sábado, 2 de abril de 2011

DEMOCRACIAS SELETIVAS

JORNAL DO COMMERCIO (PE)


Uma olhada sobre o Oriente Médio nos dias de hoje descortina uma longa história de dominação focada em interesses econômicos e militares. Os capítulos que estão sendo escritos têm como espaço geográfico também países do norte da África – como Líbia e Argélia – e personagens como Muamar Kadafi, Abdelaziz, Ali Abdullah Saleh e outros envolvidos no que se denomina Primavera Árabe, parafraseando a Primavera de Praga que sinalizou para a derrocada da dominação soviética no Leste Europeu. 

O mais poderoso mocinho dessa trama atual – na perspectiva Ocidental – e vilão para grande parte do mundo árabe, são os Estados Unidos da América, cuja história de invasões remonta a 1846 a 1848, no México, com anexação do Texas. Alguns anos depois, em 1890, tropas norte-americanas desembarcavam em Buenos Aires, Argentina, para defender interesses econômicos. No ano seguinte, a demonstração de poder chegava ao Chile, onde fuzileiros navais americanos derrotaram grupos nacionalistas. No mesmo ano, 1891, tropas estadunidenses exterminavam revolta de operários negros na ilha de Navassa, no Haiti.

Esse percurso de demonstração de força foi documentado por toda década de 90 do século 19, na Nicarágua, China, Coreia, no Panamá e nas Filipinas. O século 20 começou com tropas americanas ocupando o Canal do Panamá, cuja importância estratégica e econômica do Canal dispensam maiores elucubrações sobre os interesses por trás da ocupação. Mais difícil seria entender a ocupação da pobre Honduras, dois anos depois, pelos Fuzileiros Navais. A participação na Primeira Guerra Mundial é um capítulo à parte nessa história que deságua nos momentos difíceis dos dias atuais, em que os Estados Unidos gastam bilhões de dólares principalmente em duas frentes do Oriente Médio – Afeganistão e Iraque – o que explicaria sua timidez em assumir a liderança do confronto com a Líbia, onde, assim mesmo, algumas centenas de milhões de dólares já foram literalmente queimados.

Mas até chegar a esse quadro seletivo, em que os norte-americanos reprimem uma ditadura e mantêm outras, tem os capítulos que contam a operação na Grécia entre 1947 e 1949 para garantir a vitória de um governo aliado, a participação na guerra da Coreia, que terminou em 1953 sem vencedores, e intervenções pontuais na Guatemala, Egito, Líbano, Panamá, Brasil – com o apoio ao golpe de 64 – até o grande tropeço do Vietnã, de onde os Estados Unidos tiveram que se retirar humilhados em 1975. Dois anos antes, contribuíam para derrubar um governo democraticamente eleito no Chile, episódio que foi cobrado há poucos dias ao presidente Obama, quando de sua visita àquele país.

O capítulo do Oriente Médio teve momentos de extrema tensão nos primeiros momentos de formação do Estado Islâmico no Irã, no início dos anos 80. E um rosário de ações militares em todo mundo se seguiu, da Bolívia em 1986 à Libéria em 1990, do Iraque e Arábia Saudita em 1991 ao Zaire em 1997, Afeganistão em 2001, novamente Iraque em 2003. Em todos os casos, a justificativa traz símbolos incontestáveis como a defesa da democracia e de cidadãos e patrimônio norte-americanos. Sem a preocupação de explicar o contraditório, a manutenção de regimes ditatoriais desde que aliados.

A Primavera Árabe pode mudar o curso dessa história de intervenções de uma potência que passa por dificuldades internas e que, apesar de haver levado à derrocada sua maior adversária – a ex-União Soviética –, hoje se defronta com um outro império, contra o qual não tem como impor sua hegemonia: a China. Usando as mesmas armas econômicas – o capitalismo – o império chinês ocupa o lugar de segunda maior economia, se encaminha para tomar o primeiro lugar dentro de mais três décadas, e não há nenhuma especulação, acadêmica ou militar, de que um dia esses dois impérios venham a se confrontar como aconteceu durante a chamada Guerra Fria. A redistribuição geopolítica do mundo aponta noutra direção: a que tira de qualquer potência, isoladamente, o poder de polícia sobre o resto do mundo.
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