sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Abre-se a "era da ansiedade"

Vinícius Rodrigues Vieira
Valor Econômico
 
Qual o papel das grandes economias emergentes - principalmente China e Índia - no mundo pós-crise e como Estados Unidos e Europa reagirão a uma inexorável perda de poder? Acadêmicos, jornalistas e consultores debruçaram-se sobre essas duas questões num ciclo de palestras realizado na Universidade de Oxford, Inglaterra.

Para Gideon Rachman, colunista do "Financial Times", que participou da conferência, o mundo entrou na "era da ansiedade" após 30 anos de liberalismo econômico e político. O período de crença nos mercados, ele diz em seu recém-lançado "Zero-Sum World" (Atlantic Books), pode ser dividido em uma "era da transformação", iniciada com a abertura econômica chinesa, em 1978, que terminou com o fim da União Soviética em 1991, e em uma "era do otimismo", em que, a despeito de turbulências políticas e econômicas (como os ataques de 11 de setembro e as crises econômicas do fim dos anos 1990), havia um consenso em torno dos aspectos positivos da crescente interdependência entre países.

Esse consenso, argumenta Rachman, não existe desde 2008, dada a crescente tensão nas relações entre China e Estados Unidos, como se pode ver nas guerras cambiais, a instabilidade na União Europeia, cujos integrantes de economia menos robusta sofrem dificuldades para honrar suas dívidas, e problemas no atual sistema de governança global, resumidos pelo fracasso de um acordo sobre o clima em Copenhague, em 2009.

A tensão entre China e Estados Unidos, diz Rachman, pode aumentar caso tendências nacionalistas na arena política interna desses países ganhem proeminência, tornando até mesmo possível um confronto militar entre as potências. A China, porém, "tem um modelo insustentável", afirma o jornalista, numa referência à falta de liberdade política. Rachman reconhece que o "Consenso de Pequim" - crescimento econômico sem democracia - talvez influencie regiões onde os chineses têm proeminência, como a África.

Em seu livro, Rachman recomenda que, diante da crise atual, europeus e americanos fiquem tranquilos, pois a democracia liberal e a economia de mercado já sobreviveram a outros desafios no século XX. Além disso, será necessário repudiar discursos que preconizem rivalidade entre países, de modo a reconstituir o otimismo do período 1978-2008. Por fim, Estados Unidos e Europa precisam encontrar maneiras de reconstruir seu modo de vida.

Essa reconstrução, porém, esbarra na ausência de um novo paradigma econômico, que seja respeitável por acadêmicos, políticos e burocratas, constata Peter Hall, professor de ciência política em Harvard, nos Estados Unidos. Diferentemente de outros períodos de instabilidade no cenário mundial, não há uma nova fórmula clara - pelo menos no Ocidente - para substituir o consenso neoliberal.

Ainda que existisse um paradigma econômico capaz de desafiar o neoliberalismo nas transações internacionais, Hall também vê, no Ocidente, a ausência de uma base social para iniciar um novo projeto político. Os anos keynesianos, diz ele, produziram um compromisso entre membros de diferentes classes, pondo em xeque os discursos políticos direcionados a seguimentos específicos da sociedade, como é o caso da social-democracia, cuja base original eram os trabalhadores associados a sindicatos.

Não está claro, porém, se discursos baseados em valores morais serão capazes de produzir uma base para projetos políticos futuros. De qualquer forma, diz o professor, diferentemente do que ocorreu após a Depressão de 1929, há, desde o início da crise, uma crescente desconfiança por parte de eleitores em relação ao intervencionismo estatal. Assim, conclui Hall, a crise não deve trazer mudanças significativas no modo de organização das sociedades europeias e nos EUA.

Harold James, historiador da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, é mais otimista que Rachman e Hall. Embora reconheça que a China tem mais uma estratégia de ampliação de poder político do que de mera expansão econômica, argumenta que Pequim não tenta promover uma "nova cultura" em escala mundial, tal como os americanos fizeram após a Segunda Guerra Mundial. O antiliberalismo chinês, diz o historiador, não corresponde necessariamente a uma renúncia ao multilateralismo no cenário internacional.

Afirma James que, graças à ativa participação da China e de outros emergentes - o Brasil, inclusive - no cenário internacional após o estouro da crise, a economia mundial não entrou em colapso. Além disso, lembra o historiador, a economia depende hoje mais de competição do que da formação de cartéis. Assim, a interdependência e a ascensão de Brasil, Rússia, Índia e China deve impedir uma eventual onda protecionista, tal como ocorreu no pós-1929. Na opinião de James, o maior desafio é o que deve ser enfrentado pelos chineses, obrigados a "desenvolver uma estratégia [de ascensão internacional] que não assuste o mundo".

Considerando os argumentos de Rachman e Hall, parece não haver prudência capaz de controlar a ansiedade ocidental diante da perspectiva de aceleração da perda relativa de poder no cenário mundial - ainda que o liberalismo prevaleça em termos políticos e econômicos.

Tal como Rachman, James vê China e Índia com mais força do que Brasil e Rússia na configuração de poder mundial no pós-crise. As duas potências orientais, argumentam, têm populações que superam 1 bilhão de pessoas e armamentos nucleares, além de serem herdeiras de civilizações milenares que, até o início do século XIX, superavam em conjunto os países da atual União Europeia. O Brasil, nesse novo cenário, ganharia proeminência regional. Rachman, aliás, sugere em seu livro que o país foi incluído no acrônimo BRICs pelo banco Goldman Sachs apenas para tornar a expressão mais atraente.

Segundo Tim Cooper, analista da consultoria Business Management International (BMI), projeções feitas pela empresa colocam o Brasil como a quarta maior economia do mundo já em 2020, com produto interno bruto (PIB) de aproximadamente US$ 5,6 trilhões, ficando atrás apenas de Índia (US$ 6,8 bilhões), China (US$ 16,8 bilhões) e Estados Unidos (US$ 22,8 bilhões). "O Brasil se tornará a casa de força da América Latina", analisa Cooper, que vê para o país um papel de potência regional e capaz de ter maior influência no hemisfério ocidental - que inclui os Estados Unidos.

Outras áreas hoje periféricas, como o Leste Europeu, devem ganhar mais proeminência econômica, pois, diferentemente dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, suas populações tendem a crescer mais nos próximos anos. Isso gerará um maior mercado interno - como, segundo Cooper, ocorrerá na China - e aumentará a força de trabalho na periferia. No plano internacional, prossegue Cooper, a emergência de novos pólos de poder levaria a uma diversificação do padrão monetário internacional, com o uso de outras moedas fortes além do dólar.

Nesse cenário, em termos de padrão de vida, porém, o Ocidente continuaria forte, com elevado PIB per capita, o que não implica, necessariamente, no fim das angústias ocidentais. Mais do que a "pobreza relativa", europeus e americanos parecem temer a perda de poder representada pela possibilidade do fim de um mundo moldado a sua imagem e semelhança. No jogo de poder mundial, os próximos movimentos são difíceis de serem previstos, mas o resultado final já parece decidido a favor do oriente.
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

GEOMAPS


celulares

ClustMaps