FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO
Na hora de enrolar, cada um recorre ao que tem de melhor. Os políticos, além disso, são treinados para adaptar suas falas às expectativas da plateia. E nisso Lula é um mestre. Ele estreou como palestrante remunerado anteontem, apenas dois meses depois de deixar a Presidência da República.
E estreou -ganhando algo em torno de R$ 200 mil- no papel de garoto-propaganda e líder motivacional de uma grande empresa de eletroeletrônicos. Falando a executivos e funcionários, repetiu slogans publicitários e disse coisas como: "Quando a gente distribui, as pessoas vão consumir e vão comprar os produtos da LG logo, logo".
Mikhail Gorbachev, o pai da perestroika, quando deixou o governo, nos anos 90, foi requisitado mundo afora como palestrante, a preço de ouro. Há poucos anos, já escanteado pela roda da história, virou garoto-propaganda da bolsa -não a de valores, mas a Louis Vuitton. O senhor glasnost ainda preserva algum valor de mercado.
Não se sabe se Lula seguirá o mesmo caminho ou se terá o mesmo destino. Mas Lula, de certa forma, já integrou na mesma figura o político afamado e o vendedor de produtos. É o camelô de cátedra.
A lei brasileira não o proíbe de mercadejar dessa forma, embora pareça flagrante o conflito entre os interesses privados em jogo e o que se deve esperar de um chefe de Estado que acaba de deixar o cargo.
Na véspera da palestra inaugural, seu amigo Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, dizia à Folha: "Lula é uma figura global, tem muita credibilidade. Ele vai contar sua experiência e motivar o pessoal". Essa definição das novas atribuições do ex-presidente é muito reveladora. Ela serve perfeitamente para aqueles gurus do capital e da psicologia barata que rodam o mundo com palestras padronizadas ensinando as pessoas a ganhar fortunas e gerir suas vidas. Em geral são apenas mensageiros da globalização da bobagem.
Perto deles, o garoto LG é um gênio.
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