Correio Braziliense
Um tanto na surdina, México e Brasil deram início nesta semana à negociação de um acordo de integração econômica com potencial para mexer, a médio e longo prazo, não apenas com o tabuleiro comercial do hemisfério. Trata-se, em resumo, das duas maiores economias da América Latina, com o maior grau de desenvolvimento industrial, cada qual inserida em um dos dois grandes blocos da região — Nafta e Mercosul. Com a diferença de que o Brasil ocupa, no seu contexto, um lugar central ao qual o México jamais poderá aspirar, na América do Norte.
É a breve história dessa aproximação, com seus antecedentes e o desenrolar dos bastidores, que dão a esse movimento um alcance geopolítico muito maior que os prováveis desdobramentos econômicos. Antes de mais nada, o acordo resulta de uma reorientação substancial na política externa mexicana, enunciada praticamente desde os primeiros passos do presidente Felipe Calderón, empossado no fim de 2006. Seu antecessor imediato (e correligionário na legenda direitista PAN), Vicente Foz, investiu os seis anos de governo no Nafta, para afinal entregar o poder desgastado pelo impacto negativo do livre-comércio com os EUA e o Canadá para a indústria mexicana. A crise de 2008, já no mandato de Calderón, reduziu a pó qualquer dúvida sobre a urgência de repensar a frente externa.
Em agosto de 2009, quando o presidente mexicano visitou o Brasil e deu com Lula o pontapé inicial para o processo de associação, um alto funcionário mexicano deixou claro, em conversa reservada, que seu governo tinha tomado a decisão de explorar as possibilidades de cooperação com o Mercosul. Naquela altura, equipes técnicas de ambos os países foram instruídas a estudar mecanismos para contornar os impedimentos decorrentes da pertinência do México ao Nafta. Não por acaso, foi Calderón quem, no fim de 2008, apresentou à Cúpula do Sauípe a proposta de formalizar um fórum para a integração político-econômica da América Latina e do Caribe.
Pato Donald a escanteio
Quase por ironia, é nos personagens de Walt Disney que se desenha essa virada de muitas e muitas páginas — em termos de história, pelo menos sete décadas. Foi no início da década de 1940, na antessala de declarar guerra formalmente ao Eixo, que os Estados Unidos abriram uma janela em sua diplomacia para os vizinhos mais importantes ao sul. A adesão de Getúlio Vargas à aliança antinazifascista, concretizada na base de Natal, teve como contrapartida (entre outras) a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
No terreno cultural, o agente da aproximação foi o Pato Donald. No desenho animado The tree caballeros (“os três cavaleiros, literalmente, mas chamado no Brasil de “Você já foi à Bahia?”), que merece exibição nos cursos de relações internacionais, Disney embarcou Donald como turista pela “exótica” América pobre. No México, faz amizade com o galo Panchito. No Brasil, com uma “ponta” de Carmem Miranda, surge o papagaio Zé Carioca para ciceronear os amigos no carnaval do Rio. E o trio brilhou nos cinemas acompanhando a formação do sistema interamericano, consolidado na OEA.
Neste início de século, Panchito e Zé Carioca, que certamente ensaiaram a parranda (farra) na Copa de 1970, deixam Donald de lado no reencontro do samba com os mariachis.
Geração Black Power
O ministro Celso Amorim aproveitou a penúltima visita oficial à África para homenagear um ídolo de sua geração. Depois de ter assinado na República Democrática do Congo um memorando de entendimentos para dar sequência a acordos de cooperação firmados em 1972 — durante histórica visita do chanceler Mario Gibson Barbosa ao continente —, Amorim depositou flores no monumento ao premiê Patrice Lumumba (foto). Patriarca da independência do então chamado Congo Belga, em 1960, e um dos expoentes da geração de líderes nacionalistas africanos com algum pendor socialista, Lumumba foi deposto semanas depois e assassinado em 1961, ao que tudo indica com o concurso de agentes e mercenários belgas e americanos.
ONU Mulher
A um mês e meio de dar posse a sua primeira presidente, o Brasil foi eleito com folga para integrar a primeira junta diretora do ONU Mulher, organismo criado em julho último para agrupar as agências e os departamentos das Nações Unidas dedicados à situação feminina e às questões de gênero. Com 48 indicações, o país foi o mais votado entre os da América Latina e do Caribe. A primeira junta do ONU-Mulher terá à frente a ex-presidente chilena Michelle Bachelet.
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