quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Depois de Battisti

Jorge Fontoura
Correio Braziliense

Doutor em direito internacional pela Universidade de Parma, Itália

Um dos estereótipos de Hollywood relacionados ao Brasil imaginário foi desde sempre o clássico scape to Rio: em filmes de assaltos e golpes retumbantes, lá estava o invariável destino reservado a foragidos simpáticos que mereciam final feliz. Não foi simples ao nosso Supremo Tribunal Federal desconstruir o clichê de impunidade e abandono das terras do Zé Carioca. Isso se deu com reiteradas concessões de extradição, mesmo contra a opinião pública, como no caso Biggs (“o ladrão é nosso”), ou contra patrulhas ideológicas poderosas, nos casos Fiermenich e García Mezza. O primeiro era montonero argentino de extensa folha corrida; o outro, generalíssimo de óculos escuros e ex-ditador da Bolívia, por igual pouco recomendável. Ainda são emblemáticas as extradições do mafioso Tommaso Buscetta e da estrelíssima mexicana Gloria Treves, devolvidos sem interferência presidencial, até para deixarem de acreditar em cinema americano. Com isso, o STF elaborou, ao fio de décadas, apreciável arcabouço jurisprudencial, de qualidade e de atualidade inatacáveis, para no início do presente ano judiciário apreciar o desfecho do caso Battisti, em prudente decisão do presidente Cezar Peluso.

De qualquer forma, no rescaldo do Caso Battisti, o Brasil volta à ribalta, pelo nebuloso meio como se tenta explicar a opção presidencial, tanto contra decisões da justiça italiana quanto da própria justiça brasileira. Não há que questionar o poder do presidente da República, em nosso modelo político, para dar a última palavra em extradições. O que paira em vácuo de razão elementar é o embasamento que se pretendeu dar ao último ato de Lula. Instituto destinado a prevenir a impunidade, extradição não é julgamento em si. Trata-se tão somente de ato de cooperação entre nações civilizadas para devolver-se eventual criminoso a seu domicílio com o objetivo de clarificarem-se fatos ou de efetivar-se a aplicação de pena.

No imbróglio Battisti, o contraste entre a decisão de Lula e os precedentes julgamentos deixa às escaras fato inelutável: o Poder Executivo brasileiro também se arvorou no direito de julgar. E não apenas julgar a justiça italiana, mas julgar o próprio Supremo Tribunal Federal, todos em alguma medida tomados como facciosos perante a verdade presidencial. De fato, quem não viveu o autunno caldo, ou os anni di piombo não pode avaliar como a democracia italiana foi exuberante ao enfrentar o terrorismo brutal das brigadas vermelhas, sem leis excepcionais ou guantanamos de ocasião. De resto, como o fez a Alemanha, em relação ao grupo Baader Meinhof. Isso talvez garanta indenidade ao pedido italiano de ter de volta seu ex-terrorista, na convicção de que não deve haver ex-assassinos.

Como consequências nas relações bilaterais, nada haverá de ocorrer, além do turismo de foragidos a redescobrir o Brasil. Principalmente se Berlusconi continuar a governar, com seu pragmatismo eleático já a desqualificar o caso: “Pelo menos o Estado italiano está economizando alojamento e alimentação”. Afinal, a maior fábrica Fiat está no Brasil e acordos comerciais em jogo interessam a quem vende, no caso, a Itália. Quanto ao recurso à Corte da Haia, como se tem aventado, a hipótese é tão remota quanto a credibilidade do primeiro ministro residente do Palácio Chiggi.

É certo que a índole democrática que Lula exercitou com tanta qualidade em seus dois governos não tomou em conta a gravidade do caso Battisti, o seu significado para a Europa e para a Itália. Na União Europeia, a autonomia penal dos países é religião em que não há ateus. Na Itália, não há vozes isentas, no parlamento, na academia ou nos sindicatos, que compreendam a decisão do ex-presidente brasileiro, em contraste com sua imagem democrática e republicana. Mal-informado e vítima de suas boas intenções, talvez Lula não tenha dimensionado o milagre que conseguiu realizar: de forma inédita, como exalta o Corriere della Sera, todas as esquerdas e mais a direita italianas estão juntas, do juiz das mãos limpas Di Pietro aos detestados separatistas da Liga Norte. Desde Garibaldi, muitos tentaram, Lula conseguiu.
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