão de obra, de rodovias, o positivo aumento no número de passageiros criou apagão nos aeroportos. Outros indicadores positivos da economia carregam riscos, se não houver uma gestão estratégica reduzindo metas ou aumentando investimentos estruturais.

O número de turistas brasileiros que hoje compram em Nova York é uma prova da força de nossa moeda. Mas isso não é um indicativo de solidez da economia. Basta lembrar que, há poucos anos, eram os argentinos que compravam nossas praias no Sul, depois os espanhóis e portugueses, no Nordeste. Não ver esse risco é uma grave falha humana. Tão grave que só há uma explicação: satisfazer nossas ilusões com o presente mesmo abandonando o futuro.

A forma como a inflação vem sendo freada, no limite da banda superior da meta, graças ao controle no preço de combustíveis e isenções fiscais sobre bens industriais, vai cobrar um alto preço por causa da falha humana de não prever suas consequên­­cias. Resolver a crise fiscal e sua consequência sobre o superávit por meio de ginásticas contábeis e de uso dos recursos do Fundo Soberano pode enganar por algum tempo, mas a um alto custo adiante pela perda de credibilidade na administração das finanças.

A economia ainda está bem, embora já não tanto quanto alguns anos atrás; mas, quando observamos os riscos futuros, ela não parece que irá ficar bem. Não ver isso é dar razão à presidente quando diz que os apagões são decorrência de erros humanos; do grande erro humano da falta de previsão, de planejamento, de gestão e do adiamento das medidas necessárias para corrigir nossas deficiências – sobretudo a maior das falhas humanas: a arrogância de não ouvir críticas e alertas de quem olha o futuro e não apenas a euforia do presente.
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