sexta-feira, 27 de abril de 2012

O desafio do ensino



 Folha de São Paulo

A notícia de que 32% das escolas estaduais na cidade de São Paulo enfrentam falta de professores resulta de uma composição de deficiências variadas, desde pormenores logísticos -como a substituição de docentes que se aposentam ou saem em licença- até problemas como a dificuldade de atrair talentos para a carreira.

Deve-se, em primeiro lugar, reconhecer que a tarefa é complexa. Não é trivial pôr para funcionar 1.072 colégios do Estado com características as mais variadas.

A rede municipal, em contraste, apresenta problemas no máximo em 14% das unidades. E seus desafios são apenas um pouco menos complicados que os da rede estadual: com 1.400 escolas, seu foco são os cinco anos iniciais do ensino fundamental, em que há menos disciplinas a ministrar.

Às dificuldades naturais se somam as ocasionadas pela falta de integração entre as esferas de governo, que não conseguem coordenar planos de carreira para não provocar uma concorrência autofágica. Enquanto o município de São Paulo oferece salário inicial de R$ 2.600, o Estado paga R$ 1.989. Não por acaso, um dos maiores deficit da rede estadual é justamente na categoria de docentes do primeiro ao quinto ano, faixa em que o município concentra sua atuação.

A carência no Estado também causa espécie diante da redução da taxa de fertilidade, que resulta num número cada vez menor de jovens para uma estrutura de ensino que, na prática, não encolheu. 
É bem verdade que parte dos problemas, talvez os mais graves, depende só muito indiretamente de ações do governo estadual. Aí se encaixa a carência crônica de professores de matemática e química. Não são as carreiras mais procuradas, e os que se formam nessas áreas pensam duas vezes antes de se dedicar ao magistério, sobretudo num momento em que a economia tem carência de profissionais em vários segmentos.

O governo do Estado precisa melhorar urgentemente o gerenciamento da rede. Mas, para mudar de fato o medíocre patamar de qualidade da educação no país, não há saída fora da qualificação e valorização do magistério, de modo que passe a atrair os melhores alunos.

Isso depende, claro, de salários atrativos, mas também de recompor o prestígio social que a carreira teve no passado. Este é um desafio para a sociedade, e não apenas para os governantes.
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