A crise aberta entre aliados do governo federal devido à intenção da presidente Dilma Rousseff de privilegiar a indicação de técnicos qualificados no preenchimento de cargos do segundo escalão é um exemplo deplorável das limitações impostas pelas alianças políticas à autonomia dos governantes. O aspecto alentador neste caso é que, ao se dar conta das pressões internas, a presidente ouviu sugestão do vice Michel Temer e adiou a definição do segundo escalão para fevereiro, quando já estarão eleitas as mesas do Congresso. Mas quem garante que a fome por cargos bem remunerados, incluindo até mesmo o comando de algumas das estatais mais poderosas do país, não será retomada ainda com mais vigor? É deplorável que o poder público seja visto mais pela sua capacidade de acomodar interesses de uma minoria do que pela atribuição de servir com eficiência ao bem comum.
A barganha por cargos é tão constrangedora, que chega às raias da chantagem. É o que fica evidente tanto com a ameaça de elevação do salário mínimo acima da alegada capacidade do Executivo de bancá-la quanto com a possibilidade de apoiar uma proposta de emenda constitucional criando um piso nacional para policiais militares e bombeiros. Em ambas as situações, o risco é a possibilidade de, já de início, a presidente recém empossada vir a enfrentar um desequilíbrio nas contas públicas. A confirmação de uma ameaça desse tipo poderia gerar, entre outras tantas consequências, uma desordem nas finanças governamentais, prejudicando o ritmo dos investimentos governamentais e, eventualmente, a própria estabilidade econômica.
Numa democracia nos moldes da brasileira, na qual os partidos políticos tendem a agir mais por pragmatismo do que pelas normas de seus estatutos, os chefes do Executivo, normalmente, costumam ser eleitos sem uma base parlamentar capaz de permitir um mínimo de governabilidade. Por isso, muitas vezes, precisam recorrer a todo tipo de expediente para assegurar o apoio necessário no Congresso à aprovação de projetos, incluindo concessões na pressão por cargos e, não raramente, até mesmo a transformação de interesses republicanos num verdadeiro balcão de negócios. É lamentável que isso ocorra e que políticos historicamente mais fisiológicos, como integrantes do PMDB, ou mais propensos a ocupar a máquina, como os do PT, se valham disso para fazer imposições.
O país depende da aprovação de uma ampla reforma política e da profissionalização dos servidores, com ênfase na meritocracia, para se ver livre de deformações como a ocupação da máquina pública por apadrinhados, muitas vezes um primeiro passo para a corrupção. Enquanto essas conquistas não se mostrarem viáveis, a presidente precisa resistir às pressões, impedindo o setor público e os que dependem dele de continuar sendo vítimas dessa verdadeira guerra.
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