quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Crescimento e produtividade

O texto abaixo faz um lúcido questionamento acerca de nossa capacidade de atingirmos, de forma sustentável, a condição de quinta economia em 2016 frente aos desafios internacionais e restrições internas que vivenciamos.
Da forma sequenciada e didática com a qual o tema foi abordado nos impelido a densas e necessárias reflexões onde nossa educação básica e intermediária, aliadas à nossa incipiente capacidade de promover saneamento básico e infra-estrutura sustentável  não nos permite vislumbrar aquela posição mundial atingida.
Vale a pena ler e guardar este texto.

 Crescimento e produtividade


Antônio M. Buainain e Carlos A. Pacheco - O Estado de S. Paulo - 05/10/2010


O Brasil tem, atualmente, condições de assegurar um ciclo longo de crescimento, baseado no aumento do consumo doméstico, na demanda internacional de commodities e na exploração do pré-sal. As bases para isso estão dadas, ancoradas na opção política que é consensual de seguir promovendo reduções drásticas da desigualdade e incorporar mais algumas dezenas de milhões de brasileiros a padrões de consumo mais elevados. Nos últimos anos essa trajetória foi amplificada pelo crédito, e isso ainda deverá seguir por mais alguns anos. A demanda asiática por alimentos e matérias-primas e a exploração de petróleo vão atenuar qualquer restrição externa ao crescimento. Não teremos problemas com a geração de divisas. Teremos, ao contrário, de administrar o excesso de cambiais e a tendência à valorização do real.

Mas este cenário tão favorável convive com a dúvida de qual será nossa inserção internacional. Seremos um grande exportador de commodities, com uma base industrial frágil? Ou a dimensão do mercado doméstico será tão relevante que a indústria crescerá, mesmo com elevados coeficientes de importações de partes, peças e equipamentos? Teremos condições de sustentar aumentos reais de renda e políticas distributivas neste contexto? Como conciliar uma trajetória de câmbio valorizado e condições tão ruins de competitividade sistêmica, como juros reais e carga tributária muito elevados, infraestrutura e logística precárias, burocracia excessiva e regulação ineficiente, péssimos indicadores de escolaridade e qualificação de mão de obra?

As respostas para esses desafios não são simples. Não é trivial conciliar todos esses aspectos de nosso desenvolvimento de forma que tenhamos um processo sustentável. E, se olharmos para o passado ou para o presente, veremos que há sinais preocupantes, quer pelos elevados déficits em conta corrente, quer pelos péssimos indicadores acerca de nossa competitividade, recém-publicados pelo Fórum Econômico Mundial.

Uma questão parece chave: não teremos uma trajetória sustentável de crescimento, com melhoria da renda e condições de competitividade internacional, sem crescimento elevado de produtividade. Essa é a chave. E neste aspecto nosso desempenho não tem sido nada bom.

A produtividade não tem crescido a um ritmo capaz de diminuir a distância que nos separa das principais economias desenvolvidas e dos países emergentes que competem conosco. Rever isso não é simples. Há atrasos imensos relacionados com as desvantagens sistêmicas do Brasil. É uma agenda complexa e trabalhosa. Enfrentá-la será decisivo, pois o perfil de desenvolvimento requer assegurar condições mínimas de competitividade.

Mas há mais coisas a fazer: a produtividade é hoje fortemente condicionada pela inovação na indústria e nos serviços e pela maior eficiência do setor público. Essa agenda é também crucial. Cerca de metade do aumento da produtividade depende dela.

O apoio à inovação será decisivo e será o aspecto crítico de qualquer política industrial para os próximos anos. Precisaremos aprimorar nossa legislação de incentivo, ainda muito presa à antiga lei de informática; precisaremos de ações urgentes na área de formação de recursos humanos qualificados, que vão além do consenso recente da importância do ensino técnico, mas que devem também atentar para as deficiências na formação superior em ciências e engenharia; e precisaremos ampliar a rede de prestação de serviços técnicos e tecnológicos.

E vamos ter de fazer escolhas em termos de possibilidades concretas de setores ou áreas novas capazes de renovar a estrutura industrial brasileira. Com projetos estruturantes, que possam ser estimulados pelo governo, mas com foco em mercado, e, de preferência, no mercado global.
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