.China investe vários bilhões de dólares em um futuro promissor
.Thomas L. Friedman
A China está fazendo grandes tacadas. Sim, plural. Quando digo “grandes tacadas”, quero dizer, investimentos grandes, de vários bilhões de dólares, em um horizonte de 25 anos. A China tem ao menos quatro desses neste momento: um é a construção de uma rede de aeroportos ultramodernos; outro é a construção de uma rede de trens de alta velocidade, conectando as principais cidades; o terceiro é em biociências: o Instituto Genômico de Pequim encomendou neste ano 128 sequenciamentos de DNA (dos EUA) dando à China o maior número no mundo, com um instituto iniciando seu própria indústria de engenharia genética e células tronco; e por fim, Pequim acaba de anunciar que vai fornecer US$ 15 bilhões (em torno de R$ 25 bilhões) em dinheiro para as empresas de carros e baterias do país criarem uma indústria de carros elétricos em 20 cidades piloto. Em essência, a China Inc. acaba de nomear seu time dos sonhos de 16 empresas estatais para depender menos do petróleo e passar para o próximo motor de crescimento industrial: os carros elétricos.
Nada para se preocupar. Os EUA hoje também têm sua grande tacada de vários bilhões de dólares e 25 anos de horizonte: consertar o Afeganistão.
Esse contraste não é bom. Recentemente, estive em um jogo de beisebol no Washington Nationals. Na fila para o cachorro quente, ouvi uma conversa atrás de mim. Um consultor de administração de uma grande firma nacional estava contando aos colegas que seu trabalho era “vender produtos para o Departamento de Segurança Nacional”. Pensei comigo mesmo: “Agora é uma indústria, inventar estudos sobre ameaças terroristas e vendê-los para o governo?”
Estamos desequilibrados no balanço entre segurança e prosperidade. Precisamos estar em uma disputa com a China, não apenas com a Al Qaeda.
Comecemos pelos carros elétricos.
A indústria de carros elétricos é crucial por três razões, argumenta Shai Agassi, diretor executivo da Better Place, empresa global que no ano que vem vai começar a operar redes nacionais de carros elétricos em Israel e na Dinamarca. Primeiro, a indústria automobilística foi a fundação da classe média industrial norte-americana. Segundo, o país que substituir os veículos movidos a gasolina por elétricos –em uma era de preços de petróleo crescentes e preços de bateria em queda– terão uma enorme vantagem de custo e independência de petróleo importado. Terceiro, os carros elétricos precisam de mecanismos eletrônicos e software. “Pense na indústria de aplicativos que será gerada a partir dos carros elétricos”, diz Agassi. Será o iPhone com esteroides.
A Europa está usando gasolina a US$ 7 por galão (cerca de R$ 3,15/litro) para estimular o mercado de carros elétricos; a China está cobrando US$ 5 por galão e chamando os carros elétricos de um dos pilares de seu plano de crescimento de cinco anos. E os EUA? O presidente Barack Obama direcionou o dinheiro do estímulo para carros elétricos, mas não está disposto a fazer a única coisa que criaria um impulso sustentado necessário para fazer crescer a indústria de carros elétricos por aqui: aumentar os impostos sobre a gasolina. O preço é importante. Claro que a Lei de Moore dos carros elétricos –“o custo por quilômetro da bateria de carro elétrico cairá para metade a cada 18 meses”- vai mover o custo constantemente para baixo, diz Agassi, mas somente quando tivermos uma escala de produção. As empresas norte-americanas podem fazer isso sozinhas ou com a colaboração das chinesas. Mas Deus nos livre se não fizermos nada.
Há duas semanas, visitei as instalações da fabricante de baterias Coda Automotive em Tianjin, China- que é uma joint venture entre inovadores e investidores americanos, a empresa de baterias China Lishen e a China National Offshore OIl Co. Sim, a empresa petrolífera chinesa está usando seus lucros para desenvolver baterias. Kevin Czinger, diretor da Coda, que me deu carona em Manhattan na semana passada em seu carro elétrico que entrará em produção em breve, explicou o que está acontecendo: a estrutura da economia moderna norte-americana é de carros nacionais movidos por petróleo produzido localmente. Isso nos levou a um enorme crescimento. Nas últimas décadas, porém, essa indústria foi suplantada por carros estrangeiros com petróleo estrangeiro. Então, “agora toda vez que compramos um carro estamos exportando US$ 15.000 de capital, pagando por isso com dinheiro emprestado e rodando com fontes de energia estrangeiras”, diz Czinger. “Os automóveis deixaram de ser uma máquina produtora de classe média para serem uma máquina destruidora da classe média”. Uma indústria americana de carros elétricos/ baterias poderia reverter isso.
No próximo ano 14.000 Codas estarão nas ruas na Califórnia e poderão rodar 160 km após carregarem por uma noite. O carro combina baterias chinesas e um complexo sistema eletrônico americano –montado em Oakland (por US$ 37.000). É uma iniciativa em que os dois países saem ganhando.
Se ambos derem incentivos de mercado para os consumidores comprarem carros elétricos e criarem a infra-estrutura de tomadas para as pessoas poderem ir para todo canto, será uma grande tacada na qual todos saíram ganhando. A indústria de carro elétrico vai prosperar nos EUA e na China, e juntos vamos atacar o próximo desafio: usar as inovações para fabricar baterias de grande armazenagem para a energia eólica e solar. Contudo, se somente a China colocar no lugar os preços da gasolina e a infraestrutura, a indústria vai se mover para lá. Será uma grande coisa para eles, um hobby para nós, e você vai importar o seu novo carro elétrico da China, da mesma forma que está importando seu petróleo da Arábia Saudita.
Tradução: Deborah Weinberg
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