segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Vestibular como o de 'nossos pais'


Vestibular nacional
Leonardo Cazes
O Globo



Idealizado pelo MEC para ser uma alternativa ao vestibular, o Enem, realizado no último final de semana, se aproxima cada vez mais dos grandes exames realizados pela Cesgranrio até 1987. "O Enem é como o vestibular unificado, só que aprimorado", opina o diretor do Colégio PH, Rui Alves. A pressão sobre os candidatos é a mesma: como o exame é a seleção para 40 instituições, eles jogam numa só prova sua chance de chegar à universidade.


Seleção para cerca de 40 universidades, Enem lembra o "unificado" dos anos 80



Na gramática do Ministério da Educação (MEC), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é sinônimo de fim do vestibular e democratização do acesso ao ensino superior. Em entrevista ao GLOBO, em abril de 2009, o ministro Fernando Haddad profetizou que 2010 seria o marco do término das seleções tradicionais. Mas as cenas do último fim de semana, quando foi realizado o Enem para 4 milhões de candidatos de todo o país, fizeram muita gente relembrar o extinto vestibular unificado da Cesgranrio, que marcou a vida dos adolescentes do estado entre 1972 e 1987. Multidões em locais de prova, nervosismo dos candidatos e mil e uma táticas contra cola são algumas das imagens que vêm do passado.

- É como se fosse um ciclo na nossa vida. O Enem é como o vestibular unificado, só que aprimorado. Na época, era um vestibular de múltipla escolha, com uma redação, e que exigia macetes e decoreba. A nota valia para entrar em universidades públicas e privadas. Hoje o exame trabalha mais com habilidades e competências e o programa das disciplinas é menor, mas a pressão é a mesma - lembra Rui Alves, diretor de ensino do Colégio e Curso pH, que criou uma disciplina específica para o exame, chamada "Matemática Enem".

O vestibular unificado da Cesgranrio, mesmo consórcio responsável hoje pelo Enem, era a única forma de ingresso nas universidades públicas do Estado do Rio. Por isso mesmo, sua importância era grande. Assim como o Enem, a prova era de múltipla escolha, bem diferente dos exames discursivos que marcaram os vestibulares isolados, especialmente o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que adotou integralmente o Enem este ano.

Especialistas concordam que a pressão em torno das provas é a mesma, ainda que tenham magnitudes distintas: na sua última edição, o unificado teve 79 mil inscritos, contra 5,3 milhões no Enem. Apesar de os conteúdos cobrados e a forma como são exigidos serem bem diferentes, os candidatos estão jogando em uma prova boa parte de suas chances de chegar ao ensino superior.

Para o professor José Carlos Rothen, doutor em Políticas Educacionais e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Enem se tornou um "vestibular nacional". Na sua opinião, falar em democratização do acesso através de uma prova é contraditório.

- O Enem não é diferente de um vestibular, ele é um vestibular diferente. A verdadeira democratização seria se todas as pessoas que terminassem o ensino médio e desejassem continuar os estudos no ensino superior tivessem esse direito garantido. O modelo atual é menos elitista do ponto de vista financeiro, já que só é preciso pagar uma taxa para concorrer em várias instituições. Por outro lado, a seleção continua elitista porque as pessoas mais bem preparadas, que estudaram nos melhores colégios, entrarão nos melhores cursos - diz o professor.

Simon Schwartzman, sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), vai ainda mais longe na crítica ao discurso oficial. Ele afirma que as provas de seleção para o ingresso nas universidades existem no mundo inteiro.

- Todas as universidades selecionam alunos. Existem modelos descentralizados e outros unificados. Nestes, tenho dúvidas sobre as vantagens porque acaba havendo uma competição nacional. Acesso universal ao ensino superior é demagogia. Nos cursos mais difíceis, não haverá vagas para todos - critica o pesquisador.

Criado em 1998 como um exame de avaliação da qualidade do ensino médio, o Enem foi transformado na principal porta de entrada para o ensino superior em 2009. Naquele ano também foi criado o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), do MEC. Com a nota da prova, todos os vestibulandos podem concorrer a vagas em instituições públicas do Brasil inteiro. Com o número crescente de adesões, a expectativa é que a edição de 2012 ofereça cerca de 80 mil vagas em mais de 40 instituições, entre elas UFRJ, Unirio, UFF e UFRRJ. Seu gigantismo, no entanto, trouxe os problemas que todos acompanham nos últimos três anos: vazamento de prova em 2009, falhas de organização em 2010 e, este ano, o uso prévio das questões do exame em um simulado do Colégio Christus, em Fortaleza. O caso está na Justiça, e a anulação do exame está sendo julgada pela Justiça Federal do Ceará.

Nesta transição, o exame também mudou de perfil: inicialmente, era focado nas habilidades e competências adquiridas pelos alunos, como a capacidade de interpretar textos, gráficos e tabelas, contextualizar fatos e construir argumentações. Desde 2009, apesar de mantidas essas características, o conteúdo específico das disciplinas foi ganhando espaço.

Mozart Neves Ramos, conselheiro da ONG Todos pela Educação, concorda com o colega. Entusiasta da proposta do MEC, ele continua com o mesmo ânimo em relação ao novo Enem, apesar da série de problemas que atingiram todas as edições do exame desde a sua reformulação. Ele aponta o casamento entre as novas diretrizes do ensino médio, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em maio, e a prova, como seu maior mérito.

- Continuo com o mesmo otimismo, porque o Enem trouxe uma importante questão, que é induzir a mudança no ensino médio. Historicamente, isso só acontece quando muda a forma de acesso à universidade - defende Mozart.

Já Schwartzman faz uma avaliação oposta. Para o sociólogo, o formato atual é um "monstrengo" que deixa pesado e engessado o currículo do ensino médio, por ser uma avaliação generalista.

- Uma das razões da alta evasão no ensino médio é por conta da formação generalista. Nenhum país faz isso no mundo. Os alunos recebem uma carga ampla e enorme, ninguém aprende, e esquecem tudo logo depois. A avaliação conteudista não é um problema, é usado em vários lugares. Mas há sempre um foco na área em que os estudantes aprofundaram os seus estudos - defende.

Generalista ou não, conteudista ou não, o fato é que o Enem, seja pela grandeza que assumiu, pela pressão a qual submete os candidatos ou a série de problemas que se repetem a cada ano, está cada vez mais com cara de dèja vu.
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