segunda-feira, 28 de março de 2011

OVELHAS NEW AGE



As mudanças da última década transformaram as empresas em palcos de tensões e conflitos. Para manter o controle emergiu uma estranha forma de espiritualismo

Há pouco mais de dez anos, a revista norte-americana BusinessWeek anunciava em matéria de capa a emergência da corporação virtual: o novo “espécime” teria estrutura enxuta, poucos ativos e seria capaz de mobilizar-se rapidamente para aproveitar oportunidades de mercado. Uma década – e várias bolhas estouradas -– depois, muitas predições se concretizaram. Privatizações, fusões, aquisições, spin outs, terceirizações e reestruturações mudaram a paisagem corporativa. É temerário afirmar que a corporação virtual tenha se transformado em modelo dominante, mas algo similar de fato surgiu. As empresas tornaram-se híbridos de difícil definição. As marcas ficaram mais fortes, a dar ao consumidor a sensação de identidade. Por trás, entretanto, convivem estruturas variadas, a misturar tribos de diferentes origens e costumes.

A empresa do século XXI tem no centro uma trupe de privilegiados, com direito a trabalho regular, salários e benefícios. Em troca, esses bem-afortunados cumprem jornadas de 60 horas semanais e cultivam úlceras. À sua volta gravita uma periferia sujeita ao mau tempo, a lutar, dia após dia, pela própria sobrevivência. São centenas, ou milhares, de funcionários de baixa qualificação, profissionais de tempo parcial, subcontratados, autônomos e estagiários.

Tome-se uma grande empresa, brasileira ou estrangeira. Se o caso não for exceção, ela terá passado, nos últimos dez anos, por meia dúzia de fusões e aquisições, uma dezena de reestruturações, três ou quatro grandes processos de enxugamento e incontáveis mudanças de rumo. De tanta reinação terá resultado um animal instável e nervoso, sujeito a distúrbios maníaco-depressivos. Por fora, as generosas verbas publicitárias tentam garantir a boa imagem; por dentro, vicejam tensões e conflitos.

O que mantém unidos esses estranhos exércitos de Brancaleone? Primeiro, a necessidade de sobreviver. Por mais estranhas e instáveis que tais configurações pareçam ser, são mais aptas à luta na selva globalizada que suas antepassadas. Segundo, a psicodinâmica dos sistemas de baixa mobilidade: quem está no topo luta ferozmente para manter as vantagens conquistadas, quem está a caminho (ou acha que está a caminho) se sacrifica para chegar lá, e quem está fora vive em crônico conformismo ou nutre improvável sonho de redenção. Mas o terceiro fator a prover argamassa para tais sistemas talvez seja o mais curioso e interessante: a emergência, no mundo corporativo, de uma estranha forma de espiritualismo.

Em um artigo recentemente publicado na RAE-revista de administração de empresas (à qual este colunista serve como editor), Emma Bell, da Warwick Business School, e Scott Taylor, da Birmingham Business School, analisam a “onda new age” no trabalho. O ponto de partida dos pesquisadores foi a constatação do crescente número de palestras e workshops que declaram ter objetivos espirituais e garantem ser capazes de livrar os gestores de medos e barreiras que os impedem de “ser felizes e tornar suas empresas mais lucrativas”.

A onda do espiritualismo no trabalho é mais um pastiche da Era do Espetáculo, a misturar psicologia de revista feminina e orientalismo de fim de semana. Pressuposto: funcionários espiritualmente satisfeitos são mais eficientes. Conclusão: as empresas que conseguirem conquistar as mentes, os corações e as emoções dos funcionários serão mais lucrativas. Emma e Taylor argumentam que o fenômeno alinha-se ao que Michel Foucault chamou de poder pastoral, uma das estruturas disciplinares da vida e do trabalho modernos. O pensador francês cunhou o termo a partir da metáfora de origem cristã, segundo a qual o pastor cuida do rebanho exercendo controle sobre cada indivíduo e garantindo a sua “salvação” pelo conhecimento (e controle) de seus pensamentos mais íntimos.

As manifestações do poder pastoral podem ser vistas não apenas em seminários e workshops, mas também nas declarações de missões, nos discursos messiânicos de alguns líderes empresariais, em práticas organizacionais e em processos sutis de cooptação dos funcionários e de suas famílias. Em um mundo onde faltam sentido e coerência, os artefatos corporativos procuram preencher as lacunas, fornecendo um senso de direção e propósito. Qualquer semelhança com técnicas de lavagem cerebral pode ser mais que mera coincidência. 
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