sábado, 28 de agosto de 2010

Estado de direito e desenvolvimento

Há muito tempo não vejo ninguém na mídia com a capacidade de sintetizar tão bem e didaticamente um retrato social contemporâneo.
Uma pena que uma peça literária como esta fica hermeticamente distante do brasileiro comum que volta sua atenção para assuntos pequenos à sua cidadania.
O texto abaixo não só merece ser lido como guardado como fonte para outros textos a serem elaborados. Uma verdadeira aula de sociologia e de política em um artigo apenas.
Muito bom.
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Estado de direito e desenvolvimento
Autor(es): Oscar Vilhena Vieira
Valor Econômico - 27/08/2010

A desproporcional distribuição de recursos distorce a relação entre pessoas e instituições de aplicação da lei
Desenvolvimento não mais parece ser uma meta inatingível para os brasileiros. Nos últimos 16 anos o Brasil tem dado sinais de que, quando age de forma consistente e persistente, é capaz de mudar as coisas. Deixando de lado as disputas partidárias, fomos capazes de estabilizar a economia, domar a irresponsabilidade fiscal dos Estados e ampliar as bases institucionais para o investimento público e privado. Mais do que isso, avançamos no combate à pobreza e na aceleração do crescimento.
Esse novo círculo virtuoso de desenvolvimento econômico e social não tem sido acompanhado por um fortalecimento de nosso estado de direito, o que, aliás, não é um privilégio brasileiro, mas um fenômeno latino-americano.
O que chama a atenção no caso brasileiro é o descompasso entre nossa confiança quase eufórica na economia e nossa forte desconfiança nas instituições, nas leis e nos outros cidadãos. Se tomarmos a sério as informações produzidas pelo último relatório do Latinobarômetro, podemos verificar que brasileiros e chilenos são os que mais confiam na condução econômica dos seus paísesMais significativo ainda é o fato de que nos encontramos em primeiro lugar no continente quanto à confiança de que nossos filhos terão um futuro melhor. Mas esse otimismo se contrapõe à nossa desconfiança no direito. Nos encontramos entre os que mais desconfiam de que a lei seja aplicada de forma igualitária. Entre os 18 países pesquisados, estamos em último lugar em relação à confiança intersubjetiva. Nos vemos como um país de malandros.
O ponto central dessas constatações não se restringe ao aumento dos custos transacionais no Brasil, impedindo que a expansão econômica do Brasil seja ainda maior. Esses dados indicam que vivemos sob angústia e o medo de termos nossos direitos violados pelo nosso vizinho, pelo traficante ou pelas autoridades que aplicam a lei de forma distorcida. Há, assim, uma nação cada vez mais contente economicamente, mas que se sente acuada pela violência e pelo arbítrio.
Esse conjunto de percepções lamentavelmente encontra respaldo na realidade. Todos os dias presenciamos, como vítimas, espectadores ou autores, pequenas e grandes afrontas ao estado de direito, desde as incivilidades no trânsito até os grandes esquemas de corrupção, passando por sistemáticas violações de direitos humanos e culminando com uma criminalidade de proporções dramáticas: na última década quase um milhão de pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil. Até o presidente zomba do direito quando é reiteradamente multado pela Justiça Eleitoral. Mesmo quando conseguimos aprovar uma lei voltada a afastar pessoas condenadas da política, não sabemos se a lei vai pegar.
Muitas podem ser as explicações para essa situação de descompromisso com a lei. O respeito ao direito está primariamente associado à existência de relações de reciprocidade dentro de uma sociedade. A percepção generalizada de que todos são sujeitos de direitos e, portanto, devem ser tratados com igual respeito e consideração, seja pelos demais membros da comunidade, seja pelas autoridades responsáveis pela aplicação da lei, é o elemento fundamental para que vivamos sob o domínio da lei.
A reciprocidade, porém, dificilmente é alcançada em sociedades marcadas pela profunda e persistente desigualdade, como a brasileira. Esse tipo de desigualdade provoca a invisibilidade da parcela mais carente da população e a imunidade daqueles que se encontram numa posição mais vantajosa. Como já perceberam os economistas, o estado de direito tem um alto custo de acesso. A desproporcional distribuição de recursos distorce a relação das pessoas com as instituições de aplicação da lei.
O respeito ao direito também está diretamente ligado à integridade e eficiências das instituições. O corporativismo e a falta de transparência têm afastado nossas instituições da realização de suas tarefas públicas. Uma das maiores virtudes de um regime constitucional é armar as instituições para que as expectativas criadas pelo direito se realizem sem sobressaltos, de forma que sejam expandidas as esferas de autonomia de cada um. E isso não ocorre quando os interesses corporativos se sobrepõem ao interesse da coletividade.
Dada a proximidade entre os discursos de desenvolvimento dos dois principais candidatos à Presidência da República, tanto no que se refere às políticas macroeconômicas, como às políticas sociais, fica a pergunta: como eles incorporarão a dimensão da Justiça e do Direito aos seus projetos? Afinal é impossível falar em desenvolvimento hoje sem levar em consideração essas dimensões essenciais de qualquer processo civilizatório.
Sabemos que hábitos e praticas socialmente arraigadas são difíceis de serem alterados. Reformas institucionais constituem um dos poucos mecanismos pacíficos para se desestabilizar interesses ilegítimos e dar um curto-circuito em agentes que se negam a cumprir suas obrigações. Apesar disso, nenhum dos candidatos chegou a apresentar, até o momento, um consistente programa de reformas voltado ao desenvolvimento de nosso estado de direito.
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Um comentário:

  1. "(...) hábitos e praticas socialmente arraigadas são difíceis de serem alterados." É verdade...

    Não sei se tenho uma visão otimista da vida, mas acho que, lentamente, muita coisa vem mudando... muitos hábitos e práticas vêm se modificando aos poucos. Ainda há uma longa jornada pela frente para haver uma real mudança, mas pequenos passos vêm sendo dados.

    Eu acredito que haverá boas mudanças no futuro. Não por iniciativa política, mas por parte de uma população que eu tenho fé que um dia irá acordar e começar a cobrar os seus direitos e que também tomará consciência de seus deveres como cidadãos.

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