sábado, 5 de março de 2011

Um novo começo


Alex Ribeiro de Washington
Valor Econômico



Quando a presidente Dilma Rousseff foi eleita, as relações entre o Brasil e os EUA estavam nos seus piores momentos em muitos anos. O Conselho Nacional de Inteligência (NIC, na sigla em inglês), orgão do governo americano responsável por traçar estratégias de longo prazo para as políticas militar e externa, discutia por que o grande vizinho mais ao sul, com quem os americanos dividem valores como democracia e livre mercado, havia votado no Conselho de Segurança das Nações Unidas contra a aplicação de sanções ao Irã, acusado de desenvolver um programa nuclear em desacordo com as regras internacionais.

Os dois lados se estranhavam em temas como a polêmica derrubada do governo de Honduras, o socorro humanitário às vítimas do terremoto no Haiti, a tentativa dos americanos de ampliar sua presença militar na Colômbia, a política monetária expansionista nos EUA.

Lobistas brasileiros andavam preocupados com a imagem negativa do país em Washington, algo muito ruim para os interesses econômicos das empresas. Havia rumores de que o deputado Eliot Engel, que lidera o "Brazil Caucus", grupo no Congresso que discute questões relacionadas ao país, considerava abandonar o posto porque sua base eleitoral judaica em Nova York estava furiosa com ações do governo brasileiro, como o reconhecimento do Estado da Palestina. "Vai ser difícil achar um voluntário para substitui-lo", lamentava um lobista.

De repente, o clima mudou. Em entrevista ao jornal "Washington Post", em dezembro, Dilma marcou diferenças importantes com o regime iraniano. Rejeitou o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por suposto adultério, e estendeu a mão para o governo Obama. "Vou tentar construir laços mais próximos com os EUA", disse.

No poder, Dilma tratou de trocar o comando do Itamaraty. Saiu Celso Amorim, que teve uma relação abrasiva com os EUA, e entrou um diplomata da nova geração, Antonio Patriota, que conhece bem Washington. Foi embaixador aqui e, mais do que isso, entende a cabeça dos americanos, entre outros motivos por que é casado com uma americana.

Os EUA responderam rápido. A secretária de Estado, Hillary Clinton, sacrificou o reveillon para comparecer à posse de Dilma, e Barack Obama anunciou viagem ao país [ele chega a Brasília dia 19], em rara menção a assuntos externos feita por um presidente no tradicional discurso ao Congresso e Suprema Corte sobre "o estado da União".

"O governo Obama estava ansioso para se aproximar do novo governo brasileiro, e vice-versa", avalia Michael Shifter, presidente do Interamerican Dialogue. "É um esforço para reiniciar a relação, depois de um período difícil no último ano do governo Lula", afirma Mauricio Cárdenas, diretor da Latin American Initiative, no Brookings Institution.

Poucos em Washington acham, porém, que os problemas foram superados. Dilma fez declarações contra abusos aos direitos humanos no Irã, mas até agora não se pronunciou sobre o programa nuclear do país, tema central de discórdia com os EUA. Também não se sabe ao certo como será resolvido o impasse a respeito da readmissão de Honduras à Organização dos Estados Americanos (OEA).

"Não dá para apagar a história apenas com uma entrevista", afirma Julia Sweig, pesquisadora sênior e diretora de estudos latino-americanos no Council on Foreign Relations.

Para uma fonte do Palácio do Planalto, a visita de Obama ao Brasil ajudará a quebrar o gelo e, se for bem-sucedida, poderá contribuir para que se estabeleça uma proximidade diferenciada entre ele e Dilma. "A relação pessoal entre os presidentes Lula e [George W.] Bush constituiu base importante para o bom relacionamento entre Brasil e EUA nos últimos anos", concorda Roger Noriega, que foi o secretário responsável pelas relações com a América Latina no Departamento de Estado no governo Bush e hoje é pesquisador do American Enterprise Institute.

A realidade, porém, é que as relações entre Brasil e EUA começaram a se deteriorar ainda no governo Bush, em parte devido à política americana no Oriente Médio e ao fracasso das negociações da Área de Livre Comercio das Américas (Alca). "Lula e Bush tinham muita química entre si, mas a agenda foi vazia naquele período", afirma Julia Sweig, do Council on Foreign Relations.

A relativa falta de empatia de Obama com a América Latina surpreende, porque o começo de seu governo foi promissor. Em abril de 2009, com três meses no cargo, o presidente americano arrancou aplausos numa reunião de cúpula das Américas em Trinidad e Tobago ao defender "um novo começo" nas relações entre os EUA e Cuba. Ele conversou com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um dos maiores adversários dos interesses americanos na região, e prometeu mudanças nas relações com a América Latina. "A política dos EUA não deve ser de interferência nos outros países, o que também significa que os EUA não podem ser acusados de todos os problemas que acontecem na região", disse.

Três semanas antes, em uma reunião do G-20 em Londres, Obama foi mostrado pelas câmeras de televisão fazendo festa para Lula. "Esse é o cara", disse o presidente americano. "O político mais popular do planeta."

"Obama criou expectativas muito altas", afirma Shifter, do Interamerican Dialogue. "Talvez Lula tenha achado que a política para Cuba fosse mudar rapidamente, o que não aconteceu."

A relação começou a azedar cedo, em fins de julho de 2009, quando da destituição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, empresário que dera uma forte guinada à esquerda.

"Obama assegurou a Lula que iria trazer Zelaya de volta ao poder", afirma Mark Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research. No fim, os Estados Unidos reconheceram o governo escolhido nas eleições convocadas pelos militares. "Governos da região, incluindo o Brasil, viram uma ameaça que remonta aos dias em que golpes militares tiravam governos de esquerda do poder."

As coisas pioraram um pouco mais com o anúncio de que os EUA planejavam instalar novas bases militares na Colômbia. "A expansão das bases militares na Colômbia é algo que nem a administração Bush tentou fazer", diz Weisbrot.

Chegou-se ao fundo do poço quando o Brasil votou contra sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU, no ano passado. Antes, o Brasil havia costurado com a Turquia um acordo para um terceiro país enriquecer urânio para o Irã, mas os americanos bombardearam a ideia.

Não há nada, no curto prazo, sendo discutido nas Nações Unidas sobre o problema central do programa nuclear iraniano, apenas direitos humanos, e em dezembro o Brasil deixará seu assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU, reduzindo as chances de o país se envolver naquele tema espinhoso no curto prazo. Mas essa é uma ferida ainda aberta no governo Dilma. "É um assunto que vai voltar à tona em algum momento, porque é uma alta prioridade para os EUA", prevê Shifter." Será importante observar como os dois países vão lidar com isso."

De forma semelhante, ainda está pendente a reintegração de Honduras à OEA, à qual o Brasil se opõe. "Esse é um tema que, mesmo no governo Dilma, coloca os dois países em lados diferentes", afirma Weisbrot. "Os EUA querem a readmissão de Honduras, mas o Brasil se opõe porque quer algumas garantias, incluindo proteção aos direitos humanos."

De todo modo, EUA e Brasil conseguiram tocar uma agenda relevante em 2010. Os dois países chegaram a um acordo, por exemplo, na disputa sobre os subsídios americanos à produção de algodão, que se arrastava havia dez anos. Os Estados Unidos foram fundamentais para garantir o aumento das cotas do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI), usando o poder de veto para pressionar europeus, que se opunham à reforma. Também em 2010 foi assinado um acordo militar, algo que não existia desde 1977, quando o tratado em vigor foi denunciado pelo então presidente Ernesto Geisel.

"O Brasil é o melhor aliado que os Estados Unidos podem ter", observa Mauricio Cárdenas, do Brookings Institution. "As relações [americanas] com a China e a Rússia serão sempre tensas." O Brasil, afirma, é um país democrático, ocidental, com economia de mercado e muito respeitado internacionalmente. "Se o Brasil tem uma opinião sobre o tema China, isso pesa muito mais do que a posição dos Estados Unidos, pela simples razão de que o Brasil tem credibilidade."

O forte crescimento da China é um fato novo que aproxima Brasil e Estados Unidos. Nos últimos anos, os chineses aumentaram sua presença na América Latina, com empréstimos para governos da região e investimentos no setor de produtos básicos, como minério. Hoje, o país asiático é o maior parceiro do Brasil, com uma corrente de comércio de US$ 56 bilhões. É um motivo de preocupação para os americanos, que veem diluir sua influência na região, mas a China começa a ser considerada de forma crítica também pelo governo de Dilma.

"A ascensão da China é motivo para o Brasil ter uma relação mais fluida com os Estados Unidos", afirma o professor Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Segundo ele, o Brasil reproduz com a China padrões típicos de país em desenvolvivimento versus país industralizado, exportando produtos básicos e importando bens industrializados. "Não seria adequado a gente ter um canal privilegiado com Washington?", pergunta. "Hoje não temos esse canal, em parte porque não precisávamos dele. Mas será que, com o novo Brasil e a nova China, não vamos precisar?"

Não se espere, porém, muita coisa concreta da visita de Obama. Recentemente, o presidente americano deu apoio à Índia em sua pretensão de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas é improvável que faça o mesmo com o Brasil, com o tema do Irã ainda não completamente esquecido. Com sua economia ainda patinando, há pouca receptividade nos Estados Unidos para medidas de liberalização comercial como a Rodada Doha. Há alguma chance de o Congresso americano derrubar no fim do ano a barreira ao etanol brasileiro, mas ainda é muito cedo para Obama se comprometer com o tema.

Para preencher o vácuo, escalões técnicos dos dois países correm contra o tempo. Procuram colocar no papel medidas capazes de mostrar que o encontro teve consequências palpáveis -por exemplo, um mecanismo permanente para resolver controvérsias comerciais e de investimentos.

"Não é preciso avançar com Doha para melhorar as relações comerciais entre os dois países", afirma Noriega, do American Enterprise Institute. "Muitas empresas americanas veem o Brasil como um território proibido, porque a economia é um pouco fechada."

Julia Sweig, do Council on Foreign Relations, pondera que essa não será uma visita com resultados concretos. "Será uma viagem simbólica."

Com um pronunciamento em Brasília (dia 19) e passagem por uma favela no Rio (dia 20), o presidente americano deve protagonizar um verdadeiro show midiático. "No mundo todo, a popularidade de Obama é maior do que a dos Estados Unidos e, nesse ponto, o Brasil não é diferente", afirma Clifford Young, diretor-executivo do Ipsos Public Affairs. Obama provavelmente vai reconhecer o Brasil como um importante ator mundial e prometerá cooperação para o país superar gargalos do desenvolvimento econômico e social.

Para o americano médio, porém, a viagem deve passar em branco. A opinião pública não se interessa muito por assuntos internacionais, exceto quando há guerras envolvendo os EUA. Os políticos também dão pouca importância ao tema.

Na semana passada, o responsável pela América Latina no Departamento de Estado, Arturo Valenzuela, depôs na Câmara de Deputados. Não há nada mais relevante em sua agenda de trabalho, até porque é a primeira vez que Obama vai à América Latina, exceto por duas visitas ao México, país que é quase um assunto interno para os EUA, e a reunião de Trinidad e Tobago.

Durante o depoimento de Valenzuela, deputados da Flórida, onde há uma grande comunidade de cubanos, perguntaram muito sobre as relações com o regime de Raúl Castro. Alguns queriam saber da Venezuela. Uma deputada de Ohio o questionou sobre o emperrado acordo de livre-comércio com a Colômbia, porque, segundo ela, quatro grandes empresas de sua base eleitoral têm interesse no assunto.

"O Congresso é muito paroquial, mas o governo Obama entende a importância da America Latina", diz Shifter, do Interamerican Dialogue
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